Diálogos entre empreendedores climáticos e bolsa para Singapura
A Climate KIC, a maior comunidade europeia de inovação climática promovida pelo European Institute of Innovation and Technology, abriu em 2026 uma chamada de expressão de interesse para emparelhar empreendedores climáticos baseados na Europa com homólogos da Ásia ou Oceânia. O formato é simples: cada participante selecionado conduz uma conversa bilateral facilitada de 45 minutos, em formato online, com outro empreendedor de uma região distinta. As gravações alimentarão uma análise sobre as capacidades de liderança e os modelos de negócio que sustentam uma "economia do bem-estar".
O programa decorre no âmbito de uma parceria entre a Climate KIC, a NO.17 Foundation e o TPC Group (Tsao Pao Chee), grupos focados em modelos económicos pós-crescimento. A peça mais material para empreendedores portugueses é a componente competitiva: dois participantes selecionados recebem uma bolsa que cobre voos, alojamento e inscrição no AT ONE Impact Week 2026, evento que decorre entre 8 e 12 de setembro em Singapura, no Suntec Convention & Exhibition Centre.
Necessidades que este programa resolve
Não é uma linha de financiamento de operações. É um programa de visibilidade internacional e de network estruturado para fundadores que operem na fronteira entre clima e modelos de negócio regenerativos. As necessidades concretas que cobre são duas, e devem ser claras antes de qualquer candidatura.
- Prémios e visibilidade: a bolsa para Singapura inclui acesso a convenções de alto nível sobre transformação de sistemas locais, empreendedorismo regenerativo e colaboração inter-regional, com possibilidade de apresentar publicamente o trabalho do empreendedor. É exposição internacional difícil de obter por outras vias.
- Internacionalização: o emparelhamento bilateral cria ponte direta com empreendedores asiáticos com perfis comparáveis, possibilitando começar relações estratégicas em mercados onde a presença portuguesa é estruturalmente fraca.
Perfil elegível
A elegibilidade é definida por quatro critérios cumulativos. O candidato tem de ser empreendedor, fundador ou co-fundador de uma start-up, scale-up ou PME, estar baseado na Ásia, Oceânia ou Europa, operar em inovação climática, economia circular, sustentabilidade ou área afim, e estar disponível para uma conversa online de 45 minutos entre junho e agosto de 2026.
A organização sinaliza preferência por candidatos "que já estão a pensar, ou ativamente a navegar, as tensões entre crescimento, impacto e mudança sistémica". A conversa decorre em inglês, embora a organização tente sempre que possível emparelhar participantes que partilhem língua nativa. Há ainda a obrigação de consentir a gravação para fins de investigação.
Valor efetivo e exclusões
A bolsa para os dois vencedores cobre voos de ida e volta, alojamento durante o Impact Week e taxa de inscrição no evento. Não cobre documentação de viagem, vistos, seguros de viagem nem custos associados, que ficam por conta do participante. Para empreendedores portugueses, isto significa que o vencedor pode esperar receber uma bolsa equivalente a 4.000 a 6.000 euros em valor efetivo (consoante a rota e classe), mas tem de suportar autonomamente os custos de visto e seguro para a Singapura.
Janelas e datas-chave
A candidatura opera em base rolling, mas com data limite firme em 12 de junho de 2026, 23h59 CET. A organização recomenda candidatura antecipada, dado que os emparelhamentos vão sendo feitos à medida que as candidaturas chegam e os lugares podem esgotar antes do prazo final. Os emparelhamentos e notificações aos vencedores da bolsa estão previstos para meados de junho.
- Submissão: aberto desde a publicação, encerra a 12 de junho de 2026.
- Seleção e emparelhamento: revisão contínua pela Climate KIC, confirmação dos pares e dos vencedores da bolsa em meados de junho.
- Conversas: entre junho e final de agosto de 2026, formato online de 45 minutos.
- Impact Week 2026: 8 a 12 de setembro de 2026, Suntec Singapore Convention & Exhibition Centre.
Três eixos de avaliação
Todos os participantes na conversa entram automaticamente no concurso da bolsa, ou seja, não há candidatura separada. A diferenciação faz-se nas respostas à secção 3 do formulário, avaliadas por três critérios.
- Encarnação concreta dos princípios da economia do bem-estar: os avaliadores procuram exemplos reais, como decisões foram tomadas, o que se mede, o que foi sacrificado ou redesenhado em nome do compromisso com pessoas e planeta. Afirmações abstratas penalizam.
- Profundidade da reflexão pessoal e empreendedora: respostas fortes nomeiam capacidades específicas (suster incerteza, sustentar propósito sob pressão, navegar resistência sistémica) com reflexão honesta sobre como moldaram a liderança do candidato.
- Qualidade da intenção de aprendizagem inter-regional: valoriza-se curiosidade intelectual, humildade e clareza sobre o que ainda não se sabe, mais do que o desejo de mostrar o próprio trabalho.
O que recomendamos
Este é um programa de nicho, mas com retorno potencial assimétrico. O custo de candidatura é baixo (essencialmente o tempo de escrever três respostas reflexivas e fazer 45 minutos de conversa online entre junho e agosto). A bolsa, para quem é selecionado, vale entre 4.000 e 6.000 euros e abre acesso a uma comunidade internacional onde a presença portuguesa é tipicamente reduzida.
Recomendamos candidatura a empreendedores que cumprem dois requisitos. Primeiro, ter um produto ou serviço com proposta de valor clara em sustentabilidade, economia circular, climate tech ou áreas afins, com tração real ou em fase de validação avançada. Segundo, e este é o filtro silencioso, ter capacidade genuína de reflexão sobre o próprio percurso de fundador, dado que o programa valoriza pessoas com discurso construído sobre o "porquê" e o "como" do negócio, não apenas sobre o "o quê".
Para start-ups portuguesas que procuram acesso a mercados asiáticos, esta é uma porta de entrada com custo marginal mínimo. Singapura é hub regional para parcerias estratégicas de sustentabilidade, e o tipo de exposição que o Impact Week proporciona, com investidores e advisors da rede Climate KIC, raramente está disponível por outras vias institucionais portuguesas. Em comparação, missões oficiais via AICEP para Singapura têm custos diretos significativos para o empresário e cobertura editorial inferior. Esta candidatura, mesmo sem ganhar a bolsa, garante a conversa bilateral, o que por si só já é ativo de network defensável.
Atenção a um detalhe: as respostas são lidas por humanos da Climate KIC e formatadas para análise comparativa de capacidades de liderança. Investir tempo em respostas autênticas é mais útil do que respostas polidas mas vazias. Não é exercício de marketing pessoal, é entrevista qualitativa disfarçada de formulário.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]