Há uma reunião que começa às nove e quinze porque a das nove atrasou. O café que alguém trouxe fica a arrefecer, intacto, ao lado do portátil. No ecrã abre-se um calendário com a tarde inteira pintada de azul, sem um único intervalo branco. Quem o mostra fá-lo com um certo orgulho, como quem exibe um troféu. Não paro, diz. É a frase da época, repetida com a mesma convicção numa esplanada do Príncipe Real ou num open space do Beato. Não parar passou a ser a prova de que se trabalha bem.

Reparo nestas coisas porque o detalhe trai sempre o discurso. Uma chávena por beber diz mais sobre uma empresa do que o relatório de contas. Diz que ali ninguém teve tempo para algo tão pequeno como terminar um café e que essa falta de tempo se transformou, sem que ninguém reparasse, numa espécie de medalha.

A pressa instalou-se como linguagem. As mensagens terminam em urgente mesmo quando não são, os prazos encolhem por hábito mais do que por necessidade e a palavra amanhã passou a soar a desleixo. Há organizações inteiras montadas em torno de uma urgência permanente que ninguém chegou a decretar e cuja origem já ninguém recorda. Pergunto às vezes, numa sala, porque é que determinada coisa tem de ficar pronta hoje. O silêncio que se segue costuma ser a parte mais sincera da reunião.

O problema não está na velocidade. Está em confundi-la com método. Uma empresa pode ser rápida porque domina o que faz, porque os processos estão afinados e as pessoas sabem onde pôr as mãos. E pode ser rápida porque entrou em pânico. As duas correm. Só uma sabe para onde.

O juízo precisa de tempo para assentar. Não o tempo da preguiça, o tempo do repouso, aquele em que uma ideia fica a marinar e regressa diferente na manhã seguinte. Quem decide depressa decide com a informação que por acaso estava em cima da mesa naquele instante, que é quase sempre um critério pobre. Conheço um administrador financeiro que assinou um contrato de fornecimento numa sexta-feira ao fim do dia, com o avião à espera, sem reparar na cláusula de revisão de preços que duzentas páginas adiante lhe viria a duplicar o custo dezoito meses depois. Teve inteligência de sobra e mesmo assim assinou, porque o avião não esperava e uma tarde de leitura era um luxo que a agenda não previa.

Há um vocabulário inteiro ao serviço da pressa. O para ontem, o já, o é só um instante. Este último é talvez o mais perigoso, porque disfarça cada pedido de coisa pequena e, somados, os instantes ocupam o dia inteiro de quem devia estar a pensar e passa a vida apenas a despachar.

A mitologia da empresa moderna premeia exatamente isto. Celebra o fundador que responde a emails às duas da manhã, a equipa que entrega de um dia para o outro, o gestor cujo calendário não respira. Move fast and break things foi a frase que uma geração inteira tatuou na testa e poucos repararam que a segunda metade já vinha a avisar do estrago. Partem-se coisas e algumas delas não se voltam a colar.

As empresas que melhor conheço, as que duram, protegem qualquer coisa que de fora parece lentidão. Uma reunião que podia ter sido um email e foi na mesma uma reunião, porque havia uma decisão que merecia caras à volta de uma mesa. Um sócio que pede para reler o memorando de manhã antes de o aprovar. O hábito de deixar uma proposta importante dormir uma noite. Vistas de fora, estas casas parecem mais devagar. Por dentro, erram menos, refazem menos e gastam menos tempo a desfazer o que a pressa fez mal.

Volto à chávena. Entre a empresa onde o café arrefece porque ninguém tem um minuto e a empresa onde alguém se senta, o bebe até ao fim e só então decide, há uma diferença que nenhum balanço regista e que ao cabo de alguns anos se lê, toda ela, nas contas. A pressa promete tempo e acaba sempre por cobrá-lo de volta, com juros, na fatura das decisões que se tomaram sem o terem.

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