A corrida europeia para os mundos virtuais
A Uniao Europeia lancou em 2023 uma estrategia dedicada para a Web 4.0 e os mundos virtuais, reconhecendo que as tecnologias imersivas serao infraestrutura critica da proxima decada. A visão e simples: a UE nao pode depender de plataformas e tecnologias de base desenvolvidas fora das suas fronteiras para o que sera um novo espaco de trabalho, educação e interacao social.
O topico HORIZON-CL4-2025-03-HUMAN-14 traduz essa visão em investimento concreto. Com 85 milhoes de euros destinados a investigação de nucleo em XR multimodal e fotonica aplicada, este aviso financiou os projetos que vao definir o estado da arte europeu em imersao digital durante os proximos cinco anos.
A logica de financiamento e dupla: por um lado, o Horizonte Europa cobre a investigação de base (TRL 3 a 5); por outro, a Parceria Virtual Worlds e a Parceria Fotonica garantem que o trabalho dos consorcio se articula com roteiros industriais concretos, aumentando a probabilidade de transferencia tecnologica rapida para produtos e servicos.
Duas areas, um objetivo comum
O aviso dividiu-se em duas areas complementares, cada uma com foco tecnologico distinto mas convergindo para o mesmo resultado final: experiencias imersivas mais realistas, mais responsivas e mais acessiveis ao utilizador europeu.
| Area | Foco | Tecnologias-chave |
|---|---|---|
| Area A Imersao Multimodal |
Melhorar a experiencia imersiva combinando XR com tecnologias inovadoras de interacao | Haptica avancada, audio espacial, eye tracking, interfaces neurais nao invasivas, displays adaptativos |
| Area B Fotonica para XR |
Melhorar a performance de microdisplays e dispositivos de sensing para mundos virtuais | MicroLED, LCoS avancado, optica de campo livre, sensores LIDAR miniaturizados, fibras opticas flexiveis |
A Area A e o campo da experiencia do utilizador: como tornar a imersao mais convincente atraves da combinacao de estimulos sensoriais multiplos. Os projetos nesta area trabalharam tipicamente com consorcio que incluem laboratorios de neurociencia, empresas de hardware XR e parceiros industriais com casos de uso concretos.
A Area B e tecnologia de componentes: os chips oticos e displays que tornam fisicamente possivel projetar imagens de alta resolucao num form factor de oculos ou headset. Aqui, a Parceria Fotonica trouxe o conhecimento dos grandes fabricantes europeus de componentes oticos, garantindo que a investigação de base se ancora em cadeias de produção existentes.
Dois ecossistemas, uma candidatura
A caracteristica mais diferenciadora deste aviso foi a co-implementação por duas parcerias distintas: a Parceria Virtual Worlds, vocacionada para plataformas e experiencias e a Parceria Fotonica, centrada em componentes e hardware de precisao. Esta dupla ancoragem beneficiou os candidatos de duas formas práticas.
- Acesso a redes industriais consolidadas: as parcerias trouxeram membros corporativos com capacidade de absorver resultados de investigação. Um consorcio bem construido nao precisava de "procurar mercado" apos o projeto, porque o mercado ja estava representado no projeto.
- Alinhamento com roadmaps europeus: os trabalhos financiados alimentam diretamente os roteiros tecnologicos das parcerias, aumentando a probabilidade de financiamento de continuidade em fases de inovação (IA) subsequentes.
- Criterios de avaliação favoraveis: propostas que demonstrassem contribuicao concreta para os objetivos das parcerias recebiam melhor pontuacao no criterio "relevancia", o mais ponderado na grelha do Horizonte Europa.
Perfil dos consorcio elegantes
Com 59 propostas submetidas e 8 financiadas, a taxa de sucesso rondou os 14%. Um valor superior a media do Horizonte Europa (tipicamente 10-12% em topicos RIA competitivos), o que reflecte tanto a qualidade da comunidade investigadora europeia em XR como a clareza do topico em termos de objetivos esperados.
Os consorcio vencedores combinaram habitualmente tres perfis:
- Universidades e centros de investigação: responsaveis pela investigação de nucleo em TRL 3-4, garantindo rigor científico e acesso a infraestruturas de teste.
- PME tecnologicas especializadas: tipicamente empresas de hardware XR, fabricantes de componentes oticos ou fornecedores de software imersivo, com papel de validacao e desenvolvimento de prototipos.
- Parceiros industriais de grande dimensao: empresas com capacidade de integração e escala, essenciais para demonstrar o potencial de mercado do trabalho desenvolvido.
O papel portugues no ecossistema XR europeu
Portugal tem um conjunto relevante de ativos no espaco das tecnologias imersivas. O INESC TEC, o Instituto de Telecomunicacoes e centros de investigação universitarios como os de Aveiro e Coimbra possuem competencias em processamento de sinal, visão computacional e interfaces homem-maquina que sao diretamente aplicaveis aos objetivos das Areas A e B.
Do lado empresarial, PME portuguesas na area de software e servicos digitais participaram em consorcio anteriores do Horizonte Europa neste espaco. A aposta em mundos virtuais e XR alinha-se tambem com a estrategia de especializacao inteligente (RIS3) das regioes portuguesas, nomeadamente para verticais como turismo, patrimonio cultural e indústria 4.0.
Para o proximo ciclo de chamadas, as entidades portuguesas interessadas em mundos virtuais devem comear a construir consorcio transnacionais agora, identificando parceiros nos ecossistemas das duas parcerias europeias, para estar bem posicionadas quando abrir o topico equivalente em 2026-2027.
O que recomendamos
Este aviso fechou em outubro de 2025. Para quem nao submeteu proposta, a janela imediata passou. Contudo, o topico HUMAN-14 nao e um evento isolado: e parte de um ciclo de financiamento que se vai repetir com diferentes roupagens no proximo Programa de Trabalho 2026-2027 do Horizonte Europa. As organizações que agora se preparam, constroem consorcio e desenvolvem tecnologia de base estao a posicionar-se para o proximo aviso.
Um erro comum e esperar que o aviso esteja aberto para iniciar a construcao do consorcio. Na prática, a maioria dos consorcio vencedores teve entre 12 e 18 meses de desenvolvimento de relacoes antes da submissão. Outro erro frequente e subestimar o peso da ancoragem industrial: propostas com parceiros industriais reconhecidos das Parcerias Europeias tenderam a pontuar melhor no criterio "impacto".
Para empresas portuguesas de tecnologia imersiva ou fotonica: o valor nao esta so no financiamento direto. Estar num consorcio financiado pelo Horizonte Europa num topico desta relevancia estratégica e um sinal de credibilidade que facilita financiamento privado subsequente, parcerias comerciais e acesso a programas de escala europeia.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]