A aposta europeia na descarbonização da aviacao regional
O Clean Aviation Joint Undertaking (JU) e uma parceria público-privada do Horizonte Europa criada para acelerar a descarbonização do setor aeronautico europeu. Com uma dotacao total de 329,5 milhoes de euros distribuida por 18 temáticas, a call HORIZON-JU-CLEANAV-2026-04 concentra-se na aeronave regional hibrida eletrica (HERA - Hybrid Electric Regional Aircraft), um dos programas tecnologicos mais ambiciosos da Europa neste setor.
O contexto e claro: a ATR lidera dois dos 12 projetos ja financiados e tem como objetivo voar uma aeronave regional hibrido-eletrica ate ao final desta decada. Os testes de voo de um demonstrador baseado no ATR 72 estao previstos com configuracao congelada ate ao final de 2026, para suportar o inicio de ensaios de voo ate 2029. A nova call insere-se nesta trajetoria, financiando as pecas do puzzle que ainda faltam.
Quem pode participar e em que condições
A call e aberta a um espectro largo de organizações: grandes empresas com mais de 250 colaboradores, centros de investigação e universidades e PME e startups com menos de 249 colaboradores. Os setores cobertos incluem aeronautica e espaco, indústria e negocios, investigação e inovação e tecnologia e digital.
As propostas devem demonstrar alinhamento com a SRIA da Clean Aviation e contribuicao concreta para os objetivos de descarbonização da aviacao europeia. O programa financia tanto projetos de demonstracao tecnologica como projetos de coordenacao e apoio (CSA), com dotacoes individuais por temática que variam entre 0,5 milhoes de euros (CSA-01) e 60 milhoes de euros (SMR-03).
As quatro areas de foco tecnologico do CLEANAV-2026-04
O topico especifico HORIZON-JU-CLEANAV-2026-04 cobre quatro dominios tecnologicos diretamente relacionados com a proxima geracao de aeronaves regionais ultra-eficientes. Cada dominio tem caracteristicas proprias em termos de maturidade tecnologica e impacto esperado.
- Propulsao hibrida eletrica: sistemas de propulsao que combinam motores de combustao convencional com motores eletricos, reduzindo o consumo de combustivel e as emissoes durante fases criticas do voo como subida e aterragem
- Aeronaves de alta eficiencia: conceitos de aeronave ultra-eficiente com aerodinamica otimizada, materiais avancados e sistemas de controlo de voo de nova geracao
- Conceitos de propulsao a hidrogenio: investigação e desenvolvimento de sistemas de propulsao alimentados por celulas de combustivel ou combustao direta de hidrogenio em aplicacoes aeronauticas regionais
- Sistemas de proteção contra gelo: tecnologias inovadoras de anti-icing e de-icing mais eficientes energeticamente, criticas para operação em condições meteorologicas adversas
O papel de Portugal no ecossistema aeronautico europeu
Portugal tem uma presenca relevante na cadeia de valor da indústria aeronautica europeia, com empresas como a OGMA (Indústria Aeronautica de Portugal), a Embraer Portugal e um conjunto de PME especializadas em componentes, manutencao e sistemas avionicos. A participacao em projetos Clean Aviation pode ser um catalisador para o posicionamento destas empresas nos programas de proxima geracao.
A chave esta na formacao de consorcios competitivos. Portugal raramente lidera projetos desta escala como coordenador, mas tem capacidade real de participar como parceiro técnico especializado, especialmente em areas de manutencao, materiais compostos e sistemas de teste e validacao. As universidades e centros de investigação nacionais com histórico em aeronautica (IST, UBI, INEGI) sao tambem candidatos naturais a integração em consorcios europeus.
O que recomendamos
A call CLEANAV-2026-04 e de alto impacto mas elevada exigencia. A dotacao e muito significativa, as taxas de financiamento sao generosas e o alinhamento com a agenda climática europeia e total. No entanto, competir neste espaco requer parceiros industriais de primeira linha ja estabelecidos no ecossistema Clean Aviation.
Para organizações portuguesas do setor aeronautico ou de tecnologias de propulsao, a estrategia mais realista e identificar consorcios europeus ja formados que procuram competencias especificas e posicionar a empresa como parceiro técnico com valor diferenciado. A participacao como subcontratado qualificado pode ser um primeiro passo para construir historial elegivel para futuras candidaturas com papel de liderança.
O prazo de 19 de maio deixa menos de um mes para consolidar propostas. Organizações sem consorcio ja identificado devem avaliar se existe viabilidade real para esta edicao ou se e mais estratégico focar na proxima chamada, investindo o tempo disponivel na construcao de relacoes com lideres de consorcios relevantes.
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