Contexto e Enquadramento

O que é o call HORIZON-CID-2027-01

O Clean Industrial Deal, anunciado pela Comissão Europeia como prolongamento operacional do Pacto Ecológico, procura manter a Europa como localização atrativa para indústria, incluindo indústrias eletrointensivas, enquanto se descarboniza. O call HORIZON-CID-2027-01 é o instrumento de I&D mais musculado da edição 2027 do Horizonte Europa nesta agenda, financiando ações de inovação que tragam para o mercado tecnologias capazes de descarbonizar processos industriais e de produzir, na União, tecnologias limpas e modelos de negócio circulares.

O call está dividido em dois tópicos complementares. O HORIZON-CID-2027-01-01 foca a descarbonização das indústrias eletrointensivas e implementa as parcerias europeias co-programadas Processes4Planet e Clean Steel. O HORIZON-CID-2027-01-02 dedica-se a tecnologias limpas para a ação climática. Em ambos os casos os projetos são Innovation Actions com financiamento maioritário, exigência de demonstradores industriais de primeira instalação ou de otimização de soluções recém-instaladas e horizonte de chegada ao mercado anterior a 2030.

O Work Programme 2026-2027 foi publicado a 12 de dezembro de 2025 e a abertura do aviso é prevista para o final de 2026, com deadline indicativo em meados de setembro de 2027. A dotação específica por tópico é confirmada no aviso formal. O page limit é excecionalmente alargado para 60 páginas em parte B, refletindo o nível de detalhe exigido em business plan e market-readiness strategy.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

O call cruza três necessidades em condição rara para um instrumento europeu de I&D e o seu valor competitivo vem precisamente desse cruzamento. Quem só traz uma das três dimensões fica abaixo do limiar.

  • I&D e ciência: a base de financiamento é Horizonte Europa, com expectativa de chegar a TRL 7 ou 8 ao fim do projeto. Os consórcios têm de demonstrar inovação técnica face ao estado da arte (captura de CO2, eletrificação, integração de hidrogénio, energias limpas, circularidade), com indicadores quantitativos como a redução de 30% no input energético da captura ou de 30% na intensidade material e energética dos processos industriais até 2035.
  • Sustentabilidade, energia e clima: as três áreas tecnológicas elegíveis (gestão do ciclo do carbono via CCU e CCUS, uso de energia limpa em produção, circularidade e eficiência de recursos) são todas variantes de descarbonização industrial. As propostas devem articular-se com as parcerias Processes4Planet e Clean Steel e com instrumentos de deployment como o Innovation Fund.
  • Investimento produtivo: diferenciador face a outros tópicos do Horizonte Europa, o call exige business plan e market-readiness strategy com identificação do parceiro industrial que liderará o deployment, plano de obtenção de licenças para a fase de demonstração e um go/no-go formal antes da contratação. É um híbrido entre I&D e investimento em capacidade industrial demonstrada.
Âmbito Técnico

As três áreas tecnológicas elegíveis

No tópico CID-2027-01-01 cada proposta deve selecionar uma das três áreas como principal, podendo integrar contributos das outras duas se a integração for explicada e justificada. A regra de avaliação garante que pelo menos uma proposta por área é financiada se atingir todos os limiares, oferecendo previsibilidade estratégica raramente vista em calls competitivos.

  • Gestão do ciclo do carbono (CCU e CCUS): otimização e demonstração de soluções de captura, utilização ou armazenamento de CO2 e CO em instalações de indústrias eletrointensivas. A meta de referência é uma redução de 30% no input energético da captura, para uma dada taxa e pureza, em comparação com o estado da arte. As propostas devem ainda apresentar análise do potencial de comercialização dos produtos descarbonizados em termos de ciclo de vida, dimensão de mercado e custo.
  • Uso de energia limpa em produção: eletrificação de processos, produção descarbonizada, integração de hidrogénio e outras energias limpas, armazenamento on-site, uso e upgrade de calor residual. Horizonte 2035 para melhorias significativas na utilização de energia limpa em indústrias eletrointensivas, com integração explicada na arquitetura energética da instalação demonstradora.
  • Circularidade e eficiência de recursos: melhoria de 30% até 2035 face ao valor industrial atual em material, energia e água, com soluções tecnológicas comercialmente viáveis. Redução significativa do consumo de matérias-primas, energia, captação de água doce, impactos em ecossistemas e emissões. Redes de valor circulares que convertem fluxos laterais industriais ou resíduos em nova matéria-prima para aplicações onde tecnologias de baixo carbono ainda não existem.
Implementação de parcerias europeias
O tópico CID-2027-01-01 implementa as parcerias co-programadas Processes4Planet e Clean Steel. Significa que os projetos financiados têm de reportar KPIs a estas parcerias, articular-se com a sua agenda estratégica e procurar sinergias com projetos paralelos sob os tópicos CID-2026-01-02 e CID-2027-01-02. Não é mera ligação formal, as parcerias têm comités técnicos que avaliam coerência e podem influenciar a leitura do critério Impact.
Estrutura do Financiamento

Modelo de subvenção e parâmetros

Os projetos são Innovation Actions ao abrigo do regime padrão de custos efetivos do Horizonte Europa, com taxa de cofinanciamento de 70% para entidades com fins lucrativos e 100% para entidades sem fins lucrativos. A dotação específica é confirmada no aviso e a regra de portfolio garante cobertura das três áreas tecnológicas, com bom posicionamento previsível para consórcios bem alinhados.

