Certificados de Aforro voltam a explodir: 537,6 milhões em abril
Mercados, Análise

Os números de abril

As subscrições líquidas de Certificados de Aforro atingiram 537,6 milhões de euros em abril, o valor mais alto registado em qualquer mês dos últimos doze. O dado é do IGCP, a agência que gere a dívida pública portuguesa, confirmando uma tendência que se vinha a desenhar desde o início do ano: o produto de poupança mais popular do Estado voltou a captar dinheiro a um ritmo que não se via desde os meses imediatamente seguintes à reforma de 2023.

O stock total subiu para 41,7 mil milhões de euros, novo máximo histórico. Para enquadrar a escala: este montante representa cerca de 16% da dívida pública portuguesa colocada junto de retalho. Quando se fala dos Certificados de Aforro fala-se de um dos principais credores do Estado. Esse credor são as famílias portuguesas.

Por detrás do número está uma mecânica simples. A taxa de juro base da série E subiu para 2,138% em maio, contra 2,016% no mês anterior. A subida é direta: o cálculo da remuneração indexa-se à Euribor a três meses, com um teto de 2,5%. Quando a Euribor sobe, a taxa dos Aforro sobe a reboque.

E em abril a Euribor subiu por uma razão concreta: a guerra entre Israel e o Irão fez disparar o preço do petróleo, reacendeu o receio inflacionário na zona euro e empurrou o mercado a recalibrar as expectativas sobre o ritmo de descida de taxas do BCE. Resultado: a Euribor a três meses, que vinha a aliviar lentamente, voltou a tensionar. O efeito chegou ao IGCP em poucas semanas.

537,6M€
Subscrições em abril
41,7mM€
Stock total recorde
2,138%
Taxa base de maio
54
Meses de queda no Tesouro

Por que voltam os aforradores

A primeira leitura é puramente aritmética. Com a taxa base a 2,138% e a possibilidade de chegar a 2,5%, o produto deixa de ser irrelevante face à concorrência. Os depósitos a prazo da banca portuguesa pagam, no agregado, taxas inferiores à inflação. Os melhores produtos do mercado, normalmente reservados a montantes elevados ou a campanhas pontuais, oferecem entre 1,8% e 2,3%. Os Aforro, com prémio de permanência e capitalização automática, deixaram de ser um produto inferior.

A segunda leitura é estrutural. Os Certificados de Aforro têm três vantagens que a banca não consegue replicar: garantia do Estado, liquidez relativamente rápida (basta um pedido de resgate, com alguns dias de espera) e ausência de spread bancário. O aforrador português conhece este produto há décadas. Confia nele. E desconfia, mais do que se admite, das margens da banca.

Não é por acaso que o crescimento dos Aforro coincide com uma fase em que as margens bancárias atingiram máximos históricos. Quando o cliente percebe que o banco está a remunerar mal os seus depósitos enquanto cobra caro o crédito, procura alternativas. O IGCP é a alternativa mais óbvia para quem quer rendimento garantido sem perder o sono com risco de mercado.

Contexto
Em 2023, quando a taxa base atingiu o teto de 3,5% e foi posteriormente revista para 2,5%, os Aforro registaram subscrições mensais acima de mil milhões. O atual ciclo é mais moderado, mas o mecanismo é o mesmo: quando o produto fica competitivo, o dinheiro aparece.

O outro lado da dívida pública

Enquanto os Aforro batem recordes, os Certificados do Tesouro estão em queda há 54 meses consecutivos. Quatro anos e meio de saídas líquidas. O produto, que foi lançado em 2010 como alternativa de longo prazo com indexação ao crescimento do PIB, perdeu praticamente toda a tração junto dos retalhistas.

O motivo é simples e brutal: os Tesouro foram desenhados para um mundo de taxas baixas. Quando a remuneração depende de uma taxa fixa anual mais uma componente ligada ao crescimento económico e essa fórmula passa a gerar retornos abaixo dos 2%, o produto fica desinteressante perante alternativas com liquidez maior e remuneração comparável. As Séries D, E e F dos Tesouro, ainda em vigor para quem as subscreveu na altura certa, continuam a ser remuneradas pelas regras antigas. Mas ninguém subscreve novas.

