Em 7 de junho de 1494, numa vila pequena da Castela onde nada de particularmente memorável tinha acontecido antes nem voltaria a acontecer depois, dois embaixadores espanhóis e dois portugueses subscreveram o tratado que dividiu o oceano Atlântico e o que houvesse para além dele. Portugal ficou com o lado leste do meridiano, isto é, com o Brasil ainda por anunciar, com a rota de África, com a Índia, com a China, com o Japão. Espanha ficou com o ocidente, com aquilo que viria a ser a maior parte das Américas. Os dois reinos repartiram, em vinte cláusulas redigidas em latim e em castelhano, um planeta que ainda não conheciam.
O que importa daquele tratado, à distância de cinco séculos e meio, ultrapassa a aritmética do império por reconhecer. Consagrava-se ali uma hipótese conceptual maior. O lugar de Portugal no mundo era o oceano. As linhas de força da economia, da política, da diplomacia e da imaginação portuguesas, durante quase quinhentos anos, foram horizontais e atlânticas e não verticais nem continentais. Lisboa olhava para sudoeste. O que estava em Bruxelas, em Frankfurt ou em Berlim, do ponto de vista da estratégia nacional portuguesa, era na melhor das hipóteses um acidente geográfico secundário.
Esta orientação durou até 12 de junho de 1985.
Naquela manhã de quarta-feira, no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, Mário Soares assinou o tratado de adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, com Ramalho Eanes ao seu lado e Jaime Gama a fazer-lhe a continência diplomática. A cerimónia foi encenada para encerrar uma transição e fê-lo. Abriu, porém, uma outra transição, mais discreta, que se tornou tão estrutural que a maioria dos comentadores deixou de a notar. A partir desse momento, Portugal passou a pensar-se como periferia europeia, em vez de plataforma atlântica.
A operação acumulou-se em silêncio, sem decisão deliberada. Quarenta anos de adaptação institucional, financeira e mental às lógicas continentais bastaram para a consumar. Convergir, alinhar, integrar, transpor diretivas, comparar-se com a média europeia, lamentar a distância em relação à média europeia. O vocabulário oficial português, depois de 1986, deslocou-se sem ruído da metáfora do oceano para a metáfora da bicha. Estávamos a meio dela. Lá à frente estava a Holanda; logo a seguir a Dinamarca; mais atrás a Grécia, a Polónia, depois a Bulgária. O nosso lugar, dizia-se, era avançar nessa fila. Esquecemo-nos de perguntar para onde ia a fila.
Tudo isto teria sido razoável se Portugal não tivesse, ao mesmo tempo, deixado de aproveitar aquilo que era o seu verdadeiro singular geográfico. Em meados dos anos quarenta, durante a guerra que devastava a Europa, Salazar negociou com os Aliados a cedência das Lajes, nos Açores, em condições que asseguraram simultaneamente a neutralidade portuguesa, a sobrevivência do regime e, em 1949, a entrada de Portugal entre os doze fundadores da NATO. A manobra foi cínica, indiscutivelmente. Servia, em paralelo, como confirmação técnica de que o Atlântico português continuava a ser, em meados do século XX, um ativo geopolítico de primeira ordem. As potências dominantes do hemisfério precisavam dele para chegar à Europa pelo ar e Portugal sabia isso melhor do que ninguém.
Em 1975, no auge da descolonização, Portugal saiu de África com mais pressa do que qualquer outra potência europeia e perdeu, num intervalo de meses, uma parte substancial do que tinha de produção, mercado e influência. Os laços culturais, demográficos e linguísticos sobreviveram, contudo, à retirada militar e administrativa e produziram aquilo a que hoje se chama lusofonia. Uma comunidade de cerca de 280 milhões de falantes distribuída pelo Brasil, por cinco países africanos, por Timor e por uma diáspora persistente, em condições que nenhuma outra língua europeia de tamanho equivalente conseguiu replicar. O português é hoje a quinta língua mais falada no mundo, à frente do francês e do alemão. Não há país de dez milhões de habitantes que possa fazer aritmética semelhante.
