Em fevereiro de 2003, três semanas antes da invasão do Iraque, um livro chamado Of Paradise and Power chegou às livrarias americanas. O autor era Robert Kagan, neoconservador, com leitura suficiente do que se passava em Washington para perceber o que vinha. A tese cabia numa frase que se tornou citação obrigatória: os americanos são de Marte, os europeus são de Vénus. Kagan não usava a fórmula como elogio nem como insulto. Usava-a como diagnóstico. A Europa, escreveu, vive num mundo pós-histórico, kantiano, onde a paz é dada por instituições, pelo direito internacional, pela negociação interminável. Os Estados Unidos vivem num mundo hobbesiano, onde a paz depende da força, da dissuasão, da prontidão para usar essa força quando necessário. As duas margens do Atlântico, prosseguia, estavam a divergir em valores, em capacidade militar, em apetite para o risco. A divergência iria agravar-se.

Lê-lo hoje, em junho de 2026, é uma experiência desconcertante. Não porque Kagan tivesse razão em tudo: o ensaio é, em vários momentos, panfletário e enviesado pela militância do autor. Mas porque, vinte e três anos depois, a fratura que ele descreveu deixou de ser tese de polemista. É plataforma de partida da política externa dos dois lados do Atlântico. Ninguém ousa fingir que não.

A invasão do Iraque, semanas depois da publicação do livro, deu ao argumento o seu primeiro teste empírico. Donald Rumsfeld, então Secretário da Defesa, distinguiu publicamente uma Old Europe (a França e a Alemanha, que recusaram participar) de uma New Europe (o leste recém-chegado à NATO, que se alinhou com Washington). Chirac e Schroeder organizaram-se contra Bush em Bruxelas; Aznar e Blair organizaram-se a favor em Washington. O Conselho de Segurança da ONU partiu-se ao meio. As Nações Unidas, fundadas em 1945 por uma aliança transatlântica, foram contornadas por essa mesma aliança quando o conveniente. Robert Cooper, então diplomata sénior do Conselho da União, escreveu na altura que se assistia ao fim de uma "era de cortesia ocidental". Não era hipérbole. Era constatação.

Em 1956, Eisenhower humilhou a França e o Reino Unido durante a crise do Suez, forçando-os a recuar e demonstrando que a era imperial europeia tinha acabado. Foi um trauma transatlântico. Foi também um ato de tutela: os americanos disciplinaram os europeus para os manter dentro da ordem liberal pós-guerra. Em 2003 a relação inverteu-se. Os europeus tentaram disciplinar os americanos e falharam. A tutela tomou outra direção. A NATO sobreviveu. A confiança política não.

Demorou dez anos a aparecer a segunda camada. Em junho de 2013, Glenn Greenwald e Laura Poitras começaram a publicar os ficheiros de Edward Snowden. A NSA, agência americana de inteligência, escutava o telemóvel pessoal de Angela Merkel há anos. Escutava também as comunicações da Comissão Europeia, das embaixadas da União em Washington e em Nova Iorque, de chefes de governo aliados. Merkel disse a Obama, em conversa que ficou conhecida, que "amigos não se espiam entre amigos". A frase circulou como protesto. Não circulou como verdade: era exatamente o que Washington estava a fazer. Berlim sabia. Paris sabia. Londres tinha cumplicidade operacional através do GCHQ. O que mudou em 2013 não foi a prática. Foi a confiança em poder negá-la em público. As cortesias do final da Guerra Fria, em que se assumia que os aliados eram primeiro aliados e só depois objetos de inteligência, deixaram de ser sustentáveis. Hollande indignou-se. Não fez nada. Merkel indignou-se. Não fez nada. A reação europeia ao caso Snowden foi um exercício de teatro institucional sem consequência. Foi também um sinal: a Europa já não tinha instrumentos para responder, mesmo quando ofendida.

Donald Trump chegou à Casa Branca em janeiro de 2017 e, para muitos chanceleres europeus, foi a confirmação de algo que se vinha a evitar dizer há quinze anos. Trump chamou à NATO "obsoleta" antes de tomar posse. Em junho desse ano, retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris. Em maio de 2018, retirou-os do acordo nuclear iraniano que a UE3, formada por Alemanha, França e Reino Unido, tinha negociado com esforço de mais de uma década. Em 2018 impôs tarifas sobre o aço e o alumínio europeus, ao abrigo da secção 232 da legislação americana de segurança nacional, classificando, assim, parceiros de quase setenta anos como ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos. Em 2020 anunciou a retirada de doze mil tropas da Alemanha. Macron, em entrevista à The Economist em novembro de 2019, falou em "morte cerebral" da NATO. Ursula von der Leyen, recém-chegada à presidência da Comissão, tornou "autonomia estratégica" expressão oficial de Bruxelas. Mas Bruxelas, no fundo, viveu Trump 1 como anomalia que iria passar. Quando Joe Biden ganhou em novembro de 2020 e foi recebido em Bruxelas em junho de 2021 com a promessa de que "a América está de volta", Berlim, Paris, Lisboa e Roma quiseram acreditar. Era miragem. Quatro anos depois, a anomalia seria reeleita.

