Tipos de inovação

Quando alguém diz "a nossa empresa precisa de inovar", raramente se percebe do que está a falar. Pode significar lançar um produto novo, mudar a forma como a fábrica produz, repensar a oferta comercial ou simplesmente automatizar uma tarefa repetitiva. São coisas diferentes, com custos, prazos e riscos diferentes. E, no entanto, vivem todas debaixo da mesma palavra.

Esta confusão tem consequências concretas. Um gestor que pede inovação à equipa sem especificar o tipo acaba muitas vezes a obter uma resposta que não serve o problema real. Um empresário que submete uma candidatura a incentivos sem enquadrar bem o tipo de inovação do projeto corre o risco de ver a candidatura indeferida, não por falta de mérito, mas por erro de categorização.

Organizar as ideias sobre inovação não é um exercício académico. É uma ferramenta de decisão. Saber se o que se pretende fazer é uma inovação de produto ou de processo determina quem lidera o projeto, que recursos são precisos, que indicadores medem o sucesso e, no limite, a que programas de financiamento faz sentido candidatar.

Ponto de partida

Uma definição que serve para todos os casos

O Manual de Oslo, a referência internacional usada pelo Eurostat e pela OCDE para medir inovação, define-a como a introdução de um produto, serviço, processo, método de marketing ou forma de organização que seja novo ou significativamente melhorado. A chave está em três palavras: introdução, novo e significativo.

Introdução significa que o resultado chegou ao mercado ou está efetivamente em uso. Uma ideia guardada num slide não é inovação. Novo quer dizer novo para a empresa, que pode ou não ser novo para o mundo. E significativo afasta as pequenas melhorias cosméticas da equação. Mudar a cor de uma embalagem não é inovação. Mudar o material que permite reduzir 30% do peso e a pegada de carbono, é.

O que muitos confundem
Inovação não é sinónimo de tecnologia. Uma empresa de construção que reorganiza o fluxo de trabalho no estaleiro e reduz o tempo de execução em 20% está a inovar. Não tocou em nada digital.
As quatro famílias

Os quatro tipos fundamentais segundo o Manual de Oslo

Esta é a classificação mais utilizada por quem avalia projetos de inovação, incluindo as agências portuguesas que gerem o Portugal 2030 e o SIFIDE II. Divide a inovação em quatro famílias, por tipo de objeto.

1. Inovação de produto

É a criação ou melhoria substancial de um bem ou serviço. Pode ser um produto físico (uma máquina nova, um alimento reformulado), um serviço (uma apólice de seguros desenhada de forma diferente) ou um produto digital (uma aplicação, um software SaaS). O que caracteriza este tipo é que o output é algo que o cliente reconhece como diferente.

Exemplo reconhecível: uma empresa de mobiliário que, em vez de vender móveis por peças, lança uma linha modular que o cliente monta e reconfigura ao longo dos anos. O produto é outro. O cliente percebe isso.

2. Inovação de processo

Ocorre na forma como a empresa produz ou entrega. O produto pode manter-se exatamente igual. O que muda é como é feito. Uma nova linha de produção, um método automático de controlo de qualidade, uma reorganização da logística de armazém, um sistema integrado que substitui folhas de Excel dispersas.

Este tipo de inovação é frequentemente invisível para o cliente final, mas é muitas vezes o que tem maior impacto no resultado operacional. Uma empresa têxtil que passa de amostras físicas para amostras digitais reduz o ciclo de desenvolvimento de coleções em semanas. O produto continua a ser um tecido. A forma de chegar a ele é outra.

3. Inovação organizacional

Inclui novas práticas de gestão, novas formas de organizar o trabalho ou novas relações externas. Adotar uma metodologia ágil em equipas que antes funcionavam em modo cascata é inovação organizacional. Criar uma estrutura matricial onde existia uma estrutura puramente funcional, também. Implementar um sistema de parcerias com universidades que muda o funcionamento da investigação interna, idem.

