Equity europeu para scale-ups em tecnologias estratégicas
O EIC STEP Scale Up é uma das modalidades mais recentes do European Innovation Council, criada ao abrigo da plataforma STEP (Strategic Technologies for Europe Platform). Diferentemente do EIC Accelerator clássico, que combina subvenção e equity, esta linha opera exclusivamente em equity: o EIC Fund injecta entre 10 e 30 milhoes de euros por empresa, sem componente a fundo perdido.
O posicionamento é claro. O instrumento existe para resolver um problema reconhecido no ecossistema europeu: a escassez de capital de risco em ticket size grande para scale-ups em tecnologias críticas. As empresas alvo já passaram o vale da morte, já têm tecnologia em ambiente operacional (TRL 9) e procuram capital para crescimento internacional, expansão de capacidade ou aquisições estratégicas. O STEP Scale Up entra ao lado de fundos privados, mobilizando rondas de 50 a 150 milhoes por operação.
Para 2026, a Comissão Europeia alocou 300 milhoes a esta modalidade, com projeção de crescimento até 900 milhoes no período 2025-2027. É um sinal político inequívoco: a Europa quer reduzir dependências em quantica, semicondutores, IA avançada, biotech industrial e cleantech, e está disposta a usar dinheiro público para isso.
Necessidades que este instrumento resolve
O EIC STEP Scale Up serve um perfil muito específico: empresas europeias em fase de escala, com tecnologia validada, a competir em setores onde a soberania tecnológica europeia é prioridade política. As necessidades cobertas refletem esta realidade.
- Capitalização e crescimento: o STEP Scale Up injecta entre 10 e 30 milhoes em equity diretamente no balanço da empresa, sem custo de juros nem garantias exigidas. É a alternativa pública europeia ao growth equity privado, com selo institucional reconhecido por investidores subsequentes.
- Investimento produtivo: o capital destina-se a escalar capacidade industrial, abrir fábricas, contratar talento qualificado, comprar equipamento crítico e adquirir concorrentes ou tecnologias complementares. O caso típico é uma empresa portuguesa de semicondutores que precisa de construir uma linha-piloto em Portugal e replicá-la em dois mercados europeus em 24 meses.
Elegibilidade e critério crítico
A elegibilidade formal é simples: PME ou small mid-caps (menos de 500 colaboradores) sedeadas num Estado-Membro da União Europeia ou país associado ao Horizonte Europa. O Reino Unido está atualmente excluído. O que diferencia o STEP Scale Up de outros instrumentos públicos é o requisito de envolvimento prévio do mercado privado.
Para uma scale-up portuguesa, esta arquitetura tem implicações práticas: o trabalho de captação começa com fundos de capital de risco europeus (Lakestar, Atomico, EQT Ventures, Hadean Ventures, ou fundos nacionais como Indico Capital ou 200M Capital), demonstra-se um pipeline credível e só depois se aciona o STEP como complemento institucional à ronda.
Tecnologias estratégicas elegíveis
O STEP Scale Up cobre cinco verticais com forte componente de soberania tecnológica. A lista é fechada e a empresa tem de demonstrar alinhamento claro com pelo menos uma destas áreas.
| Vertical | Foco | Exemplos de modelo de negócio |
|---|---|---|
| Computacao quantica | Hardware, software, criptografia | Processadores quânticos, sensing, comms seguras |
| Semicondutores | Design, fabrico avançado, materiais | Fabless design, packaging avançado, foundries |
| Inteligencia artificial | Modelos de fronteira, infraestrutura | LLMs verticais, AI chips, infraestrutura sovereign |
| Biotecnologia industrial | Bioprodução, fermentação de precisão | Proteínas alternativas, biomateriais, terapias avançadas |
| Cleantech industrial | Descarbonização, armazenamento, hidrogénio | Baterias next-gen, eletrolisadores, captura de carbono |
A maturidade tecnológica exigida é TRL 9, ou seja, tecnologia já provada em ambiente operacional real. Esta exigência exclui boa parte das startups portuguesas em fase pre-Series B. Para empresas a este nível, o EIC Accelerator clássico continua a ser o caminho mais adequado.
Quatro cut-offs por ano
Ao contrário dos avisos PT2030 ou LIFE, o STEP Scale Up funciona em candidatura contínua via Funding & Tenders Portal, com cut-offs trimestrais. Em 2026 estão confirmados quatro pontos de corte.
A avaliação completa demora 4 a 6 semanas após o cut-off. Empresas selecionadas para entrevista recebem o resultado em duas semanas após a sessão. Para quem planeia fechar uma ronda no primeiro trimestre de 2027, o cut-off de 25 de novembro de 2026 é o último realista, dado o tempo de due diligence subsequente.
Sovereignty Seal e acesso institucional
O dinheiro é a parte mais visível, mas não é a parte mais valiosa. Empresas selecionadas recebem o Sovereignty Seal, marca atribuída pela Comissão Europeia a tecnologias consideradas estratégicas para a autonomia da União. Este selo é cada vez mais usado por fundos institucionais europeus, family offices ligados a grandes grupos industriais e até pelos próprios bancos públicos nacionais como sinal de qualidade pré-validada.
- Sovereignty Seal: reconhecimento institucional que acelera due diligence em rondas subsequentes e desbloqueia tickets de capital privado complementar.
