Um gestor que procura financiamento tende a bater à porta do seu banco comercial. Quando essa porta se fecha, ou abre com condições que inviabilizam o projeto, a pergunta seguinte é quase sempre a mesma: existe alguma alternativa pública? A resposta, em Portugal, passa muitas vezes pelo Banco Português de Fomento. E a primeira coisa a perceber sobre ele é contraintuitiva. Na maior parte dos casos, não é ao Banco de Fomento que a empresa se dirige, nem é dele que recebe o dinheiro.

O Banco Português de Fomento, ou BPF, nasceu em 2020 da fusão de três entidades públicas que estavam dispersas: a Instituição Financeira de Desenvolvimento, a PME Investimentos e a SPGM, a sociedade que coordenava o sistema de garantia mútua. O objetivo era concentrar num só balcão institucional os instrumentos que o Estado usa para corrigir falhas de mercado no financiamento empresarial. Falhas de mercado é a expressão técnica. Na prática, quer dizer situações em que uma empresa viável não consegue financiamento em condições razoáveis porque o risco, tal como o banco comercial o lê, é elevado demais.

É aqui que o BPF opera. Não para competir com a banca, mas para tornar financiável aquilo que a banca sozinha recusaria ou encareceria. Compreender como o faz, através de que instrumentos e com que lógica, poupa a um gestor semanas de desorientação entre siglas.

Enquadramento

O que é, afinal, um banco de fomento

A designação induz em erro. Um banco de fomento não funciona como o banco da esquina. Não tem balcões para o público, não capta depósitos, não gere contas à ordem. É um banco de desenvolvimento, uma categoria que existe em praticamente todos os países europeus. A Alemanha tem o KfW, a França tem a Bpifrance, a Espanha tem o ICO. Portugal tem o BPF. Todos partilham a mesma vocação: usar recursos públicos e sobretudo a capacidade do Estado de assumir risco, para mobilizar financiamento privado que de outra forma não chegaria a certas empresas ou certos projetos.

O modelo dominante é o que se chama financiamento intermediado. Em vez de emprestar diretamente à empresa, o BPF disponibiliza fundos ou garantias à banca comercial, que depois faz chegar o crédito ao cliente final. O banco comercial continua a ser quem analisa o processo, aprova e desembolsa. O BPF entra por trás, reduzindo o risco que esse banco corre, o que se traduz em taxas mais baixas, prazos mais longos ou exigências de colateral menores para a empresa.

Há exceções relevantes. Em capital de risco e em certos instrumentos de maior dimensão, o BPF pode intervir diretamente, entrando no capital de uma empresa ou coinvestindo ao lado de fundos privados. Mas para a esmagadora maioria das PME que procura crédito, o contacto é com o banco comercial. O BPF é o mecanismo invisível que torna a operação possível.

Ponto de partida
Na maioria das linhas, a empresa candidata-se no seu banco comercial, não no BPF. A instrução do processo, a decisão de crédito e o desembolso ficam com o banco. O papel do BPF é reduzir o risco dessa operação para a tornar viável.

Os três instrumentos que interessam à sua empresa

A oferta do BPF organiza-se, na prática, em três grandes famílias. Não são compartimentos estanques, uma mesma operação pode combinar linha de crédito com garantia mútua, mas cada família responde a uma necessidade distinta. Vale a pena olhar para cada uma pelo que resolve.

1. Linhas de crédito

São protocolos entre o BPF, o sistema bancário e, em regra, o sistema de garantia mútua, que criam condições de financiamento específicas para um determinado fim ou perfil de empresa. Uma linha define à partida o montante global disponível, os prazos, os fins elegíveis (tesouraria, investimento, fundo de maneio) e a taxa ou a bonificação aplicável. Quando o Estado quer apoiar um setor em dificuldade, responder a um choque como a pandemia ou a subida dos custos de energia, ou estimular um tipo de investimento, é através de uma linha que costuma fazê-lo.

O que distingue estas linhas do crédito bancário normal não é serem dinheiro gratuito. Não são. A empresa contrai um empréstimo, paga juros e devolve o capital. A diferença está nas condições: taxas abaixo do que a empresa obteria sozinha, prazos de reembolso mais longos, períodos de carência no início e quase sempre uma garantia pública que substitui parte do colateral que o banco exigiria. Para uma PME sem imóveis para dar em hipoteca, esta última peça é muitas vezes o que separa o não financiável do financiável.