É o tipo mais subestimado. Muitas vezes, o problema de uma empresa não está no produto nem na máquina, está em quem decide e em como decide.

4. Inovação de marketing

Envolve mudanças significativas no desenho, embalagem, posicionamento, distribuição ou estratégia de preço. Passar de venda B2B tradicional para venda direta ao consumidor com um novo canal digital é um exemplo claro. Reformular a proposta de valor para um segmento novo, também.

Convém distinguir isto de campanhas de marketing pontuais. Uma campanha de Natal não é inovação. A introdução sistemática de um modelo de subscrição numa empresa que antes vendia à unidade, é.

Uma dimensão em paralelo

Inovação tecnológica vs. não-tecnológica

Em paralelo às quatro famílias acima, a literatura e a maioria das métricas distinguem ainda entre inovação tecnológica e não-tecnológica. Os dois primeiros tipos (produto e processo) são normalmente considerados tecnológicos, por exigirem com frequência o envolvimento de I&D, engenharia ou ciência aplicada. Os dois últimos (organizacional e marketing) são considerados não-tecnológicos.

Esta distinção importa porque os programas de apoio público portugueses e europeus tendem a privilegiar a inovação tecnológica. O SIFIDE II, por exemplo, só aceita despesas diretamente ligadas a atividades de I&D, que na prática quase sempre se traduzem em inovação de produto ou processo com componente técnica. Já o Portugal 2030 tem instrumentos específicos para inovação empresarial que podem acomodar as quatro tipologias, dependendo do aviso.

Implicação prática
Um projeto que combine inovação de produto com reorganização da produção tem mais probabilidade de ser elegível em múltiplos instrumentos do que um projeto puramente organizacional, por muito relevante que este seja para a empresa.
A segunda dimensão

Quão profunda é a inovação: incremental, radical, disruptiva

Classificar o tipo pelo objeto é só metade da história. A outra metade é a intensidade. Duas empresas podem estar ambas a fazer inovação de produto e, no entanto, estar em planetas diferentes em termos de risco, prazo e retorno esperado. A terminologia mais usada é a de Clayton Christensen, adaptada ao longo dos anos por diversos autores.

Inovação incremental

São as melhorias contínuas sobre o que já existe. Um motor que passa a consumir menos 5%. Uma funcionalidade extra num software. Um processo que se otimiza em cada iteração. Este é o pão nosso de cada dia da maioria das empresas portuguesas. Baixo risco, retorno previsível, prazo curto.

O erro comum é subestimar o seu valor. A inovação incremental, feita de forma sistemática, tem um efeito cumulativo que pode ser mais transformador, ao fim de cinco anos, do que uma grande aposta radical.

Inovação radical

Introduz algo que representa uma rutura tecnológica ou de conceito, mas que ainda opera dentro do mesmo mercado. Um carro elétrico face a um carro a combustão é inovação radical: é a mesma categoria (mobilidade individual), com uma arquitetura técnica fundamentalmente diferente.

O risco é maior, o investimento é maior, o prazo estende-se por anos. Mas o mercado ainda é reconhecível.

Inovação disruptiva

Christensen definiu o conceito de forma muito específica e o termo é abusivamente usado. Inovação disruptiva é aquela que começa por servir um segmento de mercado que os incumbentes ignoram (normalmente porque é menos rentável ou tecnicamente inferior) e que, progressivamente, melhora até deslocar o mercado principal. A Netflix em relação à Blockbuster é o exemplo canónico.

Não confundir com inovação radical. Nem tudo o que é novo e transformador é disruptivo no sentido técnico. Muitas vezes é apenas radical.

Inovação arquitetural

Proposta por Henderson e Clark, descreve inovações que reconfiguram a forma como os componentes se encaixam, sem alterar os componentes em si. As primeiras câmaras digitais compactas usavam componentes conhecidos (sensores, lentes), mas numa arquitetura radicalmente diferente da câmara tradicional. Para os fabricantes de câmaras analógicas, o desafio não foi tecnológico, foi arquitetural. E perderam.

