A Startup World Cup chega a Lisboa

Lisboa recebe a 17 e 18 de junho a final europeia da Startup World Cup, na Unicorn Factory. São 50 startups selecionadas. O vencedor leva um milhão de euros em investimento e o bilhete para a final mundial, em São Francisco, em outubro, onde está em jogo um milhão de dólares.

A lista de quem se senta na plateia diz tanto como a lista de quem sobe ao palco. Carlos Moedas abre o evento pela câmara de Lisboa. A Microsoft está representada por Francisco España. Ao lado, Cloudflare, Deloitte, IBM, Procter & Gamble. E depois a fileira nacional pesada: Fidelidade, Galp, AstraZeneca, CUF, TAP, o Grupo Brisa. A camada financeira pública completa o quadro, com o Banco Português de Fomento, o Banco Europeu de Investimento, o Fundo Europeu de Investimento e a AICEP.

Os temas anunciados são os do costume desta época: inteligência artificial, investimento, competitividade europeia, saúde digital. A organização resume o propósito numa frase mais ambiciosa do que o formato de concurso costuma comportar. Quer pôr em cima da mesa como se transforma inovação em valor sustentável. É uma boa pergunta. É também a pergunta que o ecossistema português anda a evitar há algum tempo.

Contexto

O número que toda a gente vai citar

Em 2025, as startups nacionais captaram cerca de 470 milhões de euros, mais 21% do que no ano anterior. É o número que vai aparecer em todos os discursos de palco esta semana. Com razão. Num ano em que o capital de risco europeu andou cauteloso, Portugal cresceu a dois dígitos. Não é trivial.

Mas um número de captação total é uma média e as médias escondem. Quatrocentos e setenta milhões podem significar muitas rondas saudáveis distribuídas por dezenas de empresas, ou podem significar duas ou três operações grandes a inflacionar o agregado enquanto a base fica na mesma. A diferença entre os dois cenários é a diferença entre um ecossistema a amadurecer e um ecossistema com boa fotografia anual.

Para quem gere uma empresa, o crescimento de 21% interessa menos do que a sua composição. Se o dinheiro novo está a entrar em fases iniciais, o sinal é de pipeline. Se está concentrado em poucos nomes já consolidados, o sinal é de seleção. São leituras opostas com o mesmo título.

470M€
Captado por startups nacionais em 2025
+21%
Crescimento face a 2024
50
Startups na final europeia em Lisboa

Quem está na plateia

A composição da sala é a parte mais reveladora deste evento e quase ninguém vai falar dela. Reparem na natureza das empresas presentes. CUF e AstraZeneca trazem a saúde. Galp traz a energia. TAP e Brisa trazem a mobilidade e a infraestrutura. Fidelidade traz o seguro. Não são fundos de capital de risco. São grandes operadores de setores regulados e de capital intensivo, os setores onde uma startup, sozinha, não consegue escalar.

Isto tem um nome e chama-se inovação aberta. A grande empresa não compra a tecnologia no início. Testa-a, integra-a num piloto, abre-lhe o primeiro cliente de referência que vale mais do que a ronda seguinte. Quando funciona, é o mecanismo mais eficiente que existe para uma startup atravessar o fosso entre ter produto e ter mercado.

O problema é que em Portugal este mecanismo funciona em modo evento. Aparece nas conferências, nos programas de aceleração corporativa com nome em inglês, nas fotografias de assinatura de protocolo. Depois a empresa-mãe muda o diretor de inovação, o orçamento do programa entra na lista de cortes do ano seguinte e o piloto promissor morre numa gaveta entre a direção de compras e a direção jurídica. A intenção é genuína. A continuidade é que falha.

"Um cliente de referência vale mais do que a ronda seguinte. O difícil não é abrir a porta numa conferência. É mantê-la aberta quando o orçamento aperta."

Para o fundador, a lição é prática e quase contraintuitiva. Estar na sala com a CUF ou a Galp não é o objetivo. É o ponto de partida. O que decide o desfecho é a capacidade de transformar uma conversa de corredor num contrato com um responsável que tem orçamento, mandato e incentivo para fazer o piloto acontecer. Sem esse responsável identificado, o evento é networking caro.