Entre as duas administrações Trump, a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, deu à Europa uma ilusão de reunificação transatlântica. Os pacotes de sanções alinharam Bruxelas com Washington. A Finlândia e a Suécia entraram na NATO. As capacidades militares europeias começaram a ser reativadas no papel, embora não na prática. O que poucos quiseram dizer é que setenta por cento da artilharia entregue à Ucrânia em 2022 e 2023 saiu de arsenais americanos. A Europa, que tinha começado o século a depender energeticamente da Rússia, descobriu que tinha trocado essa dependência por outra: dependia militarmente dos Estados Unidos para resolver um problema no seu próprio continente. A reunificação aparente foi, em larga medida, contabilização da fragilidade. Mario Draghi, no seu relatório de setembro de 2024 sobre a competitividade europeia, foi educado a descrever o problema, mas não o disfarçou: a Europa entrava na década dos anos vinte com uma indústria estagnada, um défice tecnológico estrutural face aos Estados Unidos e à China, uma capacidade militar deficitária e uma demografia em contração.

A reeleição de Donald Trump em novembro de 2024 e a sequência de gestos da sua segunda administração encerraram o ciclo que começou em 2003. Em fevereiro de 2025, J. D. Vance discursou na Conferência de Segurança de Munique e disse aos europeus, na cara, que o problema fundamental da Europa não era a Rússia, era a Europa. Foi recebido em silêncio embaraçado pelos chefes de Estado presentes, mas a frase ficou. Semanas depois, Washington abriu negociações diretas com Moscovo sobre o futuro da Ucrânia sem incluir Bruxelas nem Kiev. Em abril de 2025, foram anunciadas tarifas gerais de vinte por cento sobre as importações da União Europeia. Os principais beneficiários, no discurso oficial, não eram empresas americanas: eram países que assinassem novos acordos bilaterais com Washington. O artigo quinto do Tratado da NATO, pilar da arquitetura defensiva europeia desde 1949, foi posto em causa publicamente por sucessivos altos funcionários americanos, com a fórmula gentil de que "a defesa coletiva precisa de aliados que paguem o seu quinhão". A Europa entendeu, finalmente, que a anomalia já não era anomalia.

A questão que cabe agora aos gestores europeus, em particular aos portugueses, não é se a aliança vai durar. É em que termos vai sobreviver, durante quanto tempo e em que assuntos. A história da política externa europeia conhece poucos precedentes para uma transição desta escala. O mais próximo será o período entre 1958 e 1973, quando De Gaulle retirou a França da estrutura militar integrada da NATO, lançou a força nuclear independente francesa, vetou duas vezes a entrada do Reino Unido na CEE e impôs uma agenda europeia autónoma de Washington. Foi uma operação política demorada, conflitual, com avanços e recuos. Demorou quinze anos a institucionalizar-se. Foi, em retrospetiva, uma das vias possíveis para uma Europa que se assumisse como ator geopolítico de pleno direito. A Europa, depois de De Gaulle, escolheu não a prosseguir. Bruxelas escolheu outro caminho: o do alinhamento confortável.

Esse alinhamento confortável tem vinte e três anos a deteriorar-se. Não há regresso. As alianças longas, quando se fraturam, raramente se reconstroem na mesma forma. Reconstroem-se diferentes, sob outros nomes, com outros centros de gravidade. A aliança transatlântica não vai desaparecer. Vai mudar de natureza. Os americanos vão continuar a vender armas à Polónia e à Roménia, vão continuar a manter bases em Espanha e na Sicília, vão continuar a investir tecnologia em Lisboa quando convier. Mas a doutrina Truman, que orientou setenta e cinco anos de política externa europeia, terminou. Quem ainda não percebeu isto vai ler nos próximos cinco anos a fatura desse adiamento. São muitos os governos europeus que ainda fingem não perceber.

Tony Judt, no fim de Postwar, escreveu que a Europa do pós-guerra foi a primeira grande construção política da modernidade a depender, em última análise, de um país que não fazia parte dela. Foi essa dependência, dizia ele, que permitiu o milagre da reconstrução, da prosperidade alargada, da integração progressiva. Foi também essa dependência que poupou a Europa de pensar a sério sobre o seu próprio poder. O pagamento dessa poupança, agora, está no balcão.

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