Em 2018, o ecossistema de venture capital em Portugal era, sem exagero, marginal. Havia um punhado de fundos domésticos, nenhum com capacidade de ticket relevante para rondas de crescimento, e os fundadores portugueses com ambição internacional tinham essencialmente uma opção: ir ao estrangeiro ou crescer com os próprios recursos. O mercado mudou de forma substancial nos seis anos seguintes.
Esta análise não é um exercício de otimismo sobre o ecossistema português: de que há abundância. É uma avaliação honesta do que efetivamente mudou, do que ainda não mudou, e do que os fundadores e empresas em fase de crescimento devem esperar quando entram num processo de captação de capital de risco em Portugal.
Quem investe em Portugal hoje
O mercado de VC em Portugal está hoje estruturado em quatro categorias de investidores com lógicas e expectativas distintas. Conhecer estas diferenças é essencial antes de iniciar qualquer processo de captação.
O que os VCs portugueses (e os que investem em Portugal) procuram
O perfil de empresa que recebe investimento de VC em Portugal mudou substancialmente desde 2020. O crescimento do ecossistema trouxe mais deal flow: e com mais deal flow, veio mais seletividade. Alguns padrões que emergem claramente:
- Setores prioritários: SaaS B2B com modelo de receita recorrente, deep tech (IA, robótica, biotech), climate tech, fintech e health tech. Empresas de serviços puros sem componente tecnológica diferenciadora raramente atraem VC.
- Stage e tração: Para fundos early-stage, o mínimo real é produto funcional com primeiros clientes pagantes. Para Series A, esperam-se ARRs de 800K€–2M€ com crescimento acima de 100% ano a ano.
- Perfil da equipa: Cada vez mais valorizada é a complementaridade técnica-comercial na equipa fundadora. Fundadores com experiência prévia de empreendedorismo ou em funções sénior em empresas de referência têm vantagem desproporcional.
- Ambição de mercado: O mercado português é pequeno para justificar VC. Os investidores querem ver que o modelo é replicável em mercados maiores: e querem ver evidências (não apenas intenções) dessa capacidade.
O que mudou depois de 2022: valuations, disciplina e due diligence
O período 2020–2021 foi, à escala global, uma anomalia. Capital abundante, taxas de juro próximas de zero e apetite de risco elevado criaram um ambiente de valuations inflacionadas e processos de investimento acelerados. Portugal beneficiou desse fluxo: mas beneficiou menos do que os ecossistemas mais maduros como Londres, Berlim ou Estocolmo.
A correção de 2022–2023 foi real e teve impacto direto no mercado português. Os múltiplos de avaliação desceram significativamente: empresa que em 2021 conseguia valorizações de 15–20x ARR passou a fazê-lo a 6–8x no mesmo período. Os processos de due diligence tornaram-se mais rigorosos. O tempo médio entre primeiro contacto e term sheet alargou-se de semanas para meses.
Em 2024–2025, o mercado estabilizou num patamar diferente do pré-pandemia mas longe do pico. Há mais fundos, mais capital disponível, e critérios de investimento mais sofisticados. O resultado líquido é positivo para o ecossistema: mas exige que os fundadores portugueses elevem o nível de preparação para um processo de fundraising.
O que esperar nos próximos anos
A nossa leitura do mercado para o horizonte 2026–2028 assenta em três tendências que consideramos estruturais e não cíclicas:
- Consolidação dos fundos domésticos: O número de fundos em Portugal provavelmente não crescerá muito: mas os fundos existentes crescerão em dimensão e sofisticação, com capacidade crescente para liderar rondas de maior dimensão sem dependência de capital internacional para a liderança.
- Especialização setorial: Fundos generalistas darão lugar progressivamente a fundos com tese setorial clara: climate tech, health, B2B SaaS. Isso é bom para fundadores com proposta de valor bem definida e difícil para os que tentam ser tudo para todos.
- Ligação aos instrumentos públicos: A articulação entre VC privado e os instrumentos de co-investimento do Portugal 2030 e PRR deverá aprofundar-se, criando caminhos de financiamento combinado que permitem a empresas em fases mais iniciais aceder a capital de maior dimensão mais cedo.
O que vemos no deal flow
Na Open Capital, trabalhamos com empresas em diferentes fases de preparação para captação de capital: desde as que estão a avaliar se o VC é a opção certa, até às que já estão em processo ativo de fundraising. Algumas observações do que vemos no terreno:
A maioria das empresas que chega até nós não está pronta para um processo de VC quando o inicia. Não por falta de produto ou de mercado: mas por falta de preparação do processo em si. Material de investidor incompleto, modelo financeiro com pressupostos inconsistentes, ausência de clareza sobre a estratégia de uso do capital. São problemas resolvíveis, mas que custam tempo e credibilidade se forem descobertos durante um processo e não antes.
A segunda observação é que o timing importa muito mais do que os fundadores tendem a acreditar. Um processo de fundraising iniciado no momento certo: quando a tração é clara e o crescimento recente é visível: tem resultados significativamente melhores do que o mesmo processo iniciado três meses antes com as mesmas métricas absolutas mas crescimento menos evidente.
O capital de risco em Portugal é hoje uma opção real para empresas com o perfil certo. Para as que têm esse perfil, o trabalho de preparação que antecede o processo determina em grande medida o resultado.