A pergunta certa
Uma empresa industrial com quarenta e cinco pessoas passou os últimos três anos a fazer coisas que nunca chamou de investigação. Substituiu o material de um componente porque o fornecedor deixou de o produzir e a alternativa obrigou a alterar o ciclo de cura. Reformulou um acabamento para responder a um cliente que passou a exigir um ensaio de resistência que a peça anterior não passava. Construiu um utensílio próprio porque nenhum equipamento no mercado fazia aquela operação à velocidade necessária. Nada disto foi registado como projeto, ninguém contou horas e o assunto nunca chegou a uma ata.
Quando a inovação entra na agenda da direção, quase sempre por via de um apoio anunciado, de um cliente que passa a pedir certificação ou de um concorrente que lançou produto novo, a pergunta que se faz é a mais natural e a menos útil: precisamos de criar um departamento de I&D?
A resposta é quase sempre não, por razões que nada têm a ver com ambição. Um departamento é estrutura de custo fixo e precisa de fluxo contínuo de trabalho para se justificar. Numa empresa de quarenta pessoas esse fluxo não existe antes de existir carteira e a carteira não aparece antes de alguém ter tempo protegido para a construir. A ordem está invertida.
A pergunta que serve a decisão é outra: que parte do que a empresa já faz é desenvolvimento e o que falta para que essa parte deixe de depender de quem estiver com tempo naquela semana.
Três mecanismos explicam por que razão a resposta intuitiva falha.
O primeiro é tratar inovação como lugar. Nomear um responsável ou criar um núcleo resolve uma questão de organograma e não toca no problema real, que é de alocação. Em empresas onde as mesmas seis pessoas decidem tudo, um núcleo separado produz propostas que a operação não pediu, não recebe e não implementa. O trabalho morre na fronteira entre quem o pensou e quem tinha de o executar.
O segundo é confundir resolver problemas com acumular capacidade. Numa PME tudo o que é urgente acaba resolvido, porque há sempre alguém que fica mais duas horas e encontra a saída. O que distingue capacidade de heroísmo é o custo da segunda vez. Se o mesmo tipo de problema reaparecer noutro cliente dentro de um ano e voltar a consumir o mesmo número de horas, a empresa vendeu serviço sem ter aprendido nada.
O terceiro é a invisibilidade contabilística. Sem registo de horas nem de datas, no fim do exercício a empresa não consegue dizer quanto gastou a desenvolver, em quê, com quem. O prejuízo visível é o acesso a instrumentos que exigem atividade técnica documentada, do SIFIDE aos avisos de investigação e desenvolvimento. O prejuízo maior é interno: aquilo que não tem número não se defende em orçamento e é o primeiro a cair quando o trimestre aperta.
Os critérios
Cinco critérios ordenam a decisão. A ordem importa: os dois primeiros determinam se existe alguma coisa a estruturar e os três seguintes determinam o que se estrutura primeiro.
1. A origem do que muda
Antes de desenhar estrutura, convém saber de onde vem a mudança nesta empresa em concreto. O exercício é curto. Listar as cinco alterações técnicas relevantes dos últimos três anos (produto novo, processo alterado, material substituído, serviço reformulado) e identificar onde cada uma começou.
- Pedido de cliente. A mudança chega paga e com prazo. O risco não está nos recursos, está na fragmentação: cada solução serve um cliente e nenhuma se torna produto. O trabalho a fazer é de capitalização, transformar o que foi feito à medida em algo repetível, com documentação e custo conhecido.
- Restrição da operação. A mudança nasce numa avaria recorrente, num consumo excessivo, num tempo de preparação que limita a produção. Vive em produção, manutenção ou qualidade, com as pessoas que nunca têm horas livres. É o caso em que o tempo tem de ser retirado à operação, não acrescentado a ela.
- Tecnologia disponível. A mudança começa numa capacidade nova que apareceu no mercado e que a empresa poderia usar. É a origem mais rara em PME e a única em que uma parceria externa faz sentido desde o primeiro dia.
O sinal a ler não está na origem, está na continuidade. Cinco mudanças com cinco donos diferentes e nenhuma ligação entre elas descrevem uma empresa com atividade avulsa. Duas ou três conduzidas pelas mesmas pessoas, cada uma a aproveitar o que a anterior deixou, descrevem uma empresa que já acumula capacidade, sem departamento nenhum.
2. O tempo protegido, medido em frações
A restrição que obriga numa PME não é competência técnica, é atenção. Existe quase sempre quem saiba fazer. Não existe quem tenha horas que não estejam prometidas a um cliente com data.
Daí vem o erro mais comum, que é resolver o problema com uma contratação. Um perfil vindo de fora passa o primeiro ano a aprender o que o diretor técnico já sabe e não tem autoridade interna para fazer a produção alterar o que quer que seja. Quinze por cento do tempo de um sénior que conhece o processo e a quem a fábrica reconhece autoridade produz mais em doze meses do que uma pessoa a tempo inteiro sem essas duas coisas.
