Conheci um fundador que fechava tudo. Empresa de equipamento industrial no Norte, quinze anos de casa, doze milhões de euros de faturação. Perguntei-lhe, numa sala de reuniões com vista para o parque de estacionamento, quantos dos vinte maiores clientes tinham sido ganhos por ele em pessoa. Não hesitou. Vinte. Disse aquilo com o orgulho legítimo de quem construiu uma coisa do nada e sabe exatamente como a construiu. Era o melhor vendedor da empresa. Era, também, a razão pela qual a empresa valia menos do que ele imaginava.
Estava a preparar a venda. Tinha na cabeça um número, oito vezes o resultado operacional, ouvido numa conferência e guardado como quem guarda uma promessa. O que veio da mesa do lado foi cinco, com metade a pagar em três anos, se ele ficasse.
Ninguém lhe disse a verdade com estas palavras, por isso digo-a eu. Um comprador não compra faturação. Compra faturação que continua a existir na segunda-feira seguinte à assinatura. Quando a receita vive na agenda telefónica de uma pessoa, o comprador não está a comprar uma empresa. Está a alugar um vendedor com um armazém agregado.
Há uma pergunta que aparece sempre em due diligence e que quase nunca aparece nas apresentações que os fundadores fazem de si próprios. Se o principal acionista desaparecer amanhã, quanto da receita desaparece com ele? Vi respostas honestas na casa dos setenta por cento. Vi fundadores a hesitar meio segundo antes de dizer trinta, que é a forma educada de dizer setenta. Aquele meio segundo custa milhões.
O mercado tem nome para isto e o nome é frio: risco de pessoa-chave. Traduzido, significa que o avaliador pega no fluxo de caixa projetado e lhe aplica um desconto por causa de uma probabilidade que ninguém gosta de dizer em voz alta. A probabilidade de a empresa, sem aquela pessoa, não ser a mesma empresa.
O paradoxo é cruel e é este. Quanto melhor o fundador vende, maior o desconto. O talento comercial que fez a empresa crescer é o mesmo que impede a empresa de valer o que cresceu. Cada negócio brilhante que ele fecha sozinho é receita hoje e é uma linha a menos no relatório do comprador amanhã.
E não é só na venda. Quem tenta levantar capital descobre a mesma parede noutro sítio. Um investidor institucional que entra com uma minoria vai passar os cinco anos seguintes sem controlo sobre a única variável de que depende o seu retorno, que é a disposição de uma pessoa para continuar a levantar-se cedo. Por isso escreve cláusulas. Permanência obrigatória, não concorrência, calendários de aquisição de participação, tudo desenhado para prender ao terreno quem sabe onde estão os clientes. O fundador assina a pensar que está a ser valorizado. Está a ser contido.
A banca faz o mesmo com outra linguagem. Chama-lhe garantia pessoal, aval, seguro de vida sobre o gerente. Ninguém pede aval pessoal a uma empresa que funciona sem ninguém em particular.
A parte que mais me incomoda não é financeira. É humana. O fundador que vende tudo raramente é vítima da situação. É autor dela.
Contratou comerciais e ficou nas reuniões importantes porque eram importantes de mais para arriscar. Deixou o júnior acompanhar em vez de conduzir. Interveio no momento em que a conversa aqueceu, porque sabia como a desarmar. Desarmou-a melhor do que qualquer outra pessoa teria feito. O cliente ficou. O comercial percebeu, sem que ninguém lho dissesse, que ali só há um dono da relação. Ao fim de dois anos saiu, ou pior, ficou a tirar notas.
Nada disto se faz por vaidade. Faz-se por medo. O medo perfeitamente racional de perder um contrato de trezentos mil euros porque alguém com menos calo o conduziu mal. O problema é que esse medo, repetido durante uma década, constrói uma empresa com um único ponto de falha e com um proprietário que se convenceu de que isso é uma virtude.
Portugal tem esta doença em escala. Somos um país de empresas fundadas por gente extraordinária que nunca se conseguiu retirar do centro da fotografia. O tecido empresarial português está cheio de sucessões falhadas em que a empresa que faturava bem com o pai começa a encolher no ano em que o filho assume, não por incompetência do filho, mas porque o ativo que valia nunca esteve na sociedade. Estava na pessoa que ia almoçar com os clientes desde 1994.
E é aqui que a coisa se torna quase trágica: essas empresas continuam a chegar ao mercado à espera de múltiplos de tecnológica americana e saem de lá indignadas com o desprezo dos compradores. Não é desprezo. É aritmética.
Sei o que se responde a isto, porque já mo responderam muitas vezes, quase sempre com um sorriso. Que os clientes só falam com o dono. Que naquele setor é assim. Que a relação é pessoal e não se transfere. Metade disso é verdade e a outra metade é uma desculpa confortável. Ninguém testou. Ninguém entregou uma conta grande a outra pessoa para ver o que acontecia, porque a hipótese de correr mal é imediata e a hipótese de correr bem só se paga daqui a três anos, no dia em que houver um preço em cima da mesa.
Transferir uma relação comercial demora entre dezoito meses e três anos. Faz-se com um método aborrecido que qualquer fundador conhece e quase nenhum executa. O cliente conhece duas pessoas em vez de uma. O contrato tem condições escritas em vez de acordos verbais que só existem na cabeça de quem os fez. A proposta sai com um preço construído por regras, não pelo instinto de quem olha para o cliente e sente o que ele aguenta pagar. O fundador entra na reunião a seguir, não na primeira. Um dia não entra de todo. Sente-se péssimo. É esse o sinal de que está a funcionar.
Quem começa este processo três meses antes de vender já não vai a tempo. Um comprador atento distingue à primeira uma equipa comercial construída de uma equipa comercial encenada para a due diligence.
Há um teste simples que gostava de ver mais usado. Tire duas semanas de férias sem telemóvel. Não umas férias em que se responde a emails às onze da noite na varanda: duas semanas a sério. Quando voltar, veja o que ficou parado. Se ficou parado o que era previsível, tem uma empresa. Se ficou parada a receita, tem um emprego que se dá ao luxo de ter capital social.
O fundador do Norte fez o teste à sua maneira, sem que fosse por escolha. Teve um problema de saúde em outubro e esteve seis semanas fora. Voltou a uma empresa que tinha aguentado melhor do que ele esperava e pior do que devia. Três clientes tinham ligado a perguntar por ele. Nenhum saiu. Foi o suficiente para o assustar e para o convencer.
Adiou a venda dois anos e usou-os. Hoje há duas pessoas com autonomia real para fechar acima de cem mil euros, há preços escritos onde antes havia bom senso e há um mapa de relações que não vive dentro de uma só cabeça. A empresa faturou menos oito por cento no primeiro desses anos, porque estas coisas custam mesmo. Quando voltar ao mercado, vai valer bastante mais do que os cinco que lhe ofereceram. Não porque cresceu. Porque deixou de depender dele.
A pergunta que ficou a fazer-se, que passo a quem estiver a ler, é se preferimos ser indispensáveis ou ser donos de alguma coisa que valha o que dizemos que vale. As duas ao mesmo tempo, isso não existe.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]