Um número que não tem precedente
A SpaceX prepara-se para abrir capital. Vai deixar de ser uma empresa privada e passar a ser negociada em bolsa, com ações que qualquer investidor pode comprar para se tornar sócio. Dito assim, é um movimento comum. O que o torna excecional é a escala. Em capital levantado, será a maior oferta pública da história, qualquer coisa como 70 mil milhões de dólares a entrar de uma só vez.
Não é só o volume. A operação coloca o fundador numa categoria que ainda não existia. Pela primeira vez, uma pessoa aproxima-se de um bilião de dólares de fortuna pessoal. Um bilião, mil vezes mil milhões. É um patamar sem comparação histórica e levanta perguntas que vão muito para além das finanças.
Convém separar duas medidas que costumam ser confundidas. Uma coisa é o valor a que a empresa é avaliada, o seu valuation. Outra é o dinheiro que efetivamente entra na operação. A SpaceX chega ao mercado avaliada em cerca de 1,75 biliões de dólares. Quando a petrolífera saudita Aramco foi parcialmente privatizada em 2019, a avaliação rondou os 2 biliões, portanto superior. Só que a Aramco levantou menos dinheiro do que a SpaceX vai levantar. A segunda maior captação de sempre tinha sido a da japonesa NTT, privatizada em parte no final dos anos 80, num tempo em que as telecomunicações eram o ativo estratégico por excelência. A elétrica italiana Enel também figura nessa lista restrita. Nenhuma se aproxima do que a SpaceX vai mover.
O detalhe que mais diz sobre as expectativas é o múltiplo. A SpaceX chega ao mercado avaliada a cerca de 90 vezes a sua receita. A Tesla, que já é cotada, negoceia a 16 vezes. Noventa é um número que só se justifica se os investidores acreditarem em algo que ainda não está nos resultados. E esse algo tem nome.
A aposta que sustenta o preço
O que explica o múltiplo não é o negócio espacial sozinho. É a fusão entre a SpaceX e a empresa de inteligência artificial do mesmo fundador, a xAI. As duas entram em bolsa coladas e essa colagem é a verdadeira tese de investimento.
Importa ser claro sobre a posição de partida. Na corrida da inteligência artificial, a xAI não lidera. À frente estão a Anthropic e a OpenAI. A xAI está num pelotão respeitável mas atrás e ninguém aposta que ganha a corrida pelo melhor modelo. A aposta é outra. É que a infraestrutura espacial permita colocar centros de dados em órbita a um custo muito inferior ao de os manter em terra e que essa capacidade de computação dispare de tal forma que a xAI alcance quem está à frente.
Pode não acontecer. E é aqui que o desenho fica interessante, porque o plano alternativo é sólido. Se a xAI não vencer a corrida dos modelos, a SpaceX posiciona-se como fornecedora de infraestrutura para todas as outras. A própria Anthropic, líder do setor, assinou um contrato para alugar capacidade de centros de dados por mais de mil milhões de dólares por mês. Quem desenvolve modelos avançados precisa de potência de cálculo e a potência de cálculo passa a ser o produto.
A lógica não é nova, é a mais comprovada do setor tecnológico. Para se ser uma empresa decisiva e altamente lucrativa, não é preciso deter o produto final.
- Nvidia não constrói modelos de inteligência artificial. Fornece os processadores que os tornam possíveis e tornou-se uma das empresas mais valiosas do mundo a fazê-lo.
- TSMC, em Taiwan, não desenha os chips que a maioria das marcas vende. Fabrica-os.
- ASML, na Holanda, não fabrica chips. Constrói as máquinas de litografia sem as quais ninguém fabrica chips de ponta.
A SpaceX quer ocupar essa camada no domínio espacial. Se controlar a porta de entrada, cobra portagem a todos os que precisam de passar, vençam ou não a corrida dos modelos.
Quem controla o acesso
O que dá a esta tese a sua densidade é o quase monopólio que a empresa já detém sobre a saída da Terra. Mais de 90% de todos os lançamentos espaciais do mundo são feitos pela SpaceX. O custo por quilo colocado em órbita é o mais baixo da indústria e o objetivo declarado é descê-lo até cerca de 180 dólares por quilo, um valor que torna rotineiro o que durante décadas foi excecional.
Vale a pena pousar nesta ideia. Em geopolítica fala-se de domínios: a terra, o mar, o ar, o ciberespaço. São os teatros onde o poder se exerce. O espaço é o domínio seguinte e o acesso a ele está, hoje, nas mãos de uma empresa privada. Não de um Estado. Não de uma aliança de Estados. De uma empresa. Para chegar à Lua, a Marte ou a qualquer outro corpo celeste de forma viável e a custo baixo, com capacidade de produzir naves às centenas, há praticamente um único fornecedor.
