Os números, primeiro
O relatório Employment Outlook 2025 da OCDE, divulgado este mês, traz uma fotografia rara para a economia portuguesa. Os salários nominais, antes de descontar a inflação, cresceram 4,9% face a 2024. Já líquidos do efeito dos preços, os salários reais subiram 2,6%. É a primeira vez desde o pós-pandemia que o ganho real é claramente positivo e relevante.
Portugal é, segundo a OCDE, um de 35 países, num universo de 38, onde os salários reais cresceram em 2025. Os três que ficam de fora têm cada um a sua história: choques inflacionistas locais, contracções específicas, ou simplesmente um ponto de partida em 2024 já elevado. O dado importante é o agregado: na quase totalidade dos países desenvolvidos, o trabalho recuperou poder de compra.
O contraste com os anos anteriores é o que torna estes números relevantes. Entre 2022 e 2023, a maioria dos trabalhadores portugueses viu o seu salário nominal subir, mas o real cair. A inflação corria mais depressa do que a folha de pagamentos. Em 2024, as duas curvas começaram a aproximar-se. Em 2025, finalmente cruzaram-se na direcção certa.
O que mudou na equação
Houve três forças a actuar em paralelo. A inflação desacelerou para perto dos 2% no segundo semestre de 2025, em linha com o objectivo do BCE. Os contratos colectivos negociados em 2024 e 2025, sobretudo na indústria, na construção e no comércio, incorporaram correcções acumuladas de anos anteriores. E a escassez de mão-de-obra em sectores específicos, da hotelaria à saúde passando pela construção civil, continuou a pressionar a tabela salarial para cima, mesmo onde os contratos colectivos não chegavam.
Nada disto é novidade para quem gere recursos humanos em Portugal. A novidade é a soma. Quando inflação baixa, contratos colectivos generosos e mercado de trabalho apertado coincidem, o resultado é exactamente este: ganho real visível para o trabalhador, pressão de custos crescente para o empregador.
Esta nuance é crítica. A narrativa pública tende a celebrar o crescimento como uma normalização. Mas normalizar é diferente de recuperar. E quando se descontam factores como a evolução do preço da habitação, que cresceu acima da inflação geral, o quadro complica-se ainda mais. O salário real cresceu, mas o salário utilizável depois de pagar a renda ou a prestação cresceu menos.
O peso para as empresas
Aqui é onde a leitura se separa da política. Para uma empresa, o que interessa não é a taxa agregada de crescimento salarial, é a posição relativa: como evoluíram os meus custos com pessoal face aos meus concorrentes, face ao meu cliente, face à minha capacidade de subir preços.
E a distribuição é desigual. Os 4,9% médios escondem realidades muito diferentes consoante o sector.
| Sector | Pressão salarial 2025 | Margem de absorção |
|---|---|---|
| Construção | Alta, com escassez aguda | Limitada, contratos públicos pré-fixados |
| Hotelaria e restauração | Alta, sazonalidade amplifica | Média, possibilidade de subir preços |
| Saúde e cuidados | Alta, défice estrutural | Baixa no público, média no privado |
| Tecnologia e serviços qualificados | Alta nos perfis seniores | Alta, margens permitem absorver |
| Indústria transformadora | Média, indexada a contratos colectivos | Variável conforme exposição internacional |
| Comércio | Média, salário mínimo puxa o piso | Baixa, concorrência de preço aperta |
| Agricultura | Baixa, ainda muito mão-de-obra estrangeira | Variável conforme produto |
O quadro mostra o problema central. Os sectores onde a pressão salarial é mais alta nem sempre são os que conseguem repercutir esse custo no cliente final. A construção que serve obra pública, com preço fixado por concurso, paga salários crescentes contra orçamentos antigos. O comércio de proximidade vê o salário mínimo subir mas não pode subir o preço do leite ao mesmo ritmo. A saúde privada compete por enfermeiros com o público sem poder cobrar consultas como em Londres ou Madrid.
É nestes sectores que a margem está a comprimir-se de forma mais visível. E é aqui que a expressão "ganhar acima da inflação" tem outra leitura: para o trabalhador, é uma boa notícia inequívoca; para a empresa, é uma transferência de margem cujo destino depende da capacidade de produtividade compensar.
Produtividade, a variável que ninguém quer discutir
Quando os salários crescem 4,9% e a produtividade cresce 1%, alguma coisa tem de ceder. Ou os preços sobem para o cliente final, ou a margem encolhe para o accionista, ou ambos. Em Portugal, a produtividade do trabalho cresceu cerca de 1,2% em 2025, segundo o INE. Os salários reais cresceram 2,6%. A diferença, simplificando muito, é o que sai da margem das empresas ou do bolso dos consumidores.
Esta é uma equação que não fecha indefinidamente. Os países da OCDE que combinam crescimento salarial alto com baixa produtividade são também os que vêem competitividade a erodir-se ao longo do tempo. Itália é o caso mais frequentemente citado. Portugal não está nessa zona, mas tem-se aproximado.
O que isto coloca na mesa de qualquer gestor é uma pergunta concreta: se a folha salarial vai continuar a crescer acima da inflação durante os próximos dois ou três anos e nada indica que pare, como é que a empresa gera os ganhos de produtividade que tornam essa pressão sustentável? Sem essa resposta, a alternativa é apenas escolher quem absorve a perda: o cliente, via preço; o accionista, via margem; ou o próprio trabalhador, via redução de horas, contratações adiadas ou substituição por automação.