Proteger tempo tem uma condição que costuma ficar de fora: substituição. Reservar seis horas por semana de alguém significa que outra pessoa absorve essas horas ou que algo deixa de ser feito. Quando nenhuma das duas acontece, o tempo apenas se soma ao que já estava atribuído e regressa à operação na primeira semana difícil.
A medida recolhe-se sem sistema novo: horas por mês em trabalho sem cliente associado, nos últimos seis meses. A regularidade diz mais do que o total. Vinte horas todos os meses constroem alguma coisa. Cento e vinte horas concentradas num mês e zero nos cinco seguintes descrevem uma corrida a um prazo de candidatura.
3. O registo, antes de qualquer processo
De todas as mudanças possíveis, esta é a que custa menos e altera mais. Um registo mínimo é uma página por iniciativa, atualizada uma vez por mês, com seis campos: o problema técnico em linguagem concreta, o que já se sabia à partida, o que foi tentado, horas por pessoa, materiais e ensaios consumidos, resultado incluindo o que não funcionou.
Serve três funções que nada substitui. Aprendizagem, porque a segunda tentativa começa onde a primeira parou em vez de repetir ensaios que a empresa já pagou. Defesa interna, porque uma despesa com história documentada discute-se em orçamento e uma despesa sem história é apenas uma suspeita. Elegibilidade, porque os instrumentos fiscais e de financiamento avaliam atividade técnica com datas, horas e resultados. Nenhum deles aceita reconstituição feita em dezembro a partir da memória de quem esteve lá.
Há aqui um detalhe de sequência que custa dinheiro a quem o ignora. Nos apoios a fundo perdido, a candidatura tem de anteceder o início dos trabalhos. Uma empresa que não sabe em que data começou a desenvolver não consegue demonstrar essa anterioridade, mesmo quando ela existiu. Nos benefícios fiscais o problema é simétrico: o SIFIDE atua sobre despesa já realizada, mas exige que ela esteja identificada como tal e sustentada por registos de tempo. O trabalho existiu nos dois casos. Num deles é elegível.
4. A porta de saída
Numa empresa sem equipa dedicada, encerrar é a principal fonte de capacidade. Três iniciativas abertas ao mesmo tempo consomem todas as horas de quem as conduz e, sem regra de fecho, arrastam-se em segundo plano até impedirem que uma quarta comece.
Uma iniciativa bem enquadrada tem três coisas escritas antes de arrancar. A pergunta que a mata, que é o pressuposto técnico ou comercial que, sendo falso, encerra o assunto sem discussão. Um prazo até à próxima decisão, medido em semanas. Um custo máximo até lá, em horas e em euros, com ordens de grandeza pequenas: oito semanas, sessenta horas, três mil euros em ensaios.
O indicador mais revelador deste critério é o número de iniciativas encerradas deliberadamente nos últimos doze meses. Zero é sinal de que não existe porta e de que o portefólio cresce apenas por acumulação. O segundo indicador é quantas iniciativas estão abertas sem qualquer atividade há mais de noventa dias.
A porta precisa de data no calendário e de nome ao lado. Uma revisão trimestral de trinta minutos, com as três saídas definidas de antemão, continuar, encerrar ou passar a projeto com orçamento próprio, faz o trabalho que nenhum comité mensal chega a fazer.
5. A fronteira do que se faz fora
A ausência de departamento torna a decisão de fronteira mais frequente e mais determinante. Duas categorias ficam sempre dentro: a parte que toca no diferencial competitivo e a parte que a empresa precisa de conseguir alterar sozinha, sem pedir autorização nem orçamento a terceiros. O resto compra-se sem prejuízo nenhum: ensaios, caracterização de materiais, cálculo especializado, certificação, estado da arte genérico.
A rota das parcerias, com universidades, institutos e centros de interface, é o substituto natural do departamento que não existe. Funciona com uma condição: um recetor interno. Alguém com o tempo do segundo critério e o registo do terceiro para absorver o que sai do projeto. Sem esse recetor, o contrato de investigação termina num relatório que ninguém lê e a capacidade fica do lado do parceiro, que a levará para o cliente seguinte.
O teste é direto: depois do projeto, a empresa consegue alterar a solução sem telefonar ao fornecedor? Quando a resposta é não, a operação pode ter sido acertada, mas foi uma compra e não deve entrar na conta da capacidade acumulada.
| Via de acesso a capacidade técnica | Quando faz sentido | Onde fica a capacidade |
|---|---|---|
| Fração de tempo interna | Existe um sénior que conhece o processo e é possível substituí-lo nas horas reservadas | Dentro, na pessoa e no registo que ela mantém |
| Contratação de perfil híbrido | O volume de desenvolvimento já é contínuo e existe quem oriente tecnicamente quem entra | Dentro, com um ano de rampa até render |
| Contrato de investigação com entidade científica | O problema exige equipamento ou competência que não se justifica ter em casa | Fora por defeito. Dentro apenas com recetor interno e transferência escrita no contrato |
| Co-promoção com outra empresa | O desenvolvimento serve as duas partes e nenhuma o faria sozinha | Repartida. Exige acordo prévio sobre propriedade dos resultados |
O que medir
Nenhum destes indicadores exige um sistema novo. Todos se obtêm em duas semanas com o que a empresa já tem, mesmo quando não existe registo de tempos.
