Este instrumento encontra-se encerrado. As candidaturas ja nao estao abertas.
Contexto Estratégico

O Pacto Industrial Verde e a Corrida ao Net-Zero

O Clean Industrial Deal (CID) e a resposta da Comissão Europeia ao duplo desafio de descarbonizar a economia europeia sem perder competitividade industrial face a EUA, China e India. Lancado em novembro de 2025, o CID mobiliza mais de 540 milhoes EUR em financiamento Horizon Europa para dois topicos distintos: o primeiro (CID-2026-01-01) centra-se nas industrias de processo intensivas em energia como aco, cimento e quimica; o segundo, aqui detalhado (CID-2026-01-02), dirige-se as tecnologias energeticas limpas transversais que dao suporte a toda a transição.

Enquanto o topico 01 financia a descarbonização de processos industriais especificos, o topico 02 apoia a demonstracao e pre-comercializacao de tecnologias net-zero no ambito dos sistemas de energia, armazenamento e combustiveis de baixo carbono. A logica e complementar: sem tecnologias de energia limpa disponiveis, acessiveis e competitivas, nenhuma indústria consegue descarbonizar de forma economicamente viavel.

150M EUR
Dotacao total
8
Projetos esperados
TRL 6→8
Maturidade alvo
15set 2026
Prazo de submissão
Tres Vectores Tecnologicos

As Tecnologias Alvo do CID-2026-01-02

O topico organiza-se em torno de tres grandes famílias tecnologicas, todas com potencial de escala industrial e impacto direto na redução de emissoes de gases com efeito de estufa. Cada proposta deve enquadrar-se em pelo menos uma destas famílias e demonstrar um caminho credivel de implementação a escala.

Família Tecnologica Exemplos de Aplicacao Relevancia
Sistemas de energia net-zero integrados Redes electricas de nova geracao, sistemas de gestão de energia, interoperabilidade renovavel-rede, microrredes industriais Flexibilidade e resiliencia da rede europeia como base da descarbonização
Tecnologias de produção de energia zero-emissoes Energia solar de nova geracao, eolica offshore avancada, energia geotermica, calor renovavel industrial, nucleo de fissao de quarta geracao Alargamento do mix de produção limpo com tecnologias de alta penetracao
Armazenamento, combustiveis renovaveis e CCU Baterias de segunda geracao, hidrogenio verde e derivados (amoniac, metanol), biocombustiveis avancados, combustiveis sinteticos (e-fuels), captura e utilização de CO2 Descarbonização dos setores de dificil eletrificacao direta: transporte pesado, aviaçao, indústria quimica

A escolha destas tres famílias reflete as prioridades do Plano de Acao para a Transição Energética da UE, que identifica sistemas de energia integrados, produção limpa e combustiveis de baixo carbono como os tres pilares da soberania energética europeia.

Maturidade e Demonstracao

Da Prova de Conceito ao Mercado: o Que e Exigido

O CID-2026-01-02 e uma Innovation Action (IA), nao uma Research and Innovation Action (RIA). Esta distincao e fundamental. O horizonte nao e a investigação de base nem mesmo a validacao em laboratorio: o ponto de partida e TRL 6 (demonstracao em ambiente relevante) e o objetivo e atingir TRL 8 (sistema completo e qualificado) no final do projeto.

Na prática, isto significa que as propostas devem apresentar uma tecnologia que ja foi validada em escala piloto, com dados de desempenho reais e que o projeto financiado pelo CID serve para a demonstrar em condições operacionais reais, a escala pre-comercial, com plano de negocio e estrategia de deployment documentados.

Requisito Critico: Momento Go/No-Go
A Comissão Europeia exige que cada proposta inclua um momento formal de go/no-go antes da fase de demonstracao principal. Este ponto de decisao deve incluir: planos de engenharia detalhados, avaliação técnico-economica, todas as licencas e autorizacoes necessarias e um plano de negocio completo com estrategia de entrada no mercado. Projetos que nao consigam demonstrar viabilidade comercial neste momento podem ser descontinuados mesmo apos aprovacao inicial.

A exigencia de um go/no-go formal distingue este instrumento dos tipicos financiamentos de I&D. O CID nao financia experimentacao em aberto: financia a aceleracao de tecnologias ja validadas para escala industrial, com responsabilidade de resultado incorporada na estrutura do projeto.

