A defesa do fundo do mar entrou na lista das prioridades europeias
A sabotagem de cabos submarinos no Mar Báltico em 2023 e 2024 e os incidentes recorrentes com infraestruturas energéticas europeias submersas, transformaram a proteção das infraestruturas críticas no fundo do mar numa prioridade política, militar e industrial dentro da União Europeia. O EDF-2026-RA-SI-UWW-CSBI-STEP é a tradução orçamental dessa mudança.
O tópico aloca 30 milhões de euros à investigação e demonstração de um sistema completo, em camadas, de proteção do fundo do mar. Inclui ativos não tripulados, sensores avançados, sistemas de observação e deteção subaquática, comunicação subaquática e comando e controlo integrado. Várias propostas podem ser financiadas e o teto por proposta é de 15 milhões de euros.
Necessidades que este instrumento resolve
O tópico cruza investigação aplicada com investimento em capacidades produtivas. Não basta um conceito demonstrado em laboratório, exige-se um sistema validado em mar com integração nos centros de comando marítimo. Esta exigência puxa simultaneamente conhecimento, integração tecnológica e capacidade industrial dos consórcios candidatos.
- I&D e ciência: os work packages elegíveis cobrem estudos, conceção e atividades upstream em sensores acústicos, óticos, eletromagnéticos e magnéticos, robótica subaquática autónoma, comunicação acústica em zonas com elevada interferência e algoritmia de fusão de dados multi-fonte.
- Investimento produtivo: a modalidade STEP-Defence e STEP-Digital/deep tech impõe que os resultados alimentem a base industrial e tecnológica europeia, estimulando capacidade produtiva interna em domínios onde a UE depende hoje de fornecedores externos (sonar, AUV, ROV, payloads especializados).
Cinco camadas para um problema multi-domínio
A proteção do fundo do mar não é um problema único, é um problema com várias camadas que devem operar em conjunto. O tópico exige uma abordagem integrada que articule todas as componentes, do sensor à decisão operacional.
- Ativos não tripulados: AUV (autonomous underwater vehicles), ROV (remotely operated vehicles) e drones de superfície, com autonomia operacional adequada a missões de patrulha e inspeção contínua de zonas extensas.
- Sensores avançados: sonar de varrimento lateral, sensores magnéticos, hidrofones de banda larga, sensores óticos e fibras óticas distribuídas para deteção de intrusão.
- Observação e deteção subaquática: sistemas persistentes de vigilância em zonas críticas, com capacidade de discriminar entre tráfego legítimo, atividade de pesca e potenciais ameaças.
- Aquisição e comunicação: redes acústicas e óticas para transmissão de dados em ambiente subaquático, frequentemente com latência tolerável e largura de banda limitada.
- Comando e controlo integrado: integração com centros marítimos de comando para resposta coordenada, com fusão de dados de múltiplos sensores e plataformas.
Lump sum, spin-in e dupla classificação STEP
A ação é financiada na modalidade EDF Lump Sum Grants. O pagamento é feito contra entregáveis pré-definidos, libertando o consórcio de reporting financeiro detalhado mas exigindo precisão na definição inicial das milestones técnicas. A modalidade encaixa bem em projetos de investigação aplicada com perfil de risco controlado.
A condição de spin-in é igualmente relevante. As propostas devem integrar resultados de projetos europeus civis prévios (Horizonte Europa, FCH JU, Clean Sky, projetos de investigação marítima) com direitos de comercialização garantidos. Esta cláusula favorece consórcios com histórico em programas marinhos europeus e funciona como filtro de seleção.
Para que tipo de entidade é este tópico
O perfil dos beneficiários combina três tipos de organização: empresas de tecnologia naval e subaquática (Saab, Thales, Naval Group, Navantia, ECA Group, Kongsberg), fabricantes de plataformas robóticas autónomas e empresas de tecnologia digital com competência em fusão de dados, IA e cibersegurança aplicada ao domínio marítimo. Centros de investigação europeus em ciência marinha e oceanografia operacional fecham normalmente o consórcio.
Portugal tem aqui uma posição de partida favorável. A Marinha Portuguesa opera no Atlântico Norte numa zona com elevada concentração de cabos submarinos transatlânticos e o ecossistema nacional inclui empresas com competência em sensores oceânicos, robótica subaquática e operação de meios náuticos não tripulados. Centros como o INESC TEC e o Instituto Superior Técnico têm programas de investigação ativos em robótica marinha.
Para uma empresa portuguesa, o caminho realista é a integração num consórcio liderado por uma prime europeia naval ou de defesa, com contributo especializado num componente concreto: sensor inovador, software de fusão de dados, plataforma autónoma testada, ou capacidade demonstrada de operação em águas atlânticas. A geografia atlântica de Portugal e a experiência operacional em ambiente oceânico aberto são argumentos materiais para esta participação.
O que recomendamos
A janela de candidatura termina a 29 de setembro de 2026, o que dá pouco mais de quatro meses úteis para construir um consórcio sólido. Para entidades portuguesas a considerar este tópico, três passos imediatos fazem diferença. Primeiro, mapear os projetos europeus prévios em que a entidade já participou no domínio marinho (STREAM, ATLAS, EuroSea, NAVAIS) e identificar resultados utilizáveis como base de spin-in. Segundo, contactar as primes navais europeias com programas em curso de proteção de infraestruturas submarinas, sobretudo aquelas com presença ibérica ou atlântica. Terceiro, avaliar a complementaridade com programas nacionais portugueses como o Atlantic Centre na Madeira ou as iniciativas da Marinha em UAS marítimos.
A dupla classificação STEP traz um benefício político e financeiro adicional. Projetos STEP têm regularmente prioridade em discussões interinstitucionais europeias e podem aceder a label de soberania que facilita financiamento subsequente. Para uma entidade portuguesa, posicionar-se num projeto STEP é mais valioso do que num projeto EDF clássico de igual dotação.
A área de proteção de cabos submarinos é uma das mais dinâmicas do orçamento europeu de defesa nos próximos cinco anos. Os investimentos prosseguirão, com novos avisos em 2027 e 2028. Construir hoje a participação num consórcio EDF-2026-RA-SI-UWW-CSBI-STEP é também construir o pré-requisito para entrar nas fases de desenvolvimento subsequentes, onde os volumes financeiros são maiores e a competição é mais intensa.
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