Quem acompanhou os últimos anos reconhecerá o padrão. A Linha Capitalizar, orientada para investimento e reforço de fundo de maneio, tornou-se referência de financiamento intermediado com garantia mútua. Durante a pandemia, as linhas de apoio à liquidez desenharam-se com a mesma arquitetura, montante global definido pelo Estado, distribuição pela banca e garantia pública a cobrir o risco. O choque energético de 2022 gerou linhas com a mesma lógica para setores mais expostos. O nome muda com a conjuntura. O mecanismo por baixo mantém-se. É esse mecanismo que interessa perceber, porque haverá sempre uma linha nova quando surgir a próxima necessidade.

2. Garantias mútuas

Este é o instrumento mais mal compreendido e, provavelmente, o mais útil. Uma garantia mútua é uma fiança prestada por uma Sociedade de Garantia Mútua à empresa, perante o banco. Traduzindo: em vez de a empresa dar como colateral um imóvel, uma máquina ou o aval pessoal do sócio, é a sociedade de garantia mútua que garante ao banco o reembolso de uma parte do empréstimo, tipicamente entre 50% e 80% do capital em dívida.

Se a empresa falhar o pagamento, a sociedade de garantia responde ao banco pela percentagem garantida. Isto muda a equação de risco do banco de forma decisiva. Um crédito que, sem garantia, teria de ser recusado ou coberto por colateral que a empresa não tem, passa a ser aprovável. A empresa paga por isto uma comissão de garantia sobre o valor garantido e subscreve uma pequena participação no capital da sociedade mútua. É um custo, mas quase sempre inferior ao custo de não ter o financiamento.

O sistema opera através de quatro sociedades (Norgarante, Garval, Lisgarante e Agrogarante, esta última vocacionada para o setor agrícola e agroalimentar), com a coordenação técnica assegurada dentro do universo do BPF. Para a empresa, a distinção entre elas é sobretudo geográfica e setorial, o funcionamento é o mesmo.

"A garantia mútua não baixa a taxa de juro por magia. Baixa-a porque muda aquilo que o banco tem a perder se a operação correr mal."

3. Fundos de coinvestimento e capital de risco

A terceira família afasta-se da lógica do crédito. Aqui não há empréstimo a devolver, há entrada de capital. O BPF gere ou participa em fundos que investem no capital próprio de empresas, sobretudo startups e empresas em fase de crescimento, quase sempre ao lado de investidores privados. É o chamado coinvestimento: por cada euro que um fundo privado ou um business angel coloca numa empresa, o veículo público coloca outro, ou uma fração acordada, partilhando risco e retorno.

A racionalidade é dupla. Por um lado, aumenta o volume de capital disponível para empresas que não se financiam por dívida porque não têm ainda receitas estáveis nem ativos para dar em garantia. Por outro, a presença do investidor público serve de sinal de validação e atrai capital privado que, sozinho, hesitaria. Para uma startup tecnológica em ronda de investimento, este é o ponto de contacto com o BPF, muito distante da linha de crédito que interessa a uma PME industrial.

O que muda na prática para quem gere

Traduzir isto para a decisão concreta de um gestor exige separar três situações que costumam confundir-se.

A primeira é a empresa que precisa de crédito para investir ou para tesouraria e tem um banco disposto a analisar, mas tropeça no colateral ou na taxa. Para esta, o caminho natural é uma linha protocolada com garantia mútua. Não se dirige ao BPF, dirige-se ao seu banco e pergunta que linhas do Banco de Fomento estão ativas e se o seu projeto encaixa. Um gestor de conta informado saberá responder. Se não souber, é sinal de que convém procurar aconselhamento antes de aceitar as condições normais de balcão.

A segunda é a empresa viável que o banco recusa por risco. Aqui a garantia mútua deixa de ser um extra e passa a ser a peça central. A conversa a ter com o banco não é apenas "quero um empréstimo", é "quero um empréstimo com garantia mútua", porque é a garantia que reabre a porta.

A terceira é a empresa de capital, tipicamente uma startup, que não se financia por dívida. Para esta, linhas e garantias são irrelevantes. O que importa é saber que fundos coinvestem em Portugal e como aceder a eles, geralmente através dos fundos de capital de risco privados que já são parceiros do ecossistema público.

Erro frequente
Muitas empresas descobrem que existia uma linha adequada só depois de terem contratado crédito em condições normais. As linhas não são publicitadas ao balcão como produto próprio. Perguntar ativamente, antes de assinar, é a diferença entre pagar a taxa de mercado e pagar uma taxa bonificada.

Custos, prazos e a letra pequena que importa

Nenhum destes instrumentos é gratuito. Apresentá-los como se fossem seria um desserviço. O que existe é uma transferência de risco do privado para o público que se traduz em melhores condições para a empresa, não em ausência de condições.