Onde o dinheiro encrava

Há um padrão conhecido de quem acompanha o ecossistema. Portugal tornou-se competente a fazer nascer startups e a financiar os primeiros passos. Incubadoras, aceleradoras, fundos de pré-semente e semente, instrumentos públicos para a fase inicial: a infraestrutura de arranque existe e funciona razoavelmente. O bloqueio aparece mais à frente, na transição para a Série A e para as rondas de crescimento, quando os tickets passam de centenas de milhares para vários milhões.

É aí que o capital nacional rareia e a empresa tem de ir buscar dinheiro fora, normalmente a Londres, Paris ou Berlim. Quando vai, o centro de gravidade da empresa começa a deslocar-se com ele. O investidor lead que entra na Série A quer board, quer reporting à sua maneira e muitas vezes quer a sede operacional mais perto de si. A startup continua portuguesa no discurso e torna-se gradualmente estrangeira na estrutura.

É esta a parte que um concurso com prémio de um milhão não resolve. Um milhão é um excelente cheque de validação e um péssimo substituto de uma ronda de crescimento. Resolve o palco. Não resolve o degrau.

O ponto cego
O ecossistema português aprendeu a financiar o início e a celebrar a saída. O meio, a fase em que uma boa empresa se torna uma empresa grande, continua dependente de capital que não está cá. É no meio que se decide se o valor criado fica no país ou emigra com a cap table.

A presença do Banco Português de Fomento, do BEI e do Fundo Europeu de Investimento na sala é precisamente o reconhecimento deste vazio. O capital público europeu existe para fazer alavanca onde o privado hesita. A fase de crescimento é exatamente esse sítio. A questão não é se o instrumento existe. É se a empresa chega à conversa preparada para o usar, com contas auditadas, métricas defensáveis e uma estrutura que aguenta a diligência de um investidor institucional.

Não é só para startups

Vale a pena dizer com clareza uma coisa que se perde no ruído destes eventos. O que está em jogo em Lisboa esta semana não interessa apenas a fundadores de startups. Interessa a qualquer empresa estabelecida que olhe para a inovação como uma alavanca de competitividade e não como um departamento de relações públicas.

Uma PME industrial que integre tecnologia de uma startup de visão computacional pode cortar refugo de produção sem montar uma equipa interna de I&D do zero. Uma empresa de serviços que adote uma ferramenta de IA generativa de um fornecedor jovem ganha capacidade que demoraria anos a construir. A inovação aberta funciona nos dois sentidos. A grande empresa não é só fonte de mercado para a startup. É beneficiária da tecnologia que não tem tempo nem perfil para desenvolver internamente.

O erro recorrente é tratar isto como uma aposta de tudo ou nada. Não é. É uma carteira de pequenos pilotos com orçamento limitado, prazos curtos e critérios de decisão definidos antes de começar. A empresa que faz cinco pilotos pequenos por ano, mata quatro sem drama e escala um, aprende mais e arrisca menos do que a empresa que assina um grande protocolo de inovação com pompa e nunca o executa.

Perspetiva Open Capital

O que isto significa para a sua empresa

Se gere uma startup que vai estar na Unicorn Factory esta semana, o conselho é desconfortável: prepare-se para o dia seguinte ao evento, não para o evento. O prémio é bom para a narrativa. O que muda o negócio é sair de lá com dois ou três responsáveis de grandes empresas identificados pelo nome, com a conversa de piloto agendada e com clareza sobre quem, do outro lado, tem orçamento para decidir. E prepare desde já a fase que vem a seguir à validação. A Série A não se improvisa quando a runway aperta. As contas, as métricas e a estrutura societária que um investidor de crescimento exige constroem-se com meses de antecedência.

Se gere uma empresa estabelecida, a leitura é diferente e igualmente prática. A inovação aberta só gera valor com continuidade orçamental e com um dono interno que responda por resultados. Um programa de pilotos com startups que sobrevive a uma mudança de gestão e a um ano mau vale dez programas anunciados em conferência. E há um lado de financiamento que muitas empresas ignoram: integrar tecnologia inovadora, montar pilotos e digitalizar processos é, em muitos casos, elegível para apoio público, de incentivos a I&D a vouchers e a linhas dedicadas à transformação digital. O que custa caro a fundo perdido pode custar bem menos com o instrumento certo por baixo.

Em qualquer dos casos, o trabalho que conta começa quando as luzes do palco se apagam. É aí que a Open Capital costuma ser útil: a estruturar a fase de crescimento, a desenhar a abordagem de inovação aberta com cabeça e a encontrar o financiamento que faz a ponte entre validar uma ideia e construir uma empresa que fica.

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