| Indicador | Como se obtém | Sinal de alerta |
|---|---|---|
| Horas mensais em trabalho sem cliente | Registo de tempos ou estimativa das próprias pessoas validada pela chefia, nos últimos seis meses | Menos de oito horas por mês, ou o total concentrado num único mês |
| Custo da segunda vez | Comparar horas gastas na primeira e na segunda execução do mesmo tipo de desenvolvimento | A segunda custa o mesmo que a primeira |
| Concentração do conhecimento | Para cada desenvolvimento recente, quantas pessoas o conseguiriam executar hoje | Uma só pessoa, sem nada escrito |
| Iniciativas encerradas em doze meses | Lista escrita de iniciativas com estado e data da última atividade | Nenhuma encerrada e várias paradas há mais de noventa dias |
| Origem das mudanças | As cinco últimas alterações técnicas relevantes e quem as iniciou | Todas vindas de pedido externo, nenhuma iniciada dentro de casa |
| Reconstituição documental | Tentar montar hoje o dossier técnico de um desenvolvimento do ano passado | Não é possível recuperar datas nem horas |
O último indicador é o mais desconfortável e o mais informativo. Uma empresa que não consegue reconstituir o que fez há doze meses fica sem acesso a benefícios fiscais que já ganhou. Fica também sem forma de saber se está a melhorar.
Quando o framework não decide
Quatro situações em que os critérios não produzem resposta e convém reconhecê-lo antes de forçar um programa.
- Operação em sobrecarga estrutural. Quando a produção corre acima da capacidade há meses e não existe folga em lado nenhum, proteger quinze por cento do tempo de um sénior é ficção. A decisão anterior é operacional: contratar, subcontratar ou recusar trabalho. Reconhecê-lo vale mais do que lançar um programa que morre no segundo mês.
- Ciclos longos em setores regulados. Em dispositivos médicos, farmacêutica ou aeronáutica, o desenvolvimento leva quatro a seis anos e depende de aprovações que não se comprimem. O modelo de frações de tempo não sustenta um ciclo destes: os critérios ordenam o arranque e não resolvem o financiamento de meia década de trabalho.
- Quando o desenvolvimento é o produto. Numa empresa de software, desenvolver é a operação e separar tempo de inovação de tempo de produto torna-se artificial. A distinção útil passa a ser outra: entre o roteiro comprometido com clientes conhecidos e a exploração técnica sem comprador identificado, sendo a segunda a que precisa de proteção.
- Ausência de recetor interno. Quando não existe na casa ninguém com base técnica para absorver o que uma parceria produz, o segundo critério e o quinto entram em conflito e a resposta passa a ser uma contratação. É o caso em que o núcleo dedicado deixa de ser prematuro. Os critérios identificam a situação e não escolhem o perfil.
A leitura Open Capital
Nos diagnósticos que fazemos, o pedido chega quase sempre formulado como questão de estrutura: como se monta um departamento de I&D. A primeira coisa que fazemos é outra: reconstituir os últimos vinte e quatro meses de atividade técnica com o que houver, de ordens de fabrico a faturas de ensaios. Em boa parte dos casos aparece um portefólio que a empresa não sabia que tinha, com três ou quatro desenvolvimentos reais e uma parte deles enquadrável em instrumentos a que nunca se candidatou.
A ordem que funciona é sempre a mesma: registo primeiro, tempo protegido depois, porta de decisão a seguir, parcerias externas por último. Invertê-la é o erro mais frequente e o mais caro. Uma parceria contratada antes de existir recetor interno consome orçamento e devolve um relatório. Uma contratação feita antes de existir carteira cria um custo fixo à espera de trabalho que ainda não apareceu.
Sobre financiamento, vale a pena separar duas coisas que costumam vir juntas na conversa. Os benefícios fiscais atuam sobre despesa já realizada e premiam quem tem registo, sendo o SIFIDE o caso mais claro: a mesma despesa gera crédito fiscal ou não gera nada, consoante esteja documentada e imputada. Os apoios a fundo perdido atuam sobre projeto futuro e exigem que a candidatura anteceda o início dos trabalhos, o que obriga a empresa a saber declarar quando começa. As duas rotas assentam na base do terceiro critério.
O que a prática mostra é que capacidade técnica não vive no organograma. Uma empresa de quarenta pessoas com um sénior a quinze por cento, uma página por iniciativa e uma revisão trimestral com poder de encerrar acumula, em três anos, mais capacidade utilizável do que uma empresa que criou um núcleo de duas pessoas e o deixou a trabalhar longe da operação. O departamento pode vir depois, quando a carteira o justificar e quando já existir dentro de casa quem o oriente. Nessa altura passa a ser consequência do que foi construído, com muito menos risco do que teria hoje.
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