70%
Peso da inovação incremental nas empresas
20%
Peso da inovação radical
10%
Peso da inovação disruptiva
3x
Retorno relativo médio da disruptiva

Distribuição aproximada do esforço e retorno esperado em carteiras de inovação, com base no modelo 70-20-10 popularizado pela Google e amplamente adotado em consultoria de inovação.

A terceira dimensão

Inovação aberta vs. fechada

Durante décadas, a inovação foi vista como um processo predominantemente interno. A empresa tinha o seu departamento de I&D, contratava os melhores engenheiros, protegia ciosamente as patentes e lançava produtos no mercado. Henry Chesbrough, em 2003, cunhou o termo open innovation para descrever o modelo que começava a ganhar força e que hoje é dominante em muitos setores.

Inovação aberta não é abrir a empresa a qualquer um. É reconhecer que nem todo o conhecimento útil está dentro de casa e que a empresa pode e deve combinar, de forma estruturada, fontes internas e externas. Parcerias com universidades, participação em consórcios europeus, compra seletiva de tecnologia, programas de inovação aberta com startups, licenciamento de patentes.

A inovação fechada continua a existir e faz sentido em contextos específicos, tipicamente quando a proteção da vantagem competitiva depende do segredo industrial. Farmacêuticas e semicondutores operam ainda com forte componente fechada. Mas, em média, as empresas europeias que adotam modelos de inovação aberta reportam taxas de sucesso superiores em projetos de I&D.

Onde a inovação reside

Inovação no modelo de negócio

Este tipo merece uma secção própria porque, nas duas últimas décadas, foi o que gerou maior valor económico em muitas das empresas que hoje dominam setores inteiros. E, no entanto, continua a ser a categoria menos compreendida pela generalidade dos gestores portugueses.

Inovação de modelo de negócio altera a forma como a empresa cria, entrega e captura valor. Pode envolver o que se vende, a quem, como se cobra, que recursos se usam, que parceiros se escolhem. Dell vendia computadores como toda a gente, mas montava-os por encomenda e vendia diretamente: o produto era igual, o modelo era outro. Spotify não inventou a música digital, mas substituiu a compra por subscrição. Salesforce popularizou o software por uso, não por licença perpétua.

O ponto importante: esta inovação quase nunca envolve I&D tradicional. É estratégica, comercial, por vezes contratual. Isso torna-a mais difícil de financiar através de incentivos públicos, que estão desenhados para investigação tecnológica. E torna-a mais difícil de executar internamente, porque raramente existe um departamento responsável por ela. Fica no ar, algures entre marketing, estratégia e comercial.

"A inovação mais rentável das últimas duas décadas não foi a tecnológica. Foi a dos modelos de negócio que usaram tecnologia existente de formas novas."
Comparação

O mapa completo numa tabela

TipoO que mudaExemploElegibilidade típica
ProdutoO bem ou serviço entregue ao clienteNova linha de produtos biodegradáveisPT2030, SIFIDE (se envolver I&D), RFAI
ProcessoA forma como se produz ou entregaAutomação de linha de produçãoPT2030, SIFIDE, RFAI, Banco de Fomento
OrganizacionalA gestão interna e estruturaAdoção de metodologia ágil a toda a empresaLimitada. Avisos específicos PT2030
MarketingPosicionamento, canal, preçoPassagem de B2B para D2CLimitada. Alguns vouchers IAPMEI
Modelo de negócioLógica global de criação de valorMudança de venda para subscriçãoMuito limitada. Avaliação caso a caso
TecnológicaNova base técnica ou científicaDesenvolvimento de novo algoritmo de IASIFIDE II, Horizonte Europa, EIC
DisruptivaNovo mercado que deslocará o atualFintech que substitui banca tradicionalVenture capital, business angels, EIC Accelerator
Aplicação a Portugal

O que se passa no tecido empresarial português

Os dados mais recentes do Inquérito Comunitário à Inovação (CIS) mostram que cerca de 55% das empresas portuguesas com mais de dez trabalhadores reportam ter introduzido algum tipo de inovação nos últimos três anos. O número parece alto, mas o detalhe é revelador: a maior parte é inovação de processo de natureza incremental, concentrada em setores tradicionais como indústria alimentar, metalurgia e têxtil.