- Business Acceleration Services: acesso a serviços do EIC, incluindo programas de mentoring, networking com decisores e missões comerciais internacionais.
- Visibilidade junto de VCs europeus: as empresas selecionadas entram num pool curado que é seguido de perto por gestoras de growth equity, incluindo fundos com bolsos suficientes para liderar Series C e Series D.
- Alinhamento com programas-irmãos: o STEP atua em complementaridade com o InvestEU, o Innovation Fund, o EIB e o Conselho Europeu de Defesa, abrindo caminhos para co-investimento em operações maiores.
STEP Scale Up vs. EIC Accelerator vs. growth equity privado
| EIC Accelerator | STEP Scale Up | Growth equity privado | |
|---|---|---|---|
| Componente subvenção | Até 2,5 milhoes | Nenhuma | Nenhuma |
| Equity ticket | Até 15 milhoes | 10 a 30 milhoes | 20 a 100 milhoes |
| TRL exigido | 5-9 | 9 | Receita validada |
| Lead investor exigido | Não | Sim (mínimo 20%) | O próprio é lead |
| Diluição típica | 10 a 20% | 15 a 25% | 20 a 35% |
| Tempo até decisão | 6 a 9 meses | 2 a 3 meses | 3 a 6 meses |
A leitura prática: o STEP é mais rápido que o EIC Accelerator e menos diluitivo que growth equity puro, mas exige uma maturidade já testada e um trabalho prévio de captação privada. Para quem ainda está em fase de validação de produto-mercado, o caminho continua a ser o EIC Accelerator. Para quem já tem receita recorrente e quer escalar internacionalmente, o STEP entra como reforço sustentado.
Como é decidido o investimento
A avaliação é feita por um júri de no máximo seis membros, com presença equilibrada entre operadores experientes em deep tech e gestores de fundos institucionais. As empresas finalistas têm entrevista presencial ou remota em Bruxelas. Os critérios são consistentes com o que um fundo de growth equity privado avaliaria.
- Plano empresarial e modelo de negócio: unit economics, evolução histórica de receita, métricas de retenção, capacidade de gerar caixa positiva no horizonte do investimento.
- Potencial de mercado e escalabilidade: dimensão do TAM endereçável, fatores que limitam a escala (regulatórios, capacidade industrial, talento) e qualidade da go-to-market.
- Alinhamento estratégico STEP: demonstração inequívoca de que a tecnologia contribui para a autonomia estratégica europeia em pelo menos uma das cinco verticais elegíveis.
- Maturidade tecnológica: TRL 9 demonstrável, com referências de clientes pagantes, contratos comerciais e métricas operacionais auditáveis.
- Diferenciação competitiva e PI: portfolio de patentes ativas, freedom-to-operate verificada e barreiras de entrada defensáveis.
Perfil ideal do candidato
Uma scale-up portuguesa que considere uma candidatura ao STEP Scale Up em 2026 deve, antes de tudo, ser honesta sobre o seu próprio estágio. O instrumento não é para empresas em fase de prova de conceito nem para hardware com piloto único. É para empresas que conseguem responder afirmativamente a três perguntas.
- Tenho receita recorrente e contratos comerciais ativos? Pelo menos um pipeline credível com clientes pagantes. Empresas pre-revenue raramente passam o primeiro filtro.
- Tenho um lead investor de referência disposto a comprometer 20% da ronda? Sem este âncora, a candidatura não é elegível. Conversas com VCs têm de estar avançadas antes da submissão.
- A minha tecnologia tem dimensão estratégica europeia? Há uma narrativa clara, defensável e técnica sobre por que esta tecnologia contribui para a soberania da União. Aplicações genéricas, mesmo que excelentes, não passam.
Para o tecido empresarial português, os perfis com maior probabilidade de sucesso situam-se em fabless semicondutores (com IP defensável), bioprodução industrial (proteínas alternativas, biomateriais), software de soberania (cibersegurança, infraestrutura cloud sovereign) e baterias ou hidrogénio em escala industrial.
O que recomendamos
O STEP Scale Up é um instrumento desenhado para um nicho estreito. Para quem cabe nesse nicho, é provavelmente o melhor capital institucional disponível em 2026: ticket grande, sem juros, sem garantias, com selo de qualidade europeu. Para quem não cabe, persistir é desperdício de tempo e exposição.
A nossa recomendação a quem nos consulta: começar pelo lead investor antes da candidatura. Sem um VC de referência comprometido com pelo menos 20% da ronda, o STEP é inacessível. O caminho típico é construir relação com fundos europeus durante 6 a 9 meses, fechar um term sheet condicionado, e só depois acionar o STEP. Empresas que tentam o caminho inverso (candidatar primeiro, captar privado depois) quase sempre falham.
Para quem ainda está em pre-Series B, o caminho continua a ser o EIC Accelerator clássico ou rondas privadas de Series A. Estes instrumentos são desenhados para validação e tração inicial. Avançar prematuramente para o STEP é perder tempo num processo de avaliação que vai filtrar a candidatura logo na primeira ronda. A leitura honesta do estágio próprio é a decisão estratégica mais importante antes de submeter.
A última nota é sobre o calendário. O cut-off de 25 de novembro de 2026 é o último deste ano, mas a preparação séria exige começar a trabalhar a candidatura no terceiro trimestre, no máximo, dado o tempo de captação do lead investor. Quem espera por outubro para começar normalmente não chega a tempo.
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