E, paradoxalmente, o que paga as contas hoje não é o foguetão. É a internet. O Starlink, o serviço de internet por satélite, nem sequer fazia parte do plano original, surgiu depois e tornou-se o motor financeiro do grupo. Dá lucro de mais de 4 mil milhões de dólares por ano, tem cerca de 10 milhões de clientes entre companhias aéreas, navios e utilizadores comuns e não para de crescer.
O efeito no terreno é tangível. Em regiões rurais e isoladas, onde antes não havia sinal nem contacto, o Starlink mudou a equação. Explorações agrícolas, frotas, comunidades inteiras passaram a operar com ligação estável onde antes havia silêncio. É o tipo de transformação que não aparece nas estatísticas macroeconómicas mas redefine o que é possível fazer num território.
A ambição vai mais longe. O alvo seguinte é o segmento residencial, entre 20 e 50 milhões de assinantes e sobretudo a ligação direta do satélite ao telemóvel, sem antena. Se funcionar, o mercado potencial salta para a casa dos mil milhões de utilizadores. O preço por assinatura cairá, porque se alarga a base a quem tem menos poder de compra, mas a escala compensa.
O gargalo chama-se Starship
Toda esta expansão esbarra num único ponto crítico. Para colocar em órbita satélites maiores e os tais centros de dados, é preciso um foguetão capaz de levar carga numa escala que ainda não existe em operação. Esse foguetão é o Starship, o maior alguma vez construído, com capacidade para mais de 200 toneladas.
O desafio técnico é específico e antigo: tornar reutilizáveis os dois estágios do foguetão. O Falcon 9, que a SpaceX já usa de forma rotineira, reutiliza apenas o primeiro estágio, o propulsor. O segundo perde-se. O Starship quer recuperar ambos, o propulsor e a nave que entra em órbita e regressa. Quem se lembra do vaivém espacial recordará o problema: o vaivém era reutilizável, mas passava meses em manutenção entre voos, porque a reentrada na atmosfera é violentamente destrutiva. A meta agora é outra ordem de grandeza, pousar, esperar meia hora e voltar a descolar, como um avião que larga passageiros e embarca os seguintes.
Há poucas semanas deu-se um passo há muito esperado. O segundo estágio conseguiu reentrar na atmosfera e fazer uma amaragem controlada no oceano. Explodiu no momento da amaragem, mas isso fazia parte do guião: o objetivo era provar que conseguia regressar sem se desintegrar. Ainda não está pronto para voltar a voar no minuto seguinte. O primeiro estágio, esse, já pousa na perfeição, são mais de 150 voos do Falcon 9 a funcionar de forma impecável. A tecnologia de regresso do primeiro estágio está dominada. Falta replicá-la no segundo e tudo indica que está perto.
Quando acontecer, abre-se a porta a satélites muito maiores e a centros de dados em órbita. E aqui o dado que melhor mede o poder acumulado: o Starlink já detém dois terços de todos os satélites em funcionamento no mundo. Uma única pessoa controla mais satélites do que todos os países do planeta somados. Três peças, o Starlink, o Starship e os centros de dados no espaço, encaixam para formar algo que nenhum governo controla nesta escala.
Quando um indivíduo fica acima do Estado
Chegados aqui, o tema deixa de ser financeiro. Quando uma só pessoa detém uma fortuna de um bilião de dólares e o controlo de ferramentas tão estratégicas como a inteligência artificial e o acesso ao espaço, é inevitável a pergunta: este indivíduo passou a ser mais poderoso do que um Estado? E não se trata de um caso isolado. Vêm outros atrás, Jeff Bezos testa já a sua própria via para o espaço.
Para enquadrar, ajuda recuar. A humanidade atravessou eras económicas sucessivas, a dos caçadores-recoletores, a sociedade agrícola, a sociedade industrial. Cada uma trouxe a sua própria estrutura política e social. Estamos agora na era da informação e nada garante que as transformações que ela produz sejam idênticas às anteriores. A concentração de poder em mãos privadas, acima da autoridade dos Estados, pode ser uma dessas mudanças estruturais.
A questão central é se os Estados aceitam perder soberania desta forma. Em algum momento poderá haver choque, tentativas de nacionalizar ou expropriar parte desta tecnologia. A razão é simples. Se a inteligência artificial se tornar tão poderosa que toma decisões que nenhuma administração pública consegue tomar, o Estado fica refém dela. E se o dono dessa ferramenta for uma empresa privada, instalada num espaço onde só ela chega, o equilíbrio de poder muda de natureza. Estas figuras não respondem a ninguém. Não estão sujeitas a leis construídas por todos. Podem criar a sua própria ordem, uma ordem que não foi partilhada com a sociedade.
