Contexto

O que é o tópico CPA-CDS

O Common Procurement Action (CPA) Counter-Drone Systems é a primeira call dedicada do Programa Europeu para a Indústria de Defesa (EDIP) à aquisição comum de soluções para neutralização de sistemas não tripulados. O Regulamento (UE) 2025/2643 estabelece o quadro: a Comissão Europeia cofinancia, com até 90 milhões de euros, aquisições conjuntas de sistemas counter-drone realizadas por dois ou mais Estados-Membros através de um agente de procurement comum, em alinhamento com a constatação operacional de que a ameaça de drones se tornou pressing threat para forças armadas, infraestruturas críticas e operações em teatro.

O âmbito é amplo. Cobre sistemas integrados de defesa antiaérea de muito curto alcance e curto alcance (VSHORAD e SHORAD), bem como partes destes sistemas: sensores de deteção e identificação, efectores cinéticos (mísseis, projéteis, kinetic kill), efectores não cinéticos (jamming RF, spoofing GNSS, direct energy weapons) e soluções de comando e controlo (C2). A neutralização cobre os quatro domínios de UxS: aéreo, terrestre, de superfície e subaquático, incluindo veículos remotamente controlados ou autónomos com software e sensores avançados.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

CPA-CDS é um instrumento de aquisição comum, cofinanciada pela UE, com efeito industrial direto na consolidação contratual da fileira europeia de counter-UxS, que se desenvolveu em modo fragmentado nos últimos cinco anos.

  • Investimento produtivo (efeito direto na cadeia industrial): consolidar 5 a 10 Estados-Membros num procurement único de sistemas counter-drone tem efeito imediato no roadmap industrial dos primes europeus que ganham essa carteira. Volume contratual previsível justifica investimento em capacidade fabril, qualificação de fornecedores Tier 2, ramp-up de produção de sensores e munição counter-drone e contratação especializada.
  • Digitalização e IA: a parte de C2 e fusão sensorial dos sistemas counter-drone é hoje fortemente dependente de software embarcado, processamento em tempo real, classificação automática de ameaças e algoritmos de coordenação de efectores. Os contratos CPA tendem a estabilizar uma stack de software industrial europeu coerente, com efeito de mercado em PME especializadas em IA aplicada a defesa, fusão multi-sensor e sistemas C4ISR.
Atividades elegíveis

O que pode ser financiado

O âmbito do procurement, conforme regulamento da call, cobre cinco categorias técnicas que tipicamente compõem um sistema counter-drone integrado.

  • Sistemas integrados VSHORAD e SHORAD: Very Short Range Air Defence e Short Range Air Defence enquanto soluções fechadas de defesa antiaérea contra drones de baixo perfil, baixa velocidade e baixo custo (low/slow/small).
  • Sensores de deteção e identificação: radar de banda X, K, Ka ou Ku para deteção de drones de pequena dimensão; sistemas RF para deteção do enlace de comando; sensores optrónicos (electro-óticos e infravermelhos) para identificação visual; deteção acústica para complementar; fusão multi-sensor para reduzir falsos positivos.
  • Efectores cinéticos: mísseis SHORAD, projéteis programáveis, sistemas kinetic kill por colisão controlada (interceptor drones), redes capturadoras.
  • Efectores não cinéticos, incluindo direct energy: jamming RF de banda larga e seletivo, spoofing de GNSS, jamming de C2 do drone, direct energy weapons (laser de média potência ou microondas) para neutralização suave ou hard-kill.
  • Comando e controlo (C2): consola operacional, fusão sensorial, classificação automática de ameaças, gestão de regras de empenhamento, integração em rede tática, interoperabilidade com C4ISR de nível superior. Os contratos podem incluir cláusulas de upgrade rápido baseadas em lessons identified do campo de batalha.
90M€
Cofinanciamento UE
20M€
Procurement mínimo
2033
Conclusão até 31/12
Estrutura

Como se estrutura uma candidatura CPA

As regras formais constam do call document oficial publicado no Funding & Tenders Portal. CPA-CDS segue a mesma arquitetura institucional dos restantes Common Procurement Actions: o cofinanciamento UE não vai diretamente para o fornecedor industrial, mas para os Estados-Membros que conduzem o procurement conjunto, sob a forma de redução de custo da aquisição.

  • Acordo vinculativo entre Estados-Membros: o procurement assenta em binding agreement assinado pelos Estados-Membros e países associados participantes, com agente de procurement nomeado conjuntamente. Este acordo define volume, especificações de sistema, calendário, repartição de quantidades e condições de qualificação industrial.
  • Agente de procurement qualificado: o agente pode ser autoridade contratante nacional, EDA, uma SEAP em funcionamento, OCCAR ou NSPA. Em sistemas counter-drone, a NSPA tem track record relevante de procurement multi-nacional para forças NATO, com efeito direto na execução administrativa.
  • Cláusulas de upgrade rápido: em counter-UxS o ritmo de iteração tecnológica é rápido. O regulamento exige que os contratos incluam provisões para upgrade célere baseado em lessons identified, ou seja, capacidade de incorporar evoluções de software, novos modos de operação ou contramedidas a táticas adversárias emergentes sem renegociação contratual completa.
  • Cooperação nova ou pré-existente: a cooperação entre Estados-Membros pode ser criada de raiz no contexto da call, ou ancorar-se em quadro existente, desde que as atividades sob esse quadro não tenham começado antes de 5 de março de 2024 e não estejam concluídas antes da assinatura do Grant Agreement.
  • Lump Sum Grant: o regime financeiro é Lump Sum (EDF-LS), com pagamento por entregáveis. As taxas máximas, modalidades de pagamento e condições de exclusão de operadores não europeus constam das secções pertinentes do call document.
Verificação obrigatória
Condições de elegibilidade dos países participantes, ownership control dos operadores económicos contratados, regras de exclusão de operadores não europeus, exigências de segurança classificada, capability declaration, taxas de financiamento e modelo de Grant Agreement constam das secções correspondentes do call document. Antes de qualquer envolvimento, leitura completa do call document e consulta com o Ministério da Defesa Nacional é obrigatória.
Para que tipo de empresa

Quem encaixa neste tópico

EDF-EDIP-P-2026-FNLC-CPA-CDS é, formalmente, um instrumento de cofinanciamento à aquisição estatal. Empresas privadas portuguesas não são beneficiárias diretas. Mas o efeito industrial subsequente é especialmente material no setor counter-drone, onde a fileira europeia tem PME especializadas com produto competitivo, em larga medida ainda fora dos catálogos consolidados das grandes primes.

Em Portugal, o universo de empresas com posicionamento natural cruza vários nichos. Empresas com produto em deteção RF, jamming portátil e fixo, deteção optrónica de drones, software de fusão sensorial, IA aplicada a classificação automática de ameaças, software embarcado para C2 e ciberresiliência aplicada a sistemas industriais e operacionais. Há também posicionamento natural para empresas de eletrónica embarcada militar, sensores de banda larga e fabricantes de munições programáveis. Universidades e centros nacionais com investigação em radar, processamento de sinal, RF de banda larga, IA explicável aplicada a defesa e arquiteturas de sistemas seguros têm porta de entrada em pacotes científicos da cadeia de qualificação.

A trajetória de entrada típica para uma empresa portuguesa não é candidatura direta a CPA-CDS, mas inclusão num catálogo qualificado de fornecedores de prime europeu (MBDA, Hensoldt, Saab, Indra, Leonardo, Rheinmetall, Diehl, Thales, Rafael, Elbit), ou de organização de procurement (NSPA, OCCAR, EDA), seguido de fornecimento ao procurement subsequente do CPA.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

CPA-CDS é, na nossa leitura, o mais relevante dos tópicos EDIP CPA de 2026 para o ecossistema português, por dois motivos. Primeiro, o segmento counter-drone é tecnologicamente menos consolidado do que munições convencionais ou mísseis tradicionais, o que abre janela competitiva real para PME inovadoras com produto diferenciado em deteção RF, jamming, software C2 ou IA aplicada. Segundo, a procura europeia em counter-drone vai crescer estruturalmente nos próximos cinco anos, conduzida pela proliferação de drones civis adaptados a operações táticas e pela necessidade de proteção de infraestruturas críticas em território europeu.

Para empresas portuguesas, três frentes práticas. Primeiro, mapear ativamente quais primes europeus em counter-drone tem dependência ou interesse em complementar a sua oferta com módulos competitivos. PME nacionais com produto diferenciado em RF, sensores optrónicos, software ou IA aplicada têm posicionamento natural para entrar como Tier 2 qualificado. Segundo, candidatar-se ativamente a programas adjacentes do EDF-DA Counter-UxS, EDF-RA Sensor (que estão em fase de Development Action e Research Action) para construir track record antes do procurement subsequente. Terceiro, posicionar-se em catálogos NSPA e EDA, que serão agentes de procurement frequentes em CPA-CDS.

Em termos de prazo, recomendamos posicionamento ativo já no primeiro trimestre de 2026, com mapeamento concreto de primes-alvo, validação de elegibilidade EDF e contacto comercial com o Ministério da Defesa Nacional para alinhamento institucional. Counter-drone é, em nossa leitura, o segmento de defesa europeia onde uma PME portuguesa diferenciada tem maior probabilidade real de entrada em procurement plurianual significativo.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]