Este instrumento encontra-se encerrado. As candidaturas ja nao estao abertas.
O contexto

Cabos submarinos: a espinha dorsal esquecida da internet global

Noventa e nove por cento do tráfego de internet intercontinental passa por cabos submarinos de fibra ótica. Estes ativos, invisíveis e frequentemente ignorados, são a infraestrutura crítica mais exposta do mundo digital. Com 600 sistemas a cobrir mais de 1,5 milhões de km no leito dos oceanos, os cabos submarinos registam em média 200 avarias por ano a nível global.

A preocupação da União Europeia com a segurança destes cabos intensificou-se após um conjunto de incidentes suspeitos em 2024 e 2025 no Mar Báltico, Mar do Norte e Mar Mediterrâneo. A resposta europeia materializou-se no EU Action Plan on Cable Security (fevereiro de 2025) e, em 2026, no EU Cable Security Toolbox, que recomenda especificamente o uso de sistemas de cabos inteligentes como redes de sensores geográficos para deteção precoce de ameaças.

O aviso CEF-DIG-2026-SMART-CABLES, gerido pela HaDEA (Health and Digital Executive Agency), operacionaliza esta estratégia: financia a instalação de tecnologias de monitorização inteligente em sistemas de cabos submarinos existentes.

O que financia

Transformar cabos passivos em redes de sensores ativos

O objetivo técnico deste aviso é converter infraestrutura de cabos submarinos existente em "smart cable systems": redes de sensores capazes de monitorizar a sua própria integridade e as condições ambientais circundantes. As atividades elegíveis organizam-se em quatro categorias:

  • Preparação e implementação: estudos de vulnerabilidade de infraestruturas críticas; seleção, instalação, teste e comissionamento de sistemas de sensores e monitorização.
  • Upgrade de cabos existentes: integração de sensores ao longo do cabo (sísmica, acústica, pressão, temperatura, vibração) ou instalação de equipamento de interrogação nas extremidades.
  • Sistemas de deteção e alerta precoce: plataformas de vigilância em tempo real ligadas aos cabos; sistemas de aquisição, processamento e transmissão segura de dados para autoridades competentes.
  • Interoperabilidade: formatos de dados padronizados e interligação com Regional Cable Hubs e serviços de emergência.
Duplo uso dos dados
Os sensores instalados nos cabos captam não só ameaças à integridade da infraestrutura, mas também dados sobre condições marinhas (temperatura, correntes, fauna marinha), atividade sísmica e vulcânica. Estas capacidades têm valor para a proteção civil, investigação oceanográfica e monitorização climática. Propostas que demonstrem este duplo uso têm vantagem na avaliação.
20M
EUR total
4M
EUR máx. proj.
50%
Cofinac. cross-border
24m
Duração máxima
Elegibilidade

Exclusivo para entidades de Estados-Membros da UE

Este aviso é um dos mais restritivos em matéria de elegibilidade na carteira CEF Digital. Por razões de segurança estratégica, a participação está limitada a entidades estabelecidas em Estados-Membros da UE. Países terceiros associados ao CEF estão excluídos deste concurso específico.

Adicionalmente, aplica-se uma restrição de controlo: as entidades participantes não podem ser diretamente ou indiretamente controladas por um país não elegível. O mesmo se aplica a subcontratantes e parceiros associados. As entidades devem registar-se no Participant Register antes de submeterem a proposta.

Perfil elegívelExemplos
Operadores de cabosEmpresas proprietárias ou operadoras de sistemas de cabos submarinos
Autoridades públicasAutoridades nacionais de cibersegurança, proteção civil, telecomunicações
Fornecedores de tecnologiaFabricantes de sensores, sistemas de monitorização, equipamento de cabo
Entidades de investigaçãoUniversidades e centros de investigação marinha e de telecomunicações
Investidores e utilitiesEntidades com interesse na infraestrutura de conectividade digital
Estrutura financeira

Taxas de cofinanciamento por tipo de atividade

A estrutura de financiamento distingue três cenários, com taxas diferentes conforme o tipo de atividade e a dimensão geográfica do projeto:

Tipo de atividade / ContextoTaxa máxima
Custos padrão (outros)30%
Estudos50%
Dimensão cross-border50%
Works em regiões ultraperiféricas70%
Máximo por projeto4.000.000 EUR
Relevância para Portugal: ilhas e regiões ultraperiféricas
Os Açores e a Madeira são Regiões Ultraperiféricas (RUP) da UE. Projetos que incluam estas regiões podem beneficiar de uma taxa de cofinanciamento de 70% para obras, significativamente superior ao padrão. Para entidades portuguesas com interesse em conectividade digital nos arquipélagos, este aviso é particularmente relevante.
Critérios de avaliação

O que distingue uma proposta vencedora

As propostas são avaliadas em cinco critérios, cada um com pontuação máxima de 5 pontos e mínima de 3 para aprovação. A pontuação total mínima é 15 em 25:

  • Prioridade e urgência: correspondência com objetivos de política europeia, valor acrescentado para a UE e equilíbrio geográfico. Projetos com ligação à proteção civil ou monitorização climática têm prioridade.
  • Maturidade: capacidade de arranque imediato, estado dos procedimentos de contratação e disponibilidade de financiamento complementar.
  • Qualidade: solidez do plano de implementação, arquitetura técnica, gestão de risco e estratégia de comunicação.
  • Impacto: dimensão transfronteiriça, contributo para a interoperabilidade e cobertura de áreas de maior extensão.
  • Efeito catalisador: capacidade de o financiamento europeu superar uma lacuna de mercado ou mobilizar investimento adicional.
Requisitos de segurança

Declarações obrigatórias sobre cibersegurança e controlo

Dada a natureza crítica da infraestrutura financiada, as propostas devem incluir declarações de segurança que abordem explicitamente a conformidade com os requisitos de cibersegurança da UE, incluindo o EU Cybersecurity Toolbox e o EU Cable Security Toolbox. As entidades têm de demonstrar:

  • Exclusão ou restrição de fornecedores de alto risco nas componentes críticas da infraestrutura.
  • Medidas de resiliência da cadeia de fornecimento e de autonomia estratégica.
  • Que os resultados do projeto permanecem sob controlo do beneficiário durante a ação e por 10 anos após a conclusão.
  • Medidas para evitar dependência de jurisdições de países terceiros não elegíveis.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este aviso é tecnicamente exigente e dirigido a um conjunto relativamente específico de entidades: operadores de cabos submarinos, fornecedores de tecnologia de sensores e autoridades nacionais de telecomunicações e cibersegurança. Para entidades portuguesas, o interesse imediato reside na dimensão atlântica e nos arquipélagos.

Portugal tem uma posição geográfica privilegiada nos cabos submarinos que ligam a Europa, África e América. A ANACOM, operadores de telecomunicações e entidades de investigação marinha são os perfis mais naturais para liderar ou integrar consórcios neste aviso. A taxa de 70% para obras em regiões ultraperiféricas é um incentivo concreto para propostas que incluam os Açores ou a Madeira. Consórcios transfronteiriços com outros Estados-Membros costeiros (Espanha, França, Irlanda, Grécia) reforçam tanto a pontuação de impacto como a taxa de cofinanciamento.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]