A esta dimensão atlântica de natureza linguística juntou-se, sem que Portugal voltasse a notar, uma dimensão logística que se consolidou nas duas décadas seguintes. Sines, projetado nos anos setenta como complexo petrolífero gigante e mal aproveitado até à viragem do milénio, tornou-se em vinte anos um dos maiores portos de águas profundas da costa atlântica europeia. Em 2024 movimentou perto de cinquenta milhões de toneladas, o triplo de Leixões e tornou-se referência continental no segmento de contentores em transbordo. Em paralelo, três grandes cabos submarinos transatlânticos passaram a ancorar em Portugal entre 2020 e 2024. O EllaLink ligando Lisboa a Fortaleza, o Equiano da Google ligando Portugal à costa atlântica africana, o 2Africa do consórcio Meta unindo Portugal a mais de trinta países entre Lisboa e Mumbai. Uma parte significativa do tráfego de dados entre a Europa e o Atlântico Sul entra hoje na Europa por Portugal e não por Marselha nem por Bilbau.
A esta lista juntou-se nos últimos cinco anos uma dimensão energética que altera a equação. Portugal produz hoje cerca de oitenta por cento da eletricidade consumida a partir de fontes renováveis, valor que entre os países da OCDE só é igualado pela Noruega, pela Islândia e por dois ou três casos atípicos. A interconexão com Espanha, embora ainda insuficiente, foi reforçada significativamente entre 2018 e 2024. Sines aparece como um dos hubs europeus identificados pela Comissão como potenciais ancoradouros da economia do hidrogénio verde, em condições que combinam fator de capacidade solar excecional, ventos atlânticos consistentes, água do mar e proximidade portuária a indústrias europeias compradoras. A capacidade instalada de armazenamento de baterias, ainda pequena em termos absolutos, cresceu em 2024 mais depressa do que em quase qualquer outro país da União, embora ninguém em Lisboa o tenha festejado em conferência.
Tudo isto compõe um perfil que, examinado sem patriotismo nem desencanto, é objetivamente o de uma plataforma. Uma plataforma é o lugar onde rotas, infraestruturas e capital decidem aterrar e a partir do qual se redistribuem. É o ponto de articulação. Portugal tem hoje, sem ter precisado de o planear, condições materiais para esse papel. Falta o reconhecimento institucional de que as tem.
E, no entanto, Portugal continua a falar de si como periferia. Os documentos estratégicos publicados nos últimos cinco anos pelos governos sucessivos, pelo Conselho Económico e Social, pelo Banco de Portugal e pelas universidades de referência, repetem o mesmo enquadramento. O problema é convergir, é aproximar-se da média europeia, é ultrapassar a Roménia em rendimento per capita, é deixar de ser cauda. A linguagem é toda vertical. A bicha continua a ser a metáfora estruturante.
Há razões para isto e seria injusto não as reconhecer. A integração europeia foi, para Portugal, uma das transformações mais bem-sucedidas do último meio século em termos comparativos. Trouxe fundos, normas, estabilidade institucional, defesa coletiva implícita, moeda partilhada. Foi tudo isso. Foi também, ao mesmo tempo, uma adoção tácita de quadros mentais nascidos noutro contexto. Bruxelas pensa-se a si própria como centro continental porque é o que é. Lisboa pensar-se exclusivamente como periferia desse centro é, no entanto, uma redução analítica que confunde geografia institucional com geografia económica e cultural.
A Irlanda, por comparação, fez a operação inversa. Aderiu à CEE em 1973, manteve uma política industrial agressivamente atlântica, transformou-se na principal porta europeia de capital, talento e tecnologia provenientes dos Estados Unidos e fê-lo sem abdicar da plena participação europeia. Singapura, num registo radicalmente diferente, organizou todo o seu projeto estratégico em torno de ser plataforma entre o Oriente e o Ocidente e tornou-se, em duas gerações, num dos países mais ricos do planeta. Os exemplos não são copiáveis ipsis verbis e seria ridículo sugerir que o fossem. O princípio, porém, é instrutivo. Os países pequenos que se organizam estrategicamente em torno do que os liga a redes externas tendem a desempenhar acima do peso geográfico que a aritmética lhes atribui. Os que aceitam pensar-se como margem de outra coisa raramente conseguem o contrário.
