A infraestrutura invisivel da transição energética europeia
A expansão das energias renovaveis em larga escala exige redes de transmissao de alta capacidade que nao existem ainda no formato adequado. As redes HVDC (High Voltage Direct Current) sao a tecnologia central para interligar parques eolicos offshore, hidroeletrica nos Pireneus, solar no Sul da Europa e centros de consumo no Norte, com perdas minimas e controlo flexivel de fluxo de energia.
O topico HORIZON-CL5-2026-03-D3-19 financia o desenvolvimento de equipamentos primarios para redes HVDC multiterminal, com foco em tres dimensoes criticas: acessibilidade economica, interoperabilidade entre fabricantes e sustentabilidade ambiental atraves da eliminacao do gas SF6 dos equipamentos de alta tensao. A dotacao de €24 milhoes, como Innovation Action (IA), visa levar estas solucoes a demonstracao em ambiente real ou quase-real.
Que equipamentos e que problemas este topico aborda
As propostas devem focar-se no desenvolvimento de equipamentos primarios adequados para redes HVDC multiterminal. O Work Programme identifica os seguintes tipos de equipamento e desafios associados:
| Equipamento | Desafio principal | Objetivo de inovação |
|---|---|---|
| Disjuntores mecanicos e hibridos | Interrupcao rapida de falhas em DC, sem os mecanismos AC convencionais | Reduzir tamanho, custo e tempo de comutacao |
| Limitadores de corrente de falha (FCL) | Picos de corrente em redes multiterminal com multiplos pontos de injecao | Proteção coordenada e rapida sem perda de estabilidade |
| Cabos supercondutores e convencionais | Perdas de transmissao, espaco e peso em instalações offshore e subterraneas | Aumentar densidade de potencia e reduzir impacto ambiental |
| Isolamento sem SF6 | SF6 e um gas de efeito estufa com GWP de 23 900 vezes o CO2 | Alternativas funcionalmente equivalentes em alta tensao |
Alem do equipamento em si, as propostas devem abordar interoperabilidade entre equipamentos de diferentes fabricantes, resiliencia da cadeia de valor (redução de dependencias de materiais criticos) e impacto ambiental ao longo do ciclo de vida.
O que a Comissão quer ver demonstrado
As propostas selecionadas devem contribuir para tres resultados concretos no ecossistema europeu de infraestruturas energeticas:
- Acessibilidade e interoperabilidade: equipamentos HVDC com custo mais reduzido e capacidade de integrar redes construidas por diferentes fabricantes, sem dependencia de protocolos proprietarios.
- Fiabilidade e estabilidade: sistemas de proteção e controlo avancados que garantam operação estavel em topologias multiterminal, incluindo resposta rapida a falhas sem perturbacao do restante da rede.
- Sustentabilidade ambiental: eliminacao progressiva do SF6 dos equipamentos de alta tensao, substituido por alternativas com impacto climático significativamente menor e desempenho técnico equivalente.
Quem pode participar e em que condições financeiras
O topico D3-19 e uma Innovation Action (IA), ao contrario do D3-21 que era uma Research and Innovation Action (RIA). A distincao e relevante do ponto de vista financeiro: em ações de inovação, as entidades lucrativas (empresas) financiam ate 70% dos seus custos elegiveis pelo Horizonte Europa, enquanto entidades sem fins lucrativos, universidades e organismos de investigação podem receber ate 100%. A diferenca reflete o carater mais proximo do mercado das IA relativamente as RIA.
A composicao dos consorcios deve seguir os requisitos do Annex B do Work Programme. Entidades de todos os Estados-Membros e paises associados ao Horizonte Europa sao elegiveis, incluindo Portugal. Empresas industriais no espaco de equipamentos eletricos de alta tensao, fabricantes de cabos e centros tecnologicos com experiencia em sistemas de energia sao os perfis tipicos de participante.
O que recomendamos
Portugal tem capacidade instalada relevante no espaco de equipamentos eletricos e cabos, com empresas como a Cabelte, a Efacec e outras PME do setor eletrotecnico. O HVDC tem sido um segmento dominado por tres grandes players globais (ABB/Hitachi, Siemens Energy, GE Vernova), mas a agenda da UE de soberania tecnologica e a necessidade de reduzir o SF6 criam oportunidades reais para alternativas europeias, incluindo de escala media.
Para empresas portuguesas com experiencia em equipamentos de media e alta tensao, o caminho mais realista passa pela participacao num consorcio liderado por um parceiro com liderança tecnologica em HVDC, contribuindo com capacidade de industrializacao, testes ou integração de sistemas. A candidatura individual a este tipo de topico, sem parceiros de referencia no espaco HVDC europeu, tem probabilidade de sucesso reduzida.
O valor estratégico deste topico vai alem do financiamento imediato: as redes HVDC multiterminal serao a espinha dorsal do mercado eletrico europeu nas proximas duas decadas. Participar agora na investigação que define os standards futuros e um posicionamento de longo prazo.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]