O Contexto

A Europa e a batalha pela arquitetura da próxima internet

A Web 4.0 não é apenas uma evolução tecnológica. É uma disputa geopolítica sobre quem define as regras da próxima camada da internet: os protocolos de identidade, as normas de interoperabilidade entre mundos virtuais, a infraestrutura de software de código aberto que sustentará ambientes imersivos, agentes autónomos e universos digitais partilhados.

A Comissão Europeia lançou em 2023 a sua estratégia para a Web 4.0 e os Mundos Virtuais, reconhecendo que a Europa corre o risco de tornar-se consumidora passiva de tecnologias desenvolvidas fora das suas fronteiras e dos seus valores. A resposta passa por investir em blocos construtores abertos, interoperáveis e alinhados com a regulação europeia - da AI Act ao GDPR, da Digital Markets Act à Declaração Europeia sobre Direitos Digitais.

A call HORIZON-CL4-2025-03-HUMAN-16, inserida na Parceria Virtual Worlds e no Cluster 4 do Horizon Europe, financia precisamente esses blocos: investigação aplicada que produza resultados técnicos concretos, utilizáveis como fundação por outros projetos europeus, startups e administrações públicas.

Âmbito e Objetivo

O que esta call pretende produzir

O objetivo central é demonstrar de forma antecipada o enquadramento arquitetural da futura Web 4.0, composto por blocos construtores de internet de código aberto em áreas prioritárias. Os projetos devem produzir resultados técnicos reutilizáveis que outros possam integrar, não apenas investigação académica ou prova de conceito isolada.

Escala e foco da call
Com uma dotação de EUR 2,5 milhões para um único projeto, esta call é deliberadamente concentrada. A Comissão pretende um consórcio coeso que produza blocos construtores de referência, com qualidade técnica suficiente para serem adotados pela comunidade open source europeia e por outras parcerias do ecossistema Horizon.

Os resultados esperados enquadram-se em dois eixos complementares. O primeiro é técnico: contribuir para a emergência de uma arquitetura Web 4.0 aberta, assente em protocolos e normas de código aberto. O segundo é estratégico: apoiar o desenvolvimento de ecossistemas digitais centrados nos valores europeus, com alto impacto socioeconómico, através da aplicação de tecnologias de commons digitais e soluções open source em casos de uso concretos.

Os Cinco Blocos Prioritários

Onde os projetos devem incidir

A Comissão identificou cinco áreas prioritárias onde os blocos construtores de internet aberta são mais urgentes. Uma proposta competitiva deve endereçar pelo menos dois destes domínios, demonstrando articulação clara entre eles:

Bloco Construtor Problema que resolve Exemplo técnico
Identidade Ausência de sistemas de identidade digital soberanos e interoperáveis à escala europeia Identidade auto-soberana (SSI), Identificadores Descentralizados (DIDs), carteiras digitais EUDI-compatíveis
Cadeia de fornecimento de software Opacidade e vulnerabilidade da infraestrutura de software open source que sustenta a internet SBOM (Software Bill of Materials), assinatura de pacotes, auditoria de dependências críticas
Hardware aberto Dependência de hardware proprietário para infraestrutura de internet e edge computing Designs RISC-V para nós de rede, hardware certificado para ambientes de confiança
Soluções descentralizadas Concentração de poder em plataformas centralizadas, incompatível com resiliência e soberania Protocolos de comunicação P2P, federação de serviços, infraestrutura de consenso distribuído
Mundos virtuais Falta de interoperabilidade entre plataformas de