A reabertura da questão atlântica, neste momento, não vem de uma redescoberta nostálgica de Camões. Vem do facto de a estrutura geopolítica do hemisfério estar a alterar-se. A pandemia, a guerra na Ucrânia, o Inflation Reduction Act, a fragmentação tecnológica com a China, a tarifização atlântica que Donald Trump retomou em 2025 e a que Bruxelas correspondeu, tudo isto reabriu uma questão que estava encerrada desde 1989. Por onde passam as cadeias materiais, energéticas e digitais do mundo, em que portos descarregam, em que cabos entram, em que línguas se contratam.
A resposta provisória, que se forma diante dos olhos de quem queira olhar, é que o eixo atlântico euro-americano vai contar mais do que se previa em 2010. Os Estados Unidos recuperaram política industrial e reindustrialização interna. A Europa abriu a sua, embora tarde e com cautelas. O processo de adesão do Brasil à OCDE avança e os fluxos comerciais brasil-europeus tornaram-se, pela primeira vez em décadas, objeto de pensamento estratégico ativo nos dois lados. Marrocos, com Tânger Med, consolidou-se como hub logístico do Magrebe, em que Portugal podia ter sido protagonista e foi observador. O cabo de hidrogénio entre o norte de África e o sul europeu é uma das discussões abertas em Bruxelas neste preciso momento. Não está predeterminado por onde ele entra.
Portugal está, geograficamente, no centro de quase todos estes movimentos. Continua a discuti-los como se estivesse na periferia.
Assumir-se como plataforma não é uma vaga ambição retórica. É uma operação política e administrativa concreta que envolve decisões inconvenientes para a tradição lusa.
Implica, em primeiro lugar, que Sines seja tratado como ativo estratégico nacional, com regime fiscal, energético e portuário próprio, conectividade ferroviária moderna até à fronteira espanhola e visibilidade política equiparável à que Antuérpia teve durante décadas. Implica que o complexo de hidrogénio verde de Sines seja decidido como prioridade nacional única e não como uma das doze prioridades equivalentes do PRR. Implica que o próximo cabo submarino transatlântico relevante negoceie com Lisboa e não com Marselha e que essa negociação seja pública e seja ganha.
Implica, em segundo lugar, que o português seja tratado como infraestrutura económica e não apenas como herança cultural. A diplomacia económica com o Brasil, com Angola, com Moçambique, com Cabo Verde, tem hoje um nível operacional muito abaixo do nível das oportunidades reais. A transição energética angolana, a reconstrução de Moçambique depois das eleições, a integração da CPLP em circuitos de capital português, são temas em que Portugal poderia ter um papel desproporcionado e tem um papel modesto.
Implica, em terceiro lugar, que a relação com Washington volte a ser tratada com a seriedade técnica que tinha em 1949. Em concreto, isso significa renovação séria das Lajes, com investimento, com utilidade militar real, com utilidade civil articulada. A figura adequada é a de infraestrutura partilhada de uma aliança atlântica que, depois da reentrada Trump, precisa de pontos de contacto reabilitados em geografia segura.
Implica, por último e este é o ponto mais difícil, abandonar a métrica psicológica de comparação vertical. Portugal compara-se com a média europeia há quarenta anos e tem feito o exercício com a paciência triste do aluno que sabe estar a meio da turma. Há outra forma de medir o sucesso de um país pequeno. É medir-se contra o que poderia ser, dadas as cartas que tem. Portugal tem mar, energia, língua e geografia. Tem instituições democráticas estáveis. Está perto de quase tudo o que importa do ponto de vista atlântico. Em 2026, isto é raro.
Em 1494, Portugal assinou em Tordesilhas como se o Atlântico lhe pertencesse e em parte pertencia. Em 1985, assinou no Mosteiro dos Jerónimos como se a Europa lhe bastasse e em parte bastou. Em 2026, está perante uma pergunta que nenhum daqueles dois actos resolveu. É possível que estes dois gestos, separados por quinhentos anos, não fossem alternativos. É possível que o futuro português esteja a sul, a oeste e a leste em simultâneo e que continuar a pensá-lo apenas a nordeste seja, à letra, escolher continuar pequeno.
A história portuguesa do último meio milénio tem um padrão que se torna evidente quando se afasta a vista o suficiente. Portugal foi grande quando aceitou ser plataforma e foi pequeno quando aceitou ser periferia. A escolha entre as duas posições nunca foi imposta por fora. Foi sempre, em última análise, uma escolha portuguesa. Continua a ser.
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