Conheci-o num corredor do Técnico, em 2019, entre uma máquina de café avariada e um placard cheio de anúncios de quartos para arrendar. Vinte e três anos, último ano de Engenharia Informática, um trabalho de mestrado sobre sistemas distribuídos que três professores já tinham dito ser publicável. Falava de Portugal com aquela ternura impaciente de quem ainda não decidiu se fica. Em setembro estava em Munique. Em janeiro mandava-me uma fotografia do escritório, vista sobre o rio Isar, salário inicial que aqui seria o de um diretor com vinte anos de casa. Não fugiu de nada. Foi recrutado. Há uma diferença e é toda a diferença deste texto.
Portugal faz uma coisa extraordinariamente bem. Forma gente. As universidades portuguesas produzem, ano após ano, engenheiros, matemáticos, físicos e programadores que entram em qualquer sala do mundo sem pedir licença. O Técnico, a Faculdade de Engenharia do Porto, o Minho, Aveiro, Coimbra. Saem dali pessoas que a Google, a NVIDIA, a ASML e meia dúzia de fundos de Londres disputam antes mesmo de terem a tese defendida. Não somos um país pobre em talento. Somos, provavelmente, um dos países mais ricos da Europa por metro quadrado de cérebro técnico. O drama é o que fazemos a seguir.
O que fazemos a seguir é exportar. Não café, não cortiça, não vinho. Pessoas. Investimos quinze, vinte anos de escola pública num miúdo, pagamos-lhe a propina simbólica de uma licenciatura subsidiada, ensinamo-lo a resolver problemas que poucos no mundo resolvem e, no dia em que ele finalmente vale dinheiro a sério, entregamo-lo de graça a uma economia que não pôs um cêntimo na sua formação. É a forma mais sofisticada de ajuda externa que existe. Portugal subsidia a inovação alemã, holandesa e americana com a sua matéria-prima mais cara. E nem fatura.
Costuma dizer-se que isto é um problema de salários. É a explicação confortável, a que cabe num cartaz de manifestação. Pagamos mal, eles vão para onde pagam bem, fim da conversa. Só que a explicação está incompleta ao ponto de ser quase falsa. O engenheiro que foi para Munique não foi atrás de um salário. Foi atrás de um sítio onde o seu trabalho tem escala, onde a empresa em que entra tem capital para o pôr a construir coisas grandes, onde falhar um projeto não significa fechar a porta. O salário é a consequência. A causa é o capital que está por trás dele.
E é aqui que mora a ferida portuguesa. Não nos falta gente capaz de fundar empresas extraordinárias. Falta-nos massa crítica de capital paciente, ambicioso, disposto a perder muito para ganhar imensamente. O ecossistema português aprendeu a fazer seed. Aprendeu a montar uma ronda de meio milhão, a pôr uma startup de pé, a contratar os primeiros dez. Depois trava. A Série A já é difícil. A Série B faz-se quase sempre lá fora, com um fundo estrangeiro que, em troca do cheque, vai pedindo, educadamente, que a sede mude de país. E muda. A Feedzai, que nasceu de gente formada em Coimbra, cresceu com dinheiro de São Francisco e tem hoje a casa-mãe na Califórnia. Não é traição. É gravidade. O capital atrai a empresa para onde o capital vive.
Reparem no que isto faz ao engenheiro que ficou. Ele olha à volta e vê um tecto. Vê empresas que crescem até certo ponto e depois são vendidas, mudam-se ou estagnam. Vê que as histórias grandes, as que mudam uma vida, acontecem onde está o dinheiro grande e o dinheiro grande não está aqui. Então parte. Não porque despreza o país. Porque o país, sem capital de escala, não lhe oferece o palco à altura do que ele sabe fazer. Perdemo-lo duas vezes: uma quando ele sai, outra quando a empresa que ele poderia ter ajudado a construir nunca chega a existir porque não houve quem a financiasse até ser grande.
Há quem responda a isto com a cartilha do costume. Mais incentivos fiscais ao I&D, mais um programa europeu, mais uma incubadora com paredes de vidro e mesas de pingue-pongue. Tudo útil, tudo insuficiente. Um voucher de inovação não substitui um fundo de cem milhões disposto a apostar numa empresa portuguesa para a levar a valer mil. O Estado é bom a semear e péssimo a fazer crescer. Distribui dinheiro fino por muita gente e quase nunca capital grosso por poucos que poderiam mudar o jogo. A inovação não se faz por subsídio espalhado. Faz-se por aposta concentrada e essa é precisamente o que nos falta coragem de fazer.
O dinheiro existe, diga-se. Portugal não é um país sem poupança. É um país que guarda a poupança debaixo do colchão, em depósitos a render quase nada, em imobiliário, em certificados de aforro que bateram recordes precisamente porque o português prefere o conforto previsível ao risco que cria empresas. Temos capital. O que não temos é o hábito cultural de o canalizar para quem constrói, nem a estrutura financeira que o faria. Os fundos de pensões portugueses quase não tocam em venture capital nacional. A banca financia tijolo, não financia código. E assim o talento, que é abundante, encontra capital escasso e a escassez resolve-se da única maneira que a economia conhece: o recurso caro vai para onde é mais bem pago. O engenheiro emigra porque o capital português ficou em casa, com medo.
Imaginem por um momento o contrário. Imaginem que metade dos miúdos que saem do Técnico e da FEUP encontram, aqui, empresas com dinheiro para os pôr a construir à escala do seu talento. Imaginem fundos portugueses a escrever cheques de Série B sem pedir a mudança de sede. Imaginem que a história de sucesso deixa de ser a do que se vendeu a uma multinacional e passa a ser a do que ficou e cresceu. Não é utopia. É a Estónia, é a Irlanda, é Israel, países que perceberam, antes de nós, que formar talento sem o financiar é encher um balde furado. O talento não se retém com discursos patrióticos. Retém-se com capital à altura da ambição de quem fica.
O rapaz de Munique escreveu-me há umas semanas. Está a pensar voltar, montar qualquer coisa sua, trazer de volta o que aprendeu. Perguntou-me, meio a sério meio a sonhar, se há cá dinheiro para o que tem na cabeça. Hesitei antes de responder. Porque a verdade é que o talento já está pronto. Está sempre pronto. Falta saber se, desta vez, o capital aparece antes do avião.
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