O que é

Uma rede elétrica em corrente contínua dentro do edifício

Quase todos os equipamentos modernos funcionam em corrente contínua (DC): painéis fotovoltaicos, baterias fixas e de veículos elétricos, iluminação LED, equipamento informático, bombas de calor. A rede pública, porém, distribui corrente alternada (AC). O resultado é uma cascata de conversões AC/DC e DC/AC em cada aparelho, e cada conversão desperdiça energia. À medida que a eletrificação avança, essas perdas crescem.

O tópico HORIZON-MISS-2027-04-CIT-01 financia a demonstração de microredes de corrente contínua de baixa tensão (LVDC, Low Voltage Direct Current) que ligam diretamente em DC os aparelhos de um edifício ou de um bairro. A microrede liga-se à rede AC da cidade através de um único conversor central, com uma potência de ligação muito inferior à de uma instalação tradicional. Isto reduz a pressão sobre a rede urbana, melhora a eficiência energética e dos materiais, otimiza o autoconsumo de renováveis locais e permite operação em ilha, ou seja, continuar a funcionar quando a rede pública falha.

O instrumento integra a Missão da UE para Cidades Inteligentes e com Impacto Neutro no Clima, que pretende ter 100 cidades climaticamente neutras até 2030 e transformá-las em laboratórios de inovação para que as restantes cidades europeias sigam o mesmo caminho até 2050. A ação é do tipo Innovation Action, com a exigência de atingir um nível de maturidade tecnológica (TRL) entre 7 e 8 até ao fim do projeto, isto é, demonstração em ambiente real e quase pronta para o mercado.

Em síntese
A Comissão espera financiar 3 projetos com 7 milhões de euros cada, num total de 20 milhões para 2027. Cada projeto tem de demonstrar uma microrede LVDC real e validar virtualmente, com recurso a gémeos digitais, pelo menos mais duas implementações noutros tipos de edifício e cidade. O total de demonstrações reais e virtuais não pode ser inferior a três.
Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Este tópico cruza duas necessidades empresariais e institucionais. É um instrumento de transição energética com forte componente de demonstração tecnológica, dirigido a quem desenvolve soluções de eletrificação e às autoridades urbanas que as querem testar em contexto real.

  • Sustentabilidade, energia e clima: a microrede LVDC reduz perdas de conversão, aumenta o autoconsumo de solar fotovoltaico, viabiliza partilha de ativos energéticos em comunidades de energia e contribui para a estabilidade da rede através de resposta à procura e serviços de sistema. É um vetor concreto de descarbonização do edificado urbano.
  • I&D e ciência: o financiamento cobre o desenvolvimento de métodos e ferramentas de conceção de microredes LVDC seguras, com monitorização e gestão de defeitos em DC a custo acessível, avaliação de custo-benefício de ciclo de vida e contribuição para a normalização CEN-CENELEC e IEC. É investigação aplicada que termina em demonstração física, não em protótipo de laboratório.
Quem pode aceder

Consórcio liderado por cidades, com regra específica de elegibilidade

Para além das condições gerais do Horizonte Europa, este tópico impõe um critério de elegibilidade próprio que define quem tem de estar à mesa. Pelo menos três cidades, representadas por uma autoridade local ou por uma entidade com consentimento explícito dessa autoridade, cada uma de um Estado-Membro ou país associado diferente, têm de participar como beneficiárias. Pelo menos uma dessas três cidades tem de pertencer ao grupo de 112 cidades selecionadas para a Missão Cidades Climaticamente Neutras e Inteligentes.

Na prática, o consórcio típico junta autoridades municipais, fabricantes e integradores de soluções de eletrónica de potência e armazenamento, operadores de distribuição de energia, universidades e centros de investigação, e ainda especialistas em ciências sociais e humanas, cuja participação é obrigatória para reforçar a relevância societal das atividades de sensibilização, formação e aceitação pública.

Para empresas portuguesas, sobretudo as que trabalham em eletrónica de potência, gestão inteligente de energia, software de controlo de rede e armazenamento, a via natural de entrada é integrar um consórcio europeu como parceiro tecnológico ou de demonstração. Um município português que faça parte da Missão Cidades pode também ancorar uma candidatura como cidade demonstradora.

Atenção ao requisito das cidades
Sem três cidades de três países diferentes, e sem pelo menos uma cidade da Missão, a candidatura é inadmissível à partida. Este é o filtro que mais elimina propostas tecnicamente sólidas mas mal compostas. A montagem do consórcio deve começar pela geografia das cidades, não pela tecnologia.
Quanto vale

Subvenção em montante fixo, sem cofinanciamento próprio típico

O financiamento assume a forma de montante fixo (lump sum). Em vez de reembolsar custos reais com a habitual prestação de contas detalhada, a Comissão paga um valor predefinido por etapas concluídas, o que reduz substancialmente a carga administrativa de execução e auditoria. Para as Innovation Actions, a taxa de financiamento é de 70% dos custos elegíveis para entidades com fins lucrativos e de 100% para entidades sem fins lucrativos.

