A 31 de março de 2026 havia em Portugal 767.094 postos de trabalho nas administrações públicas. Não cerca de 767 mil. Não à volta de setecentos e sessenta e sete mil. 767.094, com o quatro no fim, como se alguém tivesse percorrido os corredores todos do país com uma prancheta na mão, contado cabeça a cabeça e fechado a porta atrás de si com a consciência tranquila.

O número é da Direção-Geral da Administração e do Emprego Público, sai de três em três meses na Síntese Estatística do Emprego Público e é sempre notícia. Nesta edição foi máximo da série: mais 8.058 postos do que um ano antes, mais 4.816 do que no trimestre anterior, mais 39.393 do que a 31 de dezembro de 2011, quando a contagem começou e a troika ainda andava a arrumar as malas. Sai nos jornais na sexta-feira e no plenário na semana seguinte. Um lado usa-o para provar que o Estado incha. O outro usa-o para provar que o Estado repõe. Ambos citam o mesmo algarismo com o mesmo à-vontade e nenhum deles leu a nota metodológica, que existe precisamente para não ser lida.

Vale a pena lê-la, porque diz uma coisa simples. Aquilo não são pessoas. São postos de trabalho. Quem tem dois vínculos conta duas vezes. O docente universitário que acumula com um instituto público, o médico que tem contrato num hospital e horário noutro, o técnico que soma funções em duas entidades. Cada um deles é uma pessoa e dois números. Quantos são, ao certo, não se publica. Não se publica porque não se sabe.

Depois há o perímetro, que é onde a coisa fica interessante. A DGAEP conta as entidades que o INE classifica dentro do setor institucional das administrações públicas, segundo as regras europeias das contas nacionais. Entra o que Bruxelas manda entrar e sai o que Bruxelas manda sair. Empresas públicas fora do perímetro não contam, mesmo quando são inteiramente do Estado, mesmo quando o Estado lhes escolhe a administração e lhes cobre o prejuízo.

O Conselho das Finanças Públicas conta essas. No final de 2024 o setor empresarial do Estado empregava 187.088 trabalhadores, mais 14,5% do que no ano anterior, o equivalente a 3,7% do emprego nacional e a 23,2% do emprego do setor público. Uma parte destes 187 mil já está incluída nos 753.850 que a DGAEP contou nesse mesmo dezembro, porque as respetivas empresas foram reclassificadas para dentro do perímetro. Que parte, exatamente, não se consegue apurar cruzando as duas publicações. Somar dá erro. Não somar também dá erro. E ninguém é obrigado a dizer qual dos dois erros está a cometer.

Falta o terceiro grupo, o mais desconfortável: os que trabalham para o Estado sem vínculo nenhum. Em 2025 o Serviço Nacional de Saúde gastou 266,78 milhões de euros em prestadores de serviços, dos quais 249,71 milhões em médicos tarefeiros, uma subida de 17,3% em relação a 2024. Em horas: 5.776.193 de medicina, 468.773 de enfermagem, 443.989 de outros profissionais de saúde. Quase 6,7 milhões de horas contratadas num ano.

À razão de mil e setecentas horas anuais, que é uma estimativa generosa do que rende um trabalhador a tempo inteiro, aquilo dá perto de quatro mil pessoas a trabalhar a tempo inteiro no SNS. Em hospitais do Estado, com doentes do Estado, pagas com dinheiro do Estado. No orçamento aparecem como aquisição de serviços. Na estatística do emprego público não aparecem de todo. São zero. E isto é apenas a saúde, antes de se falar da limpeza, da segurança, dos centros de contacto, dos consultores de informática que passam anos inteiros no mesmo edifício com o crachá de outra empresa ao pescoço.

Convém dizer que nada disto é conspiração. É o contrário de uma conspiração. Cada instituição faz corretamente aquilo que lhe compete: a DGAEP mede o que a lei lhe manda medir, o INE aplica um perímetro que não inventou, o Conselho das Finanças Públicas analisa o universo empresarial que lhe cabe analisar. Ninguém mente e ninguém esconde. Simplesmente não há ninguém encarregado de somar. Nem sequer é claro quem teria autoridade para o fazer.