Numa linha com garantia mútua, os custos a considerar são três. A taxa de juro do empréstimo, que o banco cobra e que a bonificação da linha pode reduzir. A comissão de garantia, paga à sociedade de garantia mútua e calculada sobre o valor garantido e o prazo. E a subscrição de capital na sociedade mútua, um valor pequeno e reembolsável no final da operação. Somados, estes custos são quase sempre inferiores ao diferencial de taxa que a empresa pagaria sem garantia, ou ao custo de não obter de todo o financiamento.

Os prazos variam com o fim. Financiamento de tesouraria tende a ser mais curto, investimento em ativos fixos pode estender-se por vários anos, com períodos de carência de capital no arranque. A carência é um detalhe subestimado: adiar o início do reembolso do capital por um ou dois anos dá à empresa fôlego para o investimento gerar retorno antes de começar a pagá-lo.

InstrumentoO que resolveCusto principal
Linha de créditoTaxa e prazo desfavoráveis no crédito normalJuro (bonificado) sobre o capital
Garantia mútuaFalta de colateral ou avalComissão de garantia sobre o valor garantido
CoinvestimentoAusência de acesso a capital próprioDiluição no capital da empresa

No coinvestimento a lógica de custo é outra. Não há juro nem comissão, há diluição. Ao entrar capital novo, a participação dos sócios existentes reduz-se em percentagem. Em troca, a empresa recebe recursos que não tem de devolver e um parceiro com interesse no seu sucesso. Avaliar se essa troca compensa é uma decisão estratégica, não financeira no sentido estrito, que merece a mesma ponderação de qualquer entrada de investidor.

Onde o BPF encaixa no financiamento de uma empresa

Vale a pena situar estes instrumentos no mapa mais amplo das opções de uma empresa. O Banco de Fomento não substitui a banca comercial, o capital de risco privado ou os fundos europeus a fundo perdido. Combina-se com eles.

Um projeto de investimento pode articular um incentivo não reembolsável do Portugal 2030 para uma parte, uma linha de crédito com garantia mútua para a componente que exige financiamento e capitais próprios da empresa para o remanescente. São peças de um mesmo puzzle. O erro é tratá-las como alternativas mutuamente exclusivas quando, bem estruturadas, se reforçam. A garantia mútua, em particular, é o instrumento que mais frequentemente destrava operações que de outra forma ficariam paradas à espera de um colateral que a empresa não consegue reunir.

Para as empresas de tecnologia e crescimento rápido, o encaixe é diferente. O coinvestimento público entra numa lógica de rondas sucessivas de capital, ao lado de business angels, fundos de venture capital e, mais tarde, investidores institucionais. Aqui o BPF é uma peça do ecossistema de capital, não uma fonte de crédito.

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Como aplicar este conhecimento

Na prática, o que vemos com mais frequência é uma empresa que aceitou as condições normais do seu banco sem saber que existia uma linha ou uma garantia que teria mudado a equação. O sistema do Banco de Fomento não é opaco por desenho, mas é pouco divulgado ao balcão. Cabe à empresa, ou a quem a assessora, perguntar pelas condições certas antes de assinar.

A primeira recomendação é simples: antes de contratar qualquer crédito de montante relevante, confirmar se existe uma linha ativa aplicável ao fim pretendido e se a operação pode ser coberta por garantia mútua. Esta pergunta, feita ao gestor de conta ou a um consultor de financiamento, custa uma conversa e pode valer vários pontos percentuais de taxa ao longo de anos.

A segunda é olhar para o financiamento de forma integrada. Quando um projeto combina investimento elegível para incentivos, componente de crédito e capitais próprios, a estrutura ótima raramente é aquela que a empresa monta sozinha ao balcão. Articular incentivo, linha com garantia e tesouraria própria exige uma visão de conjunto que compensa desenhar antes de comprometer a primeira peça.

Para as startups, a mensagem é outra. O contacto com o capital público faz-se quase sempre através dos fundos privados que já são parceiros do ecossistema. Preparar bem uma ronda, com as métricas e a documentação que esses fundos esperam, é o que abre a porta ao coinvestimento, não uma candidatura direta ao BPF.

É nesta leitura integrada, entre instrumentos públicos, crédito bancário e capital privado, que trabalhamos com clientes. O Banco de Fomento é uma ferramenta poderosa quando se sabe qual das suas peças serve o caso concreto. Usá-lo bem começa por perguntar as perguntas certas antes de fechar a operação.

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