Composicao do Consorcio

Quem Deve Liderar e Quem Deve Integrar

O CID-2026-01-02 e explicitamente orientado para consorcios liderados pela indústria. O promotor coordenador deve ter capacidade de deployment a escala e um interesse comercial genuino no sucesso da demonstracao. Institutos de investigação e universidades sao bem-vindos, mas em posicao de suporte técnico e nao como coordenadores.

Perfil de Parceiro Funcao no Consorcio Importancia
Empresa de energia / utilities Promotor ou parceiro industrial principal, fornece o ambiente de demonstracao real (rede, central, instalação industrial) Essencial
Desenvolvedor de tecnologia (PME ou grande empresa) Titular da tecnologia a demonstrar, responsavel pelos indicadores de desempenho tecnologico Essencial
Instituto de investigação ou universidade Validacao independente, modelacao de desempenho, análise de ciclo de vida, monitorizacao Recomendado
Parceiro industrial downstream Utilizador final da tecnologia demonstrada (indústria, rede de distribuicao, operador de transporte), valida o caso de negocio Muito recomendado
Entidade de normalização / regulacao Facilita o enquadramento regulatorio, apoia a obtencao de licencas, contribui para standards europeus Diferenciador

A dimensao do consorcio deve ser justificada pela amplitude da cadeia de valor coberta. Consorcios muito numerosos sem justificacao clara das funcoes de cada parceiro sao penalizados na avaliação. A regra prática: cada parceiro tem de ter uma funcao insubstituivel no caminho de TRL 6 para TRL 8.

CID-01 vs CID-02

Dois Topicos, Uma Estrategia

O CID divide-se em dois topicos complementares com datas limite identicas (15 setembro 2026) mas ambitos distintos. Perceber a diferenca e critico para decidir em qual submeter e para evitar redundancia entre propostas do mesmo consorcio.

CID-2026-01-01 vs CID-2026-01-02
Topico 01 (CID-01): Descarbonização de industrias intensivas em energia - aco, cimento, quimica, papel, ceramica. Foco em processos industriais especificos, parcerias Processes4Planet e Clean Steel. Dotacao: 125M EUR, ate 8 projetos de 15-25M EUR. TRL 6 a 7-8.

Topico 02 (CID-02): Tecnologias limpas transversais para a transição energética - sistemas net-zero, produção zero-emissoes, armazenamento e combustiveis renovaveis. Foco em tecnologias energeticas aplicaveis a multiplos setores. Dotacao: 150M EUR, ate 8 projetos de 15-25M EUR. TRL 6 a 8.

Um consorcio com tecnologia de hidrogenio verde para indústria pesada pode potencialmente enquadrar-se em ambos os topicos. Nestes casos, a escolha deve ser guiada pelo angulo principal da proposta: se o enfase e na integração com o processo industrial especifico, CID-01 e mais adequado; se o enfase e na própria tecnologia de produção e distribuicao de H2, CID-02 e o caminho natural.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

O CID-2026-01-02 representa uma oportunidade excecional para empresas portuguesas que desenvolveram ou integram tecnologias energeticas limpas e estao na fase de escala. Portugal tem posicoes competitivas relevantes em energia solar, eolica offshore, hidrogenio verde (Madeira, Setubal, Sines) e biocombustiveis avancados. O desafio nao e tecnologico: e de posicionamento estratégico no consorcio.

A nossa recomendacao para equipas que estejam a avaliar esta oportunidade: identificar primeiro o parceiro industrial europeu com capacidade de deployment a escala que possa ser o coordenador ou co-lider do consorcio. Tecnologias portuguesas em fase de spin-off ou scale-up raramente devem coordenar sozinhas uma proposta CID de 150M EUR. O papel ideal e de parceiro tecnologico titular da inovação, com um industrial europeu como ancora.

O requisito go/no-go merece atencao especial na fase de elaboracao da proposta. Avaliadores experientes vao verificar se o momento de decisao esta bem definido, se os criterios sao quantificaveis e se o plano de negocio que o sustenta tem assumpcoes razoaveis. Propostas que tratam o go/no-go como formalidade administrativa tendem a ser penalizadas. O investimento em preparar este ponto com rigor de business case e o diferenciador mais subestimado neste tipo de chamadas.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]