Modelar melhor o fogo para contar melhor o carbono
O tópico HORIZON-CL4-2025-02-SPACE-43 financia investigação para melhorar a forma como os fogos florestais são representados na capacidade europeia de Monitorização e Verificação das Emissões Antropogénicas de CO₂, conhecida como CO2MVS. Esta capacidade é um dos pilares do programa Copernicus e existe para distinguir, com rigor, o carbono que resulta da atividade humana daquele que resulta de processos naturais.
Os incêndios complicam essa contabilidade. São uma fonte significativa de CO₂ e de poluentes atmosféricos, alteram a vegetação e, ao fazê-lo, mudam a troca de carbono entre a biosfera e a atmosfera. Os modelos de vegetação e de fogo usados hoje precisam de ser refinados para alimentar com mais qualidade os serviços Copernicus de atmosfera, de emergência e de monitorização do território. O objetivo do tópico é desenvolver métodos novos e inovadores que tenham em conta a interação entre secas, fogos e vegetação dentro de um sistema de monitorização global como o CO2MVS.
Necessidades que este instrumento resolve
Este tópico cruza duas necessidades que raramente aparecem juntas com esta intensidade: a produção de conhecimento científico de fronteira e a resposta a um desafio climático concreto, a contabilização das emissões de carbono dos fogos.
- I&D e ciência: o projeto investiga o estado atual da modelação do fogo, avalia modelos de vegetação empíricos e baseados em processos e integra conjuntos de dados observacionais sobre o estado da vegetação, as condições de seca e as áreas ardidas. É ciência aplicada de ponta, com maturidade ao nível TRL 5 a 6.
- Sustentabilidade, energia e clima: o resultado serve diretamente a monitorização climática europeia. Melhores estimativas das emissões dos fogos significam melhor qualidade do ar nos produtos Copernicus, melhor previsão do risco de incêndio e melhores dados para as projeções climáticas que apoiam o IPCC.
O que o projeto tem de entregar
O aviso é explícito quanto aos resultados que espera. O projeto deve contribuir para todos eles, não apenas para um:
- Interação seca-fogo-vegetação: permitir que o CO2MVS contabilize a forma como secas e fogos interagem com a vegetação.
- Emissões dos fogos: melhorar a estimativa das emissões de incêndios no Serviço de Monitorização da Atmosfera Copernicus, o CAMS.
- Risco de incêndio: melhorar a previsão do risco de fogo no Serviço de Gestão de Emergências Copernicus, o CEMS.
- Assimilação de dados: melhorar o uso dos produtos do Serviço de Monitorização do Território Copernicus na avaliação do impacto dos fogos na vegetação e nos fluxos de carbono.
O que distingue este aviso
- Um único projeto financiado: a autoridade financiadora pode atribuir, no máximo, um projeto a este tópico.
- Custos em montante fixo: o financiamento assume a forma de lump sum, segundo as regras do Horizonte Europa para esta modalidade.
- Uso de Copernicus e Galileo: se o projeto recorrer a observação da Terra, posicionamento ou navegação por satélite, é obrigatório o uso dos serviços europeus Copernicus e Galileo ou EGNOS.
- Participação do JRC: o Centro Comum de Investigação pode ser membro do consórcio selecionado, o que condiciona a forma como o projeto se articula com os serviços operacionais Copernicus.
O que recomendamos
Para Portugal, este é um tópico de relevância acima da média dentro da área espacial do Horizonte Europa. O país tem um problema estrutural de incêndios e tem comunidades científicas sólidas em modelação florestal, deteção remota e ciências da atmosfera. A capacidade de articular dados de área ardida, condições de seca e estado da vegetação com um sistema de monitorização global é um terreno onde grupos portugueses têm massa crítica real.
O fator decisivo numa candidatura deste tipo não é a ambição científica isolada, é a credibilidade operacional. O aviso pede explicitamente que os resultados estejam prontos para transitar para os serviços Copernicus, com software de licença aberta e demonstração de aplicações a jusante. Uma proposta forte mostra que sabe trabalhar dentro dos fluxos do CAMS e do CEMS, articula-se com o JRC e não se limita a publicar artigos. Com o aviso já fechado, o valor desta ficha é de preparação: para qualquer entidade que pretenda posicionar-se na próxima vaga de tópicos Copernicus, vale a pena começar agora a construir o consórcio e a relação com as entidades dos serviços.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]