€20M
Dotação total 2027
€7M
Por projeto
3
Projetos esperados

O calendário é o de uma candidatura de fase única: abertura prevista a 9 de fevereiro de 2027 e prazo de submissão a 7 de outubro de 2027. Quem pretenda concorrer tem, portanto, todo o ano de 2026 e o início de 2027 para constituir o consórcio, alinhar as cidades demonstradoras e desenhar o plano de trabalho.

O que o projeto tem de entregar

Da demonstração real à normalização

O âmbito do tópico é exigente e cobre toda a cadeia, da engenharia à política pública. As propostas têm de abordar o conjunto dos seguintes aspetos.

  • Conceção segura e a custo acessível: métodos e ferramentas de desenho de microredes LVDC com monitorização, controlo e tratamento seguro de defeitos em corrente contínua, e avaliação de custos e benefícios de ciclo de vida face a uma instalação AC tradicional, incluindo o impacto sobre a rede de distribuição e sobre a fatura dos consumidores vulneráveis.
  • Demonstração real: instalação de uma microrede LVDC que ligue todos os equipamentos elétricos de pelo menos um edifício residencial, de escritórios ou comercial, ou de um bairro, com revisão prévia do quadro regulatório local que comprove a viabilidade da implementação, eventualmente através de relaxamento regulatório ou de um sandbox de inovação.
  • Validação virtual com gémeos digitais: simulação numérica da instalação noutros tipos de edifício, incluindo pelo menos um edifício em renovação e, se possível, uma área urbana vulnerável, em cidades e países diferentes, para aferir a viabilidade regulatória e o custo-benefício nesses contextos.
  • Barreiras regulatórias e normalização: identificação de obstáculos a nível europeu, nacional e dos operadores de distribuição, propostas para os resolver, e contribuição ativa para a normalização junto da CEN-CENELEC e da IEC.
  • Sensibilização e formação: materiais de educação dirigidos a autoridades públicas, ao público geral, a estudantes e a urbanistas, projetistas e instaladores, desenvolvidos com a academia e os parceiros de investigação locais.

As propostas devem ainda apoiar-se em projetos anteriores do Horizonte Europa, nomeadamente o Shift2DC, bem como o HYPERRIDE, o TIGON, o HYNET e o THEUS. A colaboração com a Plataforma da Missão Cidades é obrigatória e tem de ser formalizada por um memorando de entendimento celebrado logo após o arranque do projeto.

Contexto

Porque é que a Europa aposta na corrente contínua

A aposta tem racional de política industrial. A Estratégia Solar da UE reconhece que o aumento das tecnologias DC pode beneficiar o sistema elétrico, precisamente porque a energia solar é produzida em corrente contínua e a dupla conversão para AC e de volta para DC, por exemplo para armazenar em bateria, gera perdas evitáveis. O Plano SET tem um plano de implementação dedicado às soluções LVDC. Ao financiar demonstrações reais e ao alimentar o processo de normalização, a Comissão procura criar opções regulatórias e padrões que sustentem a liderança industrial europeia no fornecimento de soluções LVDC, em linha com a Bússola da Competitividade.

Para o tecido empresarial português, o sinal é claro. A eletrónica de potência, o armazenamento e a gestão inteligente de energia são áreas onde existe competência nacional, em empresas e em centros de interface tecnológico. Participar nestas demonstrações cedo significa estar presente quando as normas forem escritas, o que é uma vantagem competitiva difícil de recuperar mais tarde.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este é um tópico para quem já tem tecnologia madura e um caso de demonstração concreto, não para validar uma ideia em estágio inicial. A exigência de TRL 7-8 e de instalação real num edifício ou bairro deixa pouco espaço a quem ainda esteja em laboratório. Quem reconhecer aqui o seu projeto deve concentrar o esforço inicial em três frentes: assegurar a composição mínima de três cidades de três países, com pelo menos uma cidade da Missão; mapear o quadro regulatório local de cada cidade demonstradora, porque a viabilidade regulatória tem de estar demonstrada na proposta, não prometida; e desenhar desde já a estratégia de gémeos digitais para as demonstrações virtuais.

O formato de montante fixo é uma vantagem subestimada. Reduz a fricção administrativa durante a execução, mas obriga a um plano de trabalho muito bem definido por etapas mensuráveis, porque o pagamento depende da conclusão dessas etapas e não dos custos efetivamente incorridos. Um plano de trabalho vago é um risco financeiro direto. Para empresas portuguesas, a recomendação prática é procurar consórcios já em formação em torno das cidades da Missão e posicionar-se como parceiro tecnológico ou de demonstração, em vez de tentar liderar uma candidatura de raiz num prazo apertado.

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