Três respostas que estão a aparecer no mercado
Olhando para o que as empresas portuguesas estão efectivamente a fazer, vê-se três caminhos a serem tomados em paralelo, raramente em alternativa.
- Investimento em automação selectiva. Não é a automação narrativa de "robôs vão substituir trabalhadores". É uma automação cirúrgica, focada em tarefas repetitivas de back-office, controlo de qualidade industrial e logística interna. O cálculo é simples: se o custo do trabalho subiu 5% e o custo do software ou do equipamento se mantém, a equação muda.
- Reorganização de equipas em vez de aumentos generalizados. Em vez de subir 4% a toda a folha, várias empresas estão a redesenhar funções, a concentrar perfis mais qualificados nos pontos críticos e a substituir camadas intermédias por mais autonomia ou por software. O efeito agregado é semelhante ao que era um aumento médio, mas com produtividade crescente.
- Renegociação da estrutura de remuneração. A componente fixa cresce no que é negociado em contrato colectivo, mas a componente variável e os benefícios não-monetários (saúde, formação, flexibilidade) ganham peso. Para o trabalhador, é remuneração; para a empresa, é uma estrutura de custos mais elástica.
Nenhum destes caminhos é novo. O que mudou é a urgência. Adiar uma destas decisões em 2022 ou 2023 era um erro estratégico. Em 2026, é uma decisão financeira com efeito directo na demonstração de resultados do ano seguinte.
O que a estatística da OCDE não diz
Há uma camada que o relatório agregado não captura e que importa nomear. O ganho real médio de 2,6% é uma média. Significa que algumas pessoas ganharam muito mais do que isso, outras pouco, outras nada. Os trabalhadores cobertos por contratos colectivos recentemente revistos ganharam mais. Os que estão fora da contratação colectiva, em sectores fragmentados, ganharam menos. Os perfis tecnológicos seniores, em competição directa com mercados europeus mais ricos, ganharam muito acima da média.
Para uma empresa, o que importa é a sua média ponderada, não a média nacional. Uma PME industrial no interior tem uma equação salarial completamente distinta de uma scale-up de software em Lisboa. A primeira pode ter uma pressão salarial inferior à média nacional. A segunda, muito superior. Aplicar o número agregado de 4,9% como termómetro do próprio negócio é, quase sempre, um erro de calibragem.
Onde fica o investimento empresarial nesta equação
Há um efeito secundário do crescimento salarial que se discute pouco e merece atenção. Quando o trabalho fica mais caro em termos relativos, o capital fica relativamente mais barato. Não em termos absolutos, mas em termos de retorno marginal. Cada euro investido em equipamento, software ou tecnologia que substitua trabalho ganha um retorno mais alto do que tinha em 2022.
É um dos motivos pelos quais o investimento empresarial em activos fixos tem dado sinais de aceleração em sectores tradicionais. A indústria está a comprar máquinas. A logística está a digitalizar gestão de armazém. A construção está a importar pré-fabricação. Não é coincidência com o crescimento salarial: é consequência directa.
Para uma empresa que esteja a olhar para o seu plano de investimento dos próximos dois anos, este é um dos cálculos que deve ser refeito. Os incentivos financeiros e fiscais ao investimento, do PRR ao Portugal 2030, do SIFIDE II ao RFAI, ganharam peso relativo precisamente porque o custo da alternativa, expandir só com mais pessoas, ficou mais alto. Quem não recalibra o plano de investimento à luz desta nova equação está, na prática, a financiar o crescimento salarial sem compensar com produtividade. É uma trajectória de margem decrescente.
O que isto significa para a sua empresa
O regresso do crescimento real dos salários é, em si, uma boa notícia macroeconómica. Trabalhadores com mais poder de compra alimentam consumo interno, sustentam serviços, reduzem dependência de subsídios. Quem gere uma empresa em Portugal beneficia, do lado da procura, deste movimento.
Do lado dos custos, a história é outra. E é nessa segunda metade que a maioria das empresas portuguesas está pouco preparada. Continua-se a tratar o aumento salarial como linha orçamental anual a negociar e não como variável estrutural a gerir com a mesma seriedade com que se gere a tesouraria, o stock ou a relação com o banco.
O que recomendamos a quem nos consulta sobre este tema, sobretudo a PME industriais e a empresas de serviços com forte exposição a folha salarial, é simples na formulação e exigente na execução. Primeiro, refazer o orçamento dos próximos três anos assumindo crescimento salarial real de 2% a 3% ao ano, não como cenário pessimista mas como cenário base. Segundo, identificar nas operações onde é que cada euro adicional em folha pode ser compensado por automação, por reorganização de funções, ou por subida de preços. Terceiro, calibrar o plano de investimento aproveitando os instrumentos de financiamento disponíveis para reduzir o peso do CAPEX, sabendo que o retorno marginal de cada euro investido subiu por efeito directo do encarecimento do trabalho.
Quem fizer este exercício antes do final de 2026 entra em 2027 com uma estrutura de custos preparada. Quem adiar, descobre o problema na conta de resultados.
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