Existe um paradoxo permanente no ecossistema empresarial português que merece ser nomeado sem eufemismos: o dinheiro europeu está disponível, em quantidades históricas, e a esmagadora maioria das empresas elegíveis nunca o acede. Não por falta de informação: os avisos são públicos, as condições estão nos sites das entidades gestoras, os consultores abundam. O problema está noutro sítio.
Está na execução.
O paradoxo dos fundos
O Portugal 2030 disponibiliza mais de 23 mil milhões de euros até ao final desta década. O PRR acrescentou mais camadas. Há instrumentos de garantia mútua, linhas de crédito bonificado, incentivos fiscais automáticos: um catálogo extenso de apoio ao investimento que, por direito, deveria estar ao alcance de qualquer empresa com um projeto sólido.
A realidade que observamos no dia a dia é diferente. Muitas PMEs portuguesas com projetos genuinamente bons: expansão de capacidade, internacionalização, digitalização séria: nunca chegam a submeter uma candidatura. Algumas porque nunca souberam que eram elegíveis. Outras porque tentaram, sentiram-se perdidas no processo, e desistiram. Outras ainda porque entregaram a tarefa a quem não estava à altura.
O que as empresas estão a fazer errado
Na Open Capital, vemos padrões que se repetem com uma regularidade que já deixou de surpreender. Não são erros de estupidez ou negligência: são erros de abordagem que refletem uma incompreensão fundamental sobre o que estes processos exigem.
O primeiro é tratar uma candidatura como uma tarefa administrativa. Preencher um formulário, juntar documentos, submeter. Quem trata assim raramente é aprovado: e quando é, por vezes não deveria ter sido, porque a ausência de rigor na candidatura é um sinal preocupante sobre a capacidade de gerir o projeto na fase de execução.
O segundo erro é terceirizar completamente a decisão e a narrativa. "O consultor trata de tudo" é uma frase que, na nossa experiência, antecede frequentemente uma candidatura problemática. Um consultor pode estruturar, traduzir para linguagem técnica e garantir conformidade documental: mas o diagnóstico do negócio, a estratégia de investimento e os indicadores de impacto têm de vir da própria empresa. Nenhum externo pode inventar isso com credibilidade.
O terceiro erro, mais subtil, é a pressa. As empresas chegam-nos com candidaturas que fecham em três semanas e projetos que nunca foram devidamente pensados. A pressão de prazo é real: os avisos têm datas de fecho. Mas uma candidatura mal preparada e submetida dentro do prazo é pior do que uma candidatura sólida que perdeu o aviso e apanha o próximo.
O quarto é a ausência de visão de longo prazo sobre a relação com o programa. Uma empresa que acede bem ao Portugal 2030: com um projeto bem estruturado, indicadores realistas, modelo financeiro sólido: está a construir um historial que facilita as candidaturas seguintes. A relação com os organismos gestores é cumulativa. Quem começa com má-fé técnica (não intencional, mas igualmente prejudicial) cria um historial que persiste.
O que falha no mercado de consultoria de candidaturas
Seria desonesto não mencionar que parte do problema está no próprio mercado de consultoria que existe à volta destes programas. É um mercado vasto, heterogéneo e com assimetrias de qualidade enormes. Abundam operadores que cobram pelo volume de candidaturas submetidas: sem grande discriminação sobre o mérito dos projetos ou a probabilidade real de aprovação.
O modelo de honorários de sucesso (só cobram se aprovado) parece alinhado com os interesses do cliente, mas cria outros problemas: incentiva a submissão de candidaturas questionáveis na esperança de que algumas passem, e penaliza o investimento no tempo necessário para preparar candidaturas verdadeiramente sólidas. Quando o consultor tem dezenas de processos simultâneos, o tempo de atenção por projeto é naturalmente limitado.
O que funciona é diferente. É tratar cada candidatura como um projeto de assessoria estratégica, com tempo dedicado ao diagnóstico da empresa, construção de modelo financeiro próprio, e envolvimento direto dos decisores da empresa na narrativa. É um processo mais demorado e mais exigente: mas os resultados são consistentemente diferentes.
A oportunidade é real: para quem a levar a sério
Há uma conclusão que emerge de tudo isto e que queremos deixar com clareza: a oportunidade representada pelos fundos europeus disponíveis para Portugal é genuína e significativa. Para uma PME com um projeto de crescimento real, estes instrumentos podem representar a diferença entre um investimento que acontece e um que fica em planos.
Mas não é dinheiro que cai de paraquedas. É capital que exige preparação, disciplina documental, pensamento estratégico e capacidade de execução: tanto na fase de candidatura como na de gestão pós-aprovação. Empresas que tratam este processo como tratam qualquer projeto sério: com rigor, tempo adequado e as competências certas: têm resultados muito diferentes das que não o fazem.
A barreira não é a burocracia. É a seriedade com que o processo é abordado.