Há, contudo, um contrapeso que costuma escapar a quem anuncia o fim do Estado. Hoje, estas empresas ainda precisam dele. Boa parte dos contratos que fizeram a SpaceX crescer foi dinheiro público. E uma abertura de capital só é possível onde existe Estado de direito. Abrir capital pressupõe contratos cumpridos, tribunais que os fazem valer, autoridade que garante as regras do jogo. Numa economia onde nenhuma destas instituições funciona, nunca nasceria uma SpaceX, porque ninguém colocaria dinheiro numa estrutura sem garantias. Parte do êxito dos Estados Unidos explica-se exatamente assim: as instituições funcionam, o Estado de direito aplica-se, os contratos cumprem-se. A soberania individual de que tanto se fala só aparece porque existe, antes dela, o soberano que é o Estado-nação.
O paradoxo é evidente. Vivemos um tempo em que se questiona a legitimidade do Estado, em que cresce a desconfiança nas instituições, nos políticos, no establishment. Toda essa erosão abre caminho a autoridades paralelas. Pode imaginar-se um cenário em que várias destas empresas se associam e definem entre si as regras de convivência, à maneira das antigas ligas de comerciantes que operavam com jurisdição própria. Quem quisesse pertencer não seria cidadão de um país, seria membro associado de uma estrutura privada. O problema dessa ordem é a ausência de voz do indivíduo comum. Sem governança e sem mecanismo que ouça o cidadão qualquer, decide-se apenas no interesse de quem manda.
A democracia e o Estado-nação são duas das maiores invenções da humanidade, precisamente por permitirem cooperação em escala que ligas comerciais ou alianças de super-ricos dificilmente alcançam. Uma estrutura como os Estados Unidos une mais de 350 milhões de pessoas a trabalhar em conjunto. É um feito de coordenação que não se replica com um guarda-chuva privado feito à medida de alguns. A democracia real é imperfeita e muita gente apressar-se-á a lembrá-lo. Mas existir democracia é melhor do que não existir, porque o que está errado pode ser corrigido. Onde há ditadura, não pode.
Como ler isto enquanto empresa
Para quem gere ou constrói uma empresa em Portugal, este IPO não é um acontecimento distante de bilionários e foguetões. Há leituras concretas a retirar.
A primeira é sobre onde está a criar-se valor. A camada que mais valoriza não é necessariamente a que detém o produto visível, é a que controla a infraestrutura de que todos dependem. Nvidia, TSMC e ASML valem o que valem por isso. Vale a pena perguntar, em cada setor, qual é a infraestrutura crítica e quem a detém, porque é aí que o poder de fixação de preços se concentra. Para uma PME, isto traduz-se numa pergunta de fornecedores: de que dependências críticas não consigo escapar e a que custo.
A segunda é sobre o múltiplo. Noventa vezes a receita é um preço que incorpora uma expectativa, não um resultado. Quando uma avaliação assenta sobretudo numa promessa tecnológica por confirmar, o risco de revisão é real. Quem investe, capitaliza-se ou avalia parcerias deve distinguir sempre o que já gera caixa do que ainda é aposta. No caso da SpaceX, o Starlink já dá lucro. O resto é convicção.
A terceira é institucional e talvez a mais útil. A capacidade de levantar capital depende de instituições que funcionem, de contratos que se cumprem e de segurança jurídica. É um lembrete de que o ambiente em que uma empresa opera, a previsibilidade da lei, a eficácia dos tribunais, a estabilidade das regras, é parte do seu valor. Não é cenário de fundo, é fator de competitividade. Para Portugal e para a Europa, a lição é direta: a inovação privada é imbatível na entrega, mas precisa de um Estado capaz de criar as condições, sem o qual o capital simplesmente não aparece.
Convém não cair em nenhum dos dois exageros do costume. Empresas privadas entregam o que estruturas públicas raramente conseguem e a comparação entre a SpaceX e os programas espaciais estatais, da NASA à Europa, fala por si. Mas daí a concluir que o enfraquecimento do Estado nos conduz a um mundo melhor vai uma distância grande. O que se observa é a entrada de novos atores no tabuleiro geopolítico, antes ocupado quase só por Estados. Acompanhar como se resolve esta tensão e como reagem os próximos IPOs do setor, é hoje parte de ler a economia com rigor.
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