A diferença entre os dois produtos é instrutiva. Os Aforro indexam-se à Euribor, ou seja, ao preço do dinheiro de curto prazo no mercado interbancário. Os Tesouro foram desenhados para premiar o crescimento real da economia portuguesa. O primeiro mecanismo é volátil e responde rapidamente ao ciclo. O segundo é estável e responde lentamente. Em fases de subida de taxas, o primeiro acelera e o segundo paralisa.

O que isto significa para o IGCP

Para o gestor da dívida pública portuguesa o cenário tem virtudes e custos. A virtude é evidente: 41,7 mil milhões em Aforro são 41,7 mil milhões que o IGCP não precisa de ir buscar aos mercados internacionais. O custo médio desta dívida é hoje inferior ao das emissões de Obrigações do Tesouro de prazos comparáveis. Diversificação de credores, a custo competitivo.

O custo é a sensibilidade ao ciclo. Quando a Euribor sobe, a fatura do IGCP sobe imediatamente sobre todo o stock indexado. Quando a Euribor desce, a fatura desce, mas a captação também. É uma faca de dois gumes que o Tesouro português aprendeu a gerir nos últimos três anos.

O efeito Médio Oriente

Vale a pena olhar com atenção para o gatilho desta subida. A guerra entre Israel e o Irão, que escalou a partir de meados de abril, fez o Brent saltar para níveis que não se viam há mais de um ano. A perceção de risco geopolítico contaminou os mercados de energia, depois os mercados de matérias-primas e finalmente as expectativas de inflação.

O BCE, que vinha a sinalizar um caminho de cortes mais ágil, passou subitamente a falar em prudência. Os mercados absorveram a mensagem e a curva de futuros da Euribor recalibrou-se em alta. Não foi um movimento brusco, mas foi suficiente para inverter a trajetória que vinha desde fevereiro.

Aqui está o ponto interessante: um evento geopolítico distante, num conflito em que Portugal não tem exposição direta significativa, acabou por aumentar a remuneração dos pequenos aforradores portugueses. A globalização financeira tem destas reentrâncias inesperadas. O custo do dinheiro em Frankfurt define o que um reformado em Bragança recebe pelos seus Certificados.

"Um evento geopolítico distante, num conflito em que Portugal não tem exposição direta, acabou por aumentar a remuneração dos pequenos aforradores portugueses."

Comparação rápida

Para os investidores empresariais e particulares que avaliam alternativas de tesouraria de curto e médio prazo, vale a pena comparar os instrumentos disponíveis no momento atual.

InstrumentoTaxa típicaLiquidezRisco
Certificados de Aforro (Série E)2,138%3 meses para resgateSoberano PT
Depósitos a prazo (média banca)1,2% a 1,8%VariávelFundo de Garantia
Obrigações do Tesouro 5 anos2,8% a 3,0%Mercado secundárioSoberano PT
Fundos monetários euro2,3% a 2,5%DiáriaDiversificado
Certificados do Tesouro (stock antigo)Variável (fórmula PIB)LimitadaSoberano PT

Cada instrumento responde a um perfil diferente. Os Aforro continuam a ser a melhor opção para pequenas poupanças com horizonte indefinido. Para tesouraria empresarial, os fundos monetários euro oferecem maior flexibilidade. Para horizontes mais longos com algum apetite por risco de mercado, as Obrigações do Tesouro pagam mais mas exigem aceitar marcação ao mercado.

O que o aforrador português está mesmo a dizer

Olhar para 537,6 milhões em subscrições num mês como apenas um dado técnico é perder o essencial. O número diz algo sobre o estado de espírito do aforrador português que merece interpretação mais larga.

Há um país que continua a poupar. A taxa de poupança das famílias portuguesas tem crescido desde 2023, contra a tendência histórica de queda. Há mais dinheiro a entrar em produtos de baixo risco do que a sair para consumo ou para investimento de risco. Isto não é, por si só, boa notícia para uma economia que precisa de capital paciente em projetos produtivos, em capital de risco, em mercado de capitais. Mas é um facto que os números do IGCP confirmam mês após mês.

Há também uma desconfiança implícita no sistema bancário. Quando um produto do Estado, com mecânica relativamente complexa e prazos de resgate, capta mais dinheiro do que muitos depósitos a prazo, está a dizer-se algo sobre a relação entre os clientes e os seus bancos. Não é uma rutura, é um aviso. Os portugueses não tiram o dinheiro do banco, mas tiram-no do banco para pôr no IGCP. A diferença é subtil. As consequências para a margem financeira da banca, no agregado, não são triviais.

