O paradoxo europeu dos semicondutores fabless
O modelo fabless, em que as empresas concebem chips mas externalizam a fabricacao, gerou alguns dos maiores casos de sucesso da indústria tecnologica global. Qualcomm, Nvidia, AMD e MediaTek sao exemplos de empresas que dominam mercados multi-bilionarios sem possuir uma única fabrica. A chave e o design e o design e conhecimento intensivo, democratico e portatil.
A Europa deveria dominar este modelo. Tem as universidades, os centros de investigação em eletronico, as competencias em design de circuitos e uma tradicao industrial em setores utilizadores de chips avancados, como o automotiovo, a indústria e a saúde. Mas a realidade e outra: enquanto as empresas fabless representam globalmente cerca de 50% das receitas de semicondutores, a quota europeia neste segmento nao chega a 1%.
O topico HORIZON-CL4-2025-03-DIGITAL-EMERGING-08 foi concebido para atacar diretamente esta lacuna. Nao atraves de investigação de base, mas de coordenacao e advocacy, as duas areas onde o ecossistema europeu de startups fabless mais padece: falta de voz coletiva, acesso fragmentado a recursos e invisibilidade nas decisoes politicas que mais os afetam.
Um hub de coordenacao, nao um projeto de investigação
Este e um CSA, uma Acao de Coordenacao e Apoio, o que o distingue fundamentalmente dos RIA e IA que dominam o Horizonte Europa. Nao financia laboratorios nem prototipos. Financia a criação de estruturas organizacionais e de conhecimento que permitem ao ecossistema funcionar melhor em conjunto.
O aviso definiu tres grandes linhas de entrega para o projeto financiado:
- Organização representativa sustentavel: criação de uma estrutura permanente, potencialmente uma associacao industrial aberta, que represente os interesses das PME fabless europeias junto de entidades públicas, investidores e grandes clientes industriais. O modelo de governacao deve garantir participacao ampla e sustentabilidade financeira pos-projeto.
- Plataforma central de acesso: um portal de referencia ("one-stop-shop") que agrega toda a informacao critica para uma startup de design de chips. Inclui oportunidades de financiamento público e privado, evolucoes regulatorias, avancas tecnologicos, acesso a programas de tape-out subsidiado, redes de mentoria e ligacao a parceiros de fabrico (foundries).
- Representacao e advocacy: participacao ativa em forums europeus de alto nível, articulacao com a iniciativa CHIPS Act e servicos de aceleracao direcionados a startups em chips de IA, computacao de baixa potencia e sistemas para conducao autonoma.
Startups e PME de design de chips
O público direto deste instrumento nao sao os candidatos ao financiamento, mas sim os beneficiarios das estruturas que o projeto financiado criara. Em termos praticos, as organizações que mais lucram com este CSA sao:
- Startups de design de chips: empresas em fases iniciais que concebem circuitos integrados para aplicacoes especificas (ASIC), como processadores de IA, chips de comunicação, sensores ou microcontroladores de baixo consumo. Tipicamente fundadas por spin-offs universitarios ou engenheiros com experiencia em grandes empresas.
- PME de design embebido: empresas de media dimensao com competencias em FPGA, SoC ou design de IP analogico/digital que pretendam escalar para produtos proprietary em ASIC mas carecam de informacao e acesso a foundries.
- Spin-offs academicos de eletronico: equipas de investigação universitaria com resultados de investigação em design de hardware que considerem a via empresarial mas nao sabem como navegar o ecossistema industrial de semicondutores.
Portugal no mapa dos semicondutores europeus
Portugal tem uma presenca modesta mas real no design de semicondutores. Empresas como a Synopsys Portugal, grupos de investigação do INESC-ID e laboratorios de eletronico do Instituto Superior Técnico e da Universidade do Porto trabalham em areas relevantes para o design de chips. O pais tambem alberga centros de R&D de empresas como a Bosch e a Continental, que desenvolvem sistemas embebidos sofisticados.
O valor pratico do hub criado por este CSA para entidades portuguesas e multiplo. Primeiro, a plataforma centraliza informacao sobre financiamento que hoje esta dispersa por dezenas de fontes europeias e nacionais. Segundo, a representacao em forums europeus inclui vozes de paises menos representados no ecosistema de chips, como Portugal. Terceiro, o acesso a redes de tape-out subsidiado e frequentemente a barreira mais critica para startups portuguesas que querem passar de FPGA para ASIC e este hub devera facilitar esse acesso.
O que recomendamos
Este e um aviso atipico no portfolio do Horizonte Europa: dotacao reduzida (1 milhao de euros), um único projeto financiado e um enfoque organizacional em vez de tecnologico. O seu valor para a maioria das organizações nao esta em candidatar-se ao financiamento, mas em beneficiar dos resultados do projeto vencedor.
Para startups e PME de design de chips em Portugal e na Europa, a recomendacao prática e acompanhar de perto o consorcio financiado e participar ativamente nas estruturas que este criara. A associacao industrial que emergira deste projeto tera representacao nos orgaos de decisao do CHIPS Act e acesso privilegiado a programas de apoio que ainda estao a ser desenhados.
Para investidores e aceleradores com interesse em deep tech de hardware, este CSA e um sinal claro de que a UE vai continuar a investir em suporte ao ecossistema fabless. O proximo ciclo de avisos deve incluir instrumentos de maior dimensao que financiem diretamente as startups de design que este hub identifica e apoia.
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