Há um rapaz de vinte e três anos que entrou este ano numa empresa de software em Lisboa. Chamam-lhe o júnior, até os colegas com menos tempo de casa do que ele. No primeiro dia deram-lhe um portátil, um cartão de acesso e uma tarefa modesta: corrigir erros pequenos, escrever testes, ler o código que outros escreveram antes dele. O trabalho de entrada. O trabalho enfadonho e essencial que fez de quase toda a gente que hoje decide alguém capaz de decidir.
Só que esse trabalho já não precisa dele. A máquina corrige os erros pequenos em segundos, escreve os testes sem se queixar e lê o código mais depressa do que qualquer humano alguma vez leu. O primeiro degrau de uma carreira inteira desapareceu numa atualização de software que ninguém votou nem sequer chegou a ver instalar.
A promessa da inteligência artificial, repetida nas conferências e nos anúncios de terça-feira, é sedutora e em boa parte verdadeira. Um engenheiro experiente faz hoje o que há três anos exigia uma equipa inteira. Uma analista sénior monta ao fim da tarde o modelo financeiro que antes ocupava uma semana a três pessoas. A ferramenta multiplica quem já sabe. Dá asas a quem tem para onde voar. O problema é para quem ainda não aprendeu a bater as asas.
O perigo mora mais abaixo, no primeiro degrau que a máquina acaba de serrar. Todos os seniores foram juniores. É uma banalidade que se tornou subitamente incómoda. O contabilista que fecha contas de olhos fechados passou anos a reconciliar lançamentos que ninguém queria fazer. A advogada que assina um parecer numa manhã leu, quando era nova, milhares de páginas de contratos que a máquina resume agora em trinta segundos. O cirurgião só opera sozinho depois de mil suturas debaixo do olhar de outro. O julgamento nasce da repetição. A intuição é memória que assentou. Nunca se conheceu atalho para a experiência, que se fazia precisamente no trabalho que a inteligência artificial tornou dispensável.
As sociedades sérias perceberam isto há muito e construíram rampas de propósito. O estágio na advocacia, o internato na medicina, os anos que um jovem auditor passa a somar horas no trabalho que ninguém disputa, tudo isso é caro, lento e ineficiente por desenho. É ineficiente porque a ineficiência é o preço da formação. Nunca ninguém descobriu como fabricar um sénior sem lhe pagar para ser mediano durante uns anos primeiro.
É aqui que a lógica de cada empresa trai a lógica do conjunto. Para uma empresa sozinha, cortar o júnior é racional: a máquina faz o mesmo por uma fração do custo e sem baixas médicas. O sénior de que essa empresa vai precisar dentro de dez anos, esse, alguém há de formar. Outra pessoa, outra empresa, outro país. Quando toda a gente pensa assim ao mesmo tempo, ninguém forma ninguém e a colheita de seniores que se dava por garantida simplesmente não germina. É uma tragédia dos comuns com data marcada.
Chamemos-lhe pelo nome: estamos a comer as sementes. A colheita deste ano parece mais farta porque pusemos no prato aquilo que devíamos ter enterrado. Cada tarefa de júnior automatizada é um euro poupado hoje e um sénior que faltará em 2035. Muitas das empresas que celebram a produtividade recorde de 2026 estão a hipotecar, sem dar por isso, a competência de que vão depender dentro de uma década.
Dir-me-ão que a história já assistiu a tudo isto. Que o moço de recados deu lugar ao operador, o operador ao programador e que cada vaga de automação criou mais emprego do que aquele que levou. É verdade e é insuficiente. Das outras vezes a máquina aliviava o corpo para libertar a cabeça. Desta vez ocupa o primeiro trabalho da cabeça, o degrau onde o cérebro aprendia a caminhar antes de correr. A pá tirou-nos das costas o peso. A inteligência artificial ameaça tirar-nos o estágio.
Há qualquer coisa de vertiginoso nisto e nem tudo nela é mau. Nunca um jovem de vinte anos teve tanto poder de fogo à distância de uma frase bem escrita. Um miúdo num quarto, em Braga, comanda hoje uma capacidade que há uma geração pertencia a departamentos inteiros. A questão é se o ensinamos a usá-la para pensar ou apenas para despachar. Ferramenta que amplifica um tolo devolve um tolo mais depressa.
Portugal devia estar mais atento do que os outros, porque parte de uma posição mais frágil. Somos um país que exporta talento em vez de o reter, que forma engenheiros a peso de ouro para as folhas de pagamento de Amesterdão e de Berlim. A Feedzai, a Talkdesk, a Remote, todas se ergueram sobre gente que começou por fazer o trabalho pequeno em Coimbra, no Porto, numa sala qualquer do Beato antes de o Beato ter nome de moda. Retire-se o trabalho pequeno e desmonta-se a rampa por onde essa gente subiu. Um país sem rampa não produz a geração seguinte de fundadores. Vai buscá-la lá fora, quando lá fora a quiser vender, ou fica simplesmente sem ela.
Nada disto é destino. É escolha. E há empresas a escolher melhor. Perceberam que o valor do júnior mudou de sítio. Já não está em produzir o rascunho, que a máquina despacha em segundos. Está em ler esse rascunho com desconfiança, em questioná-lo, em apanhar o erro que o modelo comete com uma confiança serena e perfeitamente errada. Ao júnior de hoje devia pedir-se aquilo que ontem se guardava para o sénior: julgar. Pôr o miúdo a rever a máquina em vez de o pôr a competir com ela. Dar-lhe os casos ambíguos, aqueles em que a resposta certa não vem no ecrã. Obrigá-lo a defender a sua leitura em voz alta diante de quem já errou o suficiente para saber onde se erra. Sai mais caro. Leva mais tempo. É a única forma conhecida de ainda haver seniores daqui a dez anos.
Volto ao rapaz de vinte e três anos. Daqui a uma década será uma de duas coisas. Ou será o sénior raro que uma empresa decidiu formar quando era mais barato não o fazer. E valerá o seu peso em ouro num mundo onde quase ninguém saberá já distinguir o brilhante do apenas plausível. Ou não chegou a ser, porque no primeiro emprego lhe entregaram uma máquina em lugar de um problema. Foi ganhar a vida a outro lado e levou com ele o sénior que poderia ter sido. A porta ainda está aberta. Falta decidir quem a segura.
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