E há uma terceira leitura, menos confortável. Um stock de 41,7 mil milhões em Certificados de Aforro é dinheiro que está parado. Não vai para crédito empresarial, não vai para capital de risco, não vai para fundos de investimento que possam financiar empresas portuguesas em crescimento. É dinheiro a ganhar 2% num produto do Estado. Para uma economia que precisa desesperadamente de profundidade no mercado de capitais, isto é parte do problema. O capital existe. A canalização para os usos mais produtivos é que continua a falhar.

Esta é a contradição que ninguém quer assumir abertamente. As mesmas famílias que se queixam de que as empresas portuguesas estão subcapitalizadas são as que preferem emprestar ao Estado a 2% do que arriscar 2,5% num fundo que financie empresas. A culpa não é delas. O sistema está construído para premiar a aversão ao risco e para não premiar a confiança em ativos produtivos. Os Aforro são uma expressão racional desse sistema.

O que vem aí

A trajetória dos próximos meses depende de duas variáveis. A primeira é a evolução do conflito no Médio Oriente. Se o conflito desescalar e o preço do petróleo aliviar, a Euribor retoma a descida e a taxa dos Aforro reduz na próxima revisão. Se o conflito se prolongar ou escalar, a Euribor mantém-se tensionada e os Aforro continuam a captar.

A segunda é a postura do BCE. A próxima reunião e as comunicações associadas serão lidas com lupa. Qualquer sinal de pausa na descida de taxas reforça o atrativo dos Aforro. Qualquer aceleração no corte reduz esse atrativo a partir do verão.

Há ainda uma variável estrutural a observar: a reforma dos Tesouro. O IGCP não tem comunicado publicamente intenção de reformar este produto, mas 54 meses consecutivos de queda começam a ser difíceis de ignorar. Se quiser recuperar relevância junto do retalho, terá de redesenhar a mecânica de remuneração para a tornar mais previsível e mais competitiva. Manter o produto vivo apenas pela inércia do stock existente é uma estratégia que não dura para sempre.

Perspetiva Open Capital

O que isto significa para a sua empresa

O recorde dos Certificados de Aforro tem leituras úteis para quem gere uma empresa, mesmo que não esteja diretamente exposto ao produto. Três tópicos merecem atenção.

Para a gestão de tesouraria, vale a pena reavaliar regularmente o leque de alternativas disponíveis no mercado. Os depósitos a prazo da banca, sobretudo para saldos médios e elevados, continuam mal posicionados face a alternativas como fundos monetários euro, Bilhetes do Tesouro e produtos estruturados de curto prazo. Empresas com excedentes de tesouraria a render abaixo da inflação estão a perder valor real todos os meses. Em ambiente de taxas que vai oscilar, uma revisão semestral da política de tesouraria deixou de ser opcional.

Para quem capta capital, o sinal é incómodo. O dinheiro existe nas famílias portuguesas e está disponível para risco soberano a 2%. Convencer esse capital a entrar em equity de empresas portuguesas exige diferencial de retorno significativo, narrativa clara e mecânicas de saída credíveis. As rondas que assumem que o capital está disponível e barato vão continuar a chocar com a realidade de um mercado em que o capital prefere a segurança e a liquidez relativa do IGCP.

Para quem depende de crédito bancário, o cenário é o oposto. Se a banca está a perder depósitos para o Estado, a competição por captação de fundos pressiona as margens. Isto pode reabrir alguma margem de negociação em condições de crédito empresarial nos próximos trimestres, sobretudo para empresas com balanços sólidos e relações bancárias estabelecidas. Vale a pena renegociar agora, antes de o ciclo virar outra vez.

O dado de abril não é, por si só, uma viragem. É a confirmação de uma tendência. O capital português continua disponível, continua avesso ao risco e continua a preferir o Estado à banca quando os dois competem pela mesma poupança. A questão estratégica para o tecido empresarial é como atrair parte deste capital para usos mais produtivos. Não há resposta fácil. Há, isso sim, uma janela para quem souber construir propostas competitivas em retorno, em transparência e em horizonte temporal.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]