A inovação radical é substancialmente mais rara e está concentrada em três ecossistemas visíveis: ciências da vida em Coimbra e Lisboa, software e tecnologias de informação em Lisboa e Porto e indústria avançada em Aveiro e Braga. Fora destes núcleos, a inovação radical portuguesa tende a ser pontual.

A inovação de modelo de negócio, por seu lado, é onde Portugal tem subido nos últimos anos, sobretudo por via das startups que nasceram nos últimos dez anos e que replicaram, adaptaram ou criaram modelos que antes não existiam no país. A Unicorn Factory em Lisboa é um termómetro razoável deste movimento.

Onde está o gap
A empresa portuguesa mediana inova em processo mas não em produto. Isto reflete uma economia onde o valor acrescentado é capturado por quem desenha, enquanto quem fabrica compete em eficiência. Mudar este padrão é, no fundo, o objetivo subjacente a boa parte dos instrumentos de apoio à I&D em Portugal.
Decisão

Como escolher o tipo certo para o seu projeto

Nenhuma empresa tem recursos para fazer todos os tipos de inovação em simultâneo. Escolher bem é metade da batalha. Três perguntas que ajudam a clarificar:

  • Qual é o problema de negócio? Se o problema é que o produto está obsoleto, é inovação de produto. Se o problema é que o custo unitário está acima do mercado, é de processo. Se o problema é que o cliente não percebe o valor, pode ser de marketing ou de modelo. Começar pelo tipo sem começar pelo problema é quase garantia de projeto mal posicionado.
  • Qual é o apetite de risco? Uma empresa em fase de maturidade com margens apertadas raramente deve apostar em disruptiva. Uma startup em fase inicial raramente tem musculatura para inovação radical de longo ciclo. Alinhar o tipo com o estádio da empresa é um teste de realismo.
  • Que instrumento de financiamento é acessível? Se a empresa tem histórico de I&D e quer manter esforço interno de investigação, SIFIDE. Se quer modernizar operação, PT2030 ou RFAI. Se precisa de capital para escalar uma aposta disruptiva, venture capital. O tipo de inovação restringe o universo de capital disponível.
Perspetiva Open Capital

Como aplicar este conhecimento

O maior erro que vemos em projetos de inovação não é o de escolher mal entre radical e incremental. É o de não ter sequer uma linguagem partilhada dentro da empresa sobre o que significa inovar. O diretor de operações diz "precisamos de inovar" e pensa em automação. O CEO ouve e pensa em produto novo. A equipa comercial ouve e pensa em campanha. Cada um puxa para o seu lado, o orçamento dilui-se e nada chega a ser executado em profundidade.

Antes de desenhar um plano de inovação, o exercício útil é quase sempre o mesmo: mapear, no quadro de gestão, que tipos estão a ser conduzidos, com que recursos e com que expectativa de retorno. Este exercício simples tende a revelar desalinhamentos que nenhuma ferramenta sofisticada detecta.

Para efeitos de financiamento, a regra prática é esta. Projetos com I&D real e documentável encaixam em SIFIDE. Projetos de modernização produtiva com componente tecnológica encaixam em PT2030 ou RFAI. Projetos de expansão com componente de inovação encaixam bem em avisos específicos do Compete 2030. Projetos de modelo de negócio encaixam melhor em capital privado (VC, business angels) do que em incentivos. Não forçar o encaixe é parte da disciplina.

E, finalmente, nenhum projeto de inovação sobrevive apenas à classificação correta. Sobrevive à execução. A taxonomia serve para clarificar o que se vai fazer e como se vai medir. O resto é trabalho.

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