Aqui é que a ironia se torna difícil de suportar, porque o Estado é ferozmente exigente com os outros neste capítulo. Uma entidade pública que não reporte a tempo os dados de recursos humanos no Sistema de Informação da Organização do Estado sofre retenção de 10% das dotações ou transferências do mês seguinte, bloqueio dos processos de recursos humanos e dos processos de aquisição de bens e serviços e, se reincidir sem justificação, pode custar ao dirigente a comissão de serviço. Ou seja: contar mal é falta grave e paga-se com dinheiro e com o lugar. Quando é o subordinado a contar.

A 8 de outubro de 2025, o Tribunal de Contas emitiu o parecer sobre a Conta Geral do Estado de 2024. Juízo de não conformidade com a Lei de Enquadramento Orçamental. A Conta não incluía as demonstrações orçamentais e financeiras consolidadas da Administração Central e da Segurança Social, o que tornou impossível ao Tribunal certificá-la. Acresceram reservas por omissões relativas à dívida pública, à carteira de ativos financeiros do Estado, ao património imobiliário e às responsabilidades contingentes, erros materialmente relevantes que subavaliaram receita e despesa e contabilização irregular de verbas recebidas para financiar despesa do Plano de Recuperação e Resiliência. Ninguém reteve 10% de coisa nenhuma. Ninguém perdeu comissão de serviço. O parecer saiu, foi manchete durante um dia e a vida continuou exatamente igual.

A escala do que está em causa merece ser dita devagar. Os tais 767.094 postos existem num país cuja população empregada média o INE fixou em 5.275,3 mil pessoas em 2025. Mais de um em cada sete empregos do país. Setenta e quatro vírgula cinco por cento na administração central, 18,8% na local, 5,3% na regional, 1,3% nos fundos de segurança social. As despesas com pessoal são, ano após ano, uma das maiores rubricas do orçamento. Estamos a olhar para a maior operação de recursos humanos que existe em Portugal, gerida a partir de um indicador cuja precisão aparente é o seu atributo menos fiável.

E daqui nasce tudo o resto. Quando um partido promete contratar dez mil enfermeiros, dez mil sobre o quê? Quando outro promete reduzir a máquina do Estado em 5%, cinco por cento de quê? Do universo que a DGAEP mede, do que o Conselho das Finanças Públicas mede, ou daquele terceiro conjunto que não é medido por ninguém e que, convenientemente, é o mais fácil de cortar sem que ninguém dê por isso? A resposta honesta é que não se sabe, o que significa que a promessa nunca poderá ser verificada. É por isso que se promete tanto. Um objetivo assente num denominador desconhecido é um objetivo que não pode falhar.

Dirão que estou a exigir uma exatidão impossível, que toda a estatística tem convenções, perímetros e zonas cinzentas e que o mesmo se passa na Alemanha ou em França. Quem o disser tem razão em tudo. O que não tem é resposta para a diferença entre publicar um intervalo honesto e publicar um número à unidade. Um intervalo diz ao leitor que há incerteza e onde é que ela mora. Os quatro algarismos finais dizem-lhe o contrário: dizem-lhe que alguém contou. O erro não está na medição, que é competente e é a melhor que temos. Está na confiança que a apresentação induz em quem a lê e, sobretudo, em quem decide a partir dela.

Nenhuma empresa privada sobreviveria a isto. Um diretor financeiro que fosse ao conselho de administração dizer que tem 767.094 pessoas na folha, mas que algumas contam duas vezes, que outras trabalham em filiais que não consolidam e que há mais quatro mil a faturar por fora sem entrarem no mapa, não sairia da sala com o mesmo cargo com que entrou. No Estado, esse número é a base do debate orçamental de um país inteiro. Publica-se, comenta-se, legisla-se em cima dele.

Uma organização que se conta ao indivíduo e não sabe quantos são aprendeu a forma da contabilidade sem lhe ter aprendido a função. 767.094 é uma resposta impecável. O que ninguém em Portugal consegue dizer é à pergunta de quem.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]