O que é o NMDH 2026
A New Models to Deliver Healthcare (NMDH) 2026 é uma chamada da EIT Health, gerida ao abrigo do programa Horizonte Europa via European Institute of Innovation and Technology, com o código HORIZON-EIT-2025-KIC-IBA-H. O instrumento financia projetos colaborativos para escalar inovações de saúde já maduras (dispositivos médicos digitais e in vitro com marcação CE, no Innovation Maturity Level 8 a 9) em sistemas de saúde reais, sob modelos de value-based healthcare.
Trata-se de um instrumento orientado para o último quilómetro da inovação em saúde: tecnologia validada, regulamentarmente aprovada, mas que ainda não está integrada nos protocolos clínicos, nos contratos com pagadores ou nos sistemas hospitalares. A NMDH cobre exatamente essa transição.
Quanto vale e como se calcula
A EIT Health financia até 50% do orçamento total do projeto, com um teto absoluto de 700.000 EUR de grant por projeto. O restante é assegurado pelas empresas participantes, em particular pela commercialising entity. A estrutura é deliberadamente desenhada para garantir compromisso financeiro do industrial e alinhamento de incentivos com o pagador.
Existe uma regra adicional para micro e pequenas empresas que assumam o papel de commercialising entity: têm de receber entre 400.000 e 500.000 EUR do grant total e assinar um Financial Sustainability Contribution Agreement com a EIT Health. Esta regra existe para dar peso financeiro ao industrial e blindar o projeto contra cenários em que o produto fique encalhado por falta de tração comercial pós-financiamento.
Quem precisa de estar dentro
A EIT Health define cinco papéis distintos que têm de estar representados no consórcio. Esta arquitetura é o sinal mais claro do que a chamada quer financiar: implementação real, não pilotos académicos.
- Commercialising entity: empresa detentora do dispositivo médico digital ou IVD com marcação CE, em IML 8 a 9. É o motor industrial do projeto.
- Healthcare provider: hospital, ULS, sistema de saúde ou rede clínica que vai integrar e testar a solução em ambiente operacional.
- Health economics partner: parceiro com competência em avaliação de tecnologias de saúde (HTA), modelação de impacto económico e construção do business case do pagador.
- IT integration partner: responsável pela integração técnica em sistemas hospitalares (HIS, EMR, PACS) e fluxos de dados clínicos.
- Payor: entidade que paga pelos cuidados de saúde (no caso português, ARS, ULS, SNS na perspetiva contratual, ou seguradora privada). Pode entrar formalmente como advisor, mas a sua participação é obrigatória.
Mínimo de duas organizações de países diferentes e parceiros de pelo menos dois setores entre indústria, investigação e ensino. Na prática, consórcios competitivos têm 4 a 6 entidades de 3 a 5 países.
O que significa IML 8-9
A EIT Health usa o seu próprio Healthcare Innovation Cycle Framework, com escala Innovation Maturity Level (IML) de 1 a 9. O NMDH só financia o topo da escala.
- IML 8: solução validada em ambiente operacional limitado, com primeiros clientes pagantes ou contratos piloto fechados, marcação CE concluída para classes de risco aplicáveis.
- IML 9: solução pronta para deployment em escala, com track record de implementação em pelo menos um sistema de saúde, evidência clínica e económica publicada.
Soluções em fase pré-CE, em prototipagem ou em ensaios clínicos não são elegíveis para o NMDH. Para essas, a via apropriada são outras chamadas EIT Health (por exemplo, programas de aceleração) ou linhas Horizonte Europa Cluster 1 mais a montante.
Atividades elegíveis típicas
A documentação detalhada está no manual da chamada na plataforma EIT Health. Em termos gerais, o grant cobre as atividades necessárias para integrar a solução nos sistemas de saúde participantes e para construir o business case do pagador.
- Adaptação técnica e integração nos sistemas hospitalares (HIS, EMR, PACS, plataformas de telemedicina).
- Implementação clínica em sites parceiros, com formação de profissionais e protocolos de utilização.
- Recolha de evidência clínica e económica em condições reais de utilização.
- Modelação de health economic outcomes (custo-efetividade, ROI para o pagador, impacto orçamental).
- Negociação de modelos de pagamento value-based com pagadores (capitação, pay-for-performance, risk-sharing).
- Construção de roadmap de scale-up para outros sistemas de saúde europeus.
Datas-chave
| Data | Evento |
|---|---|
| 25 fev 2026 | Abertura da chamada |
| 17 mar 2026 | 1.ª sessão informativa |
| 7 abr 2026 | 2.ª sessão informativa |
| 21 abr 2026 | 3.ª sessão informativa |
| 6 mai 2026, 16:00 CEST | Prazo final de submissão |
Quando faz sentido candidatar-se
O NMDH 2026 é particularmente adequado para três perfis de empresa portuguesa.
- Empresas medtech ou digital health com produto certificado e primeiros clientes em Portugal, mas sem capacidade autónoma de scale-up internacional.
- Spin-offs hospitalares com soluções desenvolvidas em parceria com ULS ou hospitais centrais, que precisam de validação multi-país para abrir mercado.
- PME industriais com IVD ou software como dispositivo médico (SaMD) que precisam de evidência económica robusta para entrar em sistemas de pagador conservadores.
Empresas que ainda estejam em fase de regulatório (sem CE) ou em fase de prova de conceito clínica não devem candidatar-se a este instrumento. A taxa de rejeição por inadequação de IML é elevada.
O que recomendamos
O NMDH é um dos poucos instrumentos europeus que financia explicitamente a fase mais difícil da inovação em saúde: a passagem de produto aprovado a produto reembolsado. Para empresas portuguesas, três pontos merecem atenção.
Primeiro, o requisito de payor obriga a um trabalho de relações institucionais que muitas PME subestimam. Em Portugal, o pagador pode ser a ULS contratante, a ARS regional ou um co-pagador privado. Esta articulação tem de estar formalizada no consórcio antes da submissão, não apenas referida em letter of intent.
Segundo, o cap de 700.000 EUR e o cofinanciamento de 50% obrigam a empresa a ter capacidade de cash-flow para suportar 24 meses de implementação. Empresas em early-stage de comercialização devem fazer projeção realista do esforço financeiro próprio antes de avançar com a candidatura.
Terceiro, o critério de health economics é onde mais propostas tropeçam. Não basta ter um produto bom. É preciso demonstrar que ele reduz custos, evita admissões hospitalares, melhora o gasto por episódio ou produz outcomes mensuráveis num horizonte que o pagador consegue contabilizar. Empresas sem health economist no consórcio, ou sem dados económicos prévios sobre o produto, têm baixa probabilidade de aprovação.
A janela é curta. Para quem ainda não tem consórcio identificado, o realista é começar por mapear o partner finder da EIT Health e por contactar healthcare providers em mercados-alvo concretos.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]