ParâmetroValor
ProgramaHorizonte Europa, Pilar II, Cluster 4 (Digital, Indústria e Espaço)
CallHORIZON-CID-2027-01
TópicosCID-2027-01-01 (descarbonização EII), CID-2027-01-02 (tecnologias limpas)
Tipo de açãoInnovation Action (IA)
TRL final7 a 8 (CID-2027-01-01)
Taxa de cofinanciamento70% empresas, 100% entidades sem fins lucrativos
Page limit60 páginas (excecional, padrão é 45)
Parcerias implementadasProcesses4Planet, Clean Steel
Publicação WP12 de dezembro de 2025
Deadline indicativo15 de setembro de 2027
Elegibilidade e Consórcio

Quem pode candidatar-se

As regras gerais de elegibilidade seguem o regime padrão do Horizonte Europa, com participação aberta a pessoas coletivas de Estados-Membros e Países Associados e consórcio mínimo de três entidades de três países diferentes. A particularidade do call é a exigência explícita de liderança industrial e a recomendação de consórcio reduzido e gerível, com participação ativa de PME encorajada.

Composição típica de consórcio competitivo
Indústria eletrointensiva âncora (siderurgia, cimento, química, vidro, papel) com instalação real onde o demonstrador é instalado. Centro de I&D ou universidade com competências em engenharia de processo, captura de carbono, eletrificação industrial, integração energética ou economia circular. Engineering and procurement company com track record em scale-up industrial. PME tecnológica com solução específica em sensores, software de otimização, materiais avançados ou componentes de captura. Parceiro de avaliação de ciclo de vida e análise técno-económica. Parceiro de business development com experiência em Innovation Fund e financiamento de deployment.
Posicionamento Português

Oportunidade para a indústria portuguesa

Portugal tem uma base industrial intensiva em energia que pode integrar consórcios deste call com vantagem específica. A siderurgia da Megasa e da Siderurgia Nacional, a indústria do cimento da SECIL e da Cimpor, a indústria do vidro (BA Glass, Vidrala), o cluster da pasta e papel (Navigator, Altri) e a indústria cerâmica (Vista Alegre, Aleluia, Margres) operam todos em mercados onde a descarbonização é existencial. Várias destas empresas integram já parcerias europeias com universidades portuguesas em projetos de captura, eletrificação ou simbiose industrial.

No lado da investigação, LAETA, IST, Universidade de Aveiro, Universidade de Coimbra, INESC TEC, MARETEC, LIP e centros de interface CTCV, CITEVE e CENTI têm produção em engenharia de processo, materiais cerâmicos, química industrial e bioeconomia que se mapeia em várias dimensões elegíveis. No tecido empresarial mais maduro em tecnologia, empresas como Bondalti, dst, Mota-Engil e Efacec têm peso para liderar componentes específicos de demonstradores.

A oportunidade específica reside em três tipos de proposta. Primeiro, demonstradores em setores onde Portugal tem indústria âncora real (cimento, vidro, papel, siderurgia, cerâmica) e onde a localização do demonstrador pode ser legitimamente defendida em Portugal. Segundo, integração de hidrogénio renovável produzido em regiões portuguesas (Sines, Figueira da Foz, Aveiro) com indústrias eletrointensivas próximas, capitalizando a estratégia nacional de hidrogénio. Terceiro, soluções de circularidade industrial em fluxos onde Portugal tem massa crítica (subprodutos da floresta, lamas e fluxos da indústria do papel, escórias siderúrgicas, resíduos da indústria cerâmica).

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Innovation Actions de demonstração industrial estão entre as candidaturas mais exigentes do Horizonte Europa. Avaliadores procuram coerência total entre proposta científica, plano industrial e business case. Quatro elementos costumam fazer a diferença entre propostas vencedoras e propostas tecnicamente sólidas mas mal pontuadas em impact.

Primeiro, o parceiro industrial que liderará o deployment não pode ser um nome de capa. Tem de ser uma empresa com instalação real onde o demonstrador é instalado, com decision maker que dedica tempo à proposta e com pacote de cofinanciamento próprio para a fase pós-projeto. Avaliadores percebem rapidamente se a empresa industrial está só a emprestar logos ou se está realmente comprometida.

Segundo, o business plan tem de ser quantitativo e plausível. CAPEX e OPEX da solução em escala industrial, custo evitado de CO2, tempo de retorno do investimento, mercado endereçável, comparação com soluções concorrentes. Não basta dizer que o produto é melhor, é preciso dizer quanto custa e quanto vale. O page limit alargado para 60 páginas existe para acomodar este detalhe.

Terceiro, o go/no-go formal antes da fase de demonstração não é detalhe administrativo, é elemento estratégico. As propostas vencedoras planeiam os primeiros 12 a 18 meses como fase de engenharia detalhada, techno-economic assessment, obtenção de licenças e finalização do business plan, com critérios objetivos de passagem ao demonstrador. Mostra maturidade de gestão de projeto e reduz o risco percebido pelo avaliador.

Quarto, a articulação com Processes4Planet e Clean Steel tem de ser real, não declarativa. Os comités técnicos destas parcerias avaliam coerência e contribuição. As propostas mais fortes têm parceiros que já participam em projetos paralelos das parcerias, ou explicam concretamente que sinergias procuram e como vão reportar KPIs comuns. Para indústrias eletrointensivas, centros de I&D, empresas de engenharia e PME tecnológicas portuguesas interessadas em explorar este call, sugerimos uma conversa preliminar focada em três pontos: identificação do parceiro industrial âncora e da localização do demonstrador, mapeamento da posição face a Processes4Planet, Clean Steel e Innovation Fund e desenho do plano de licenças e do business case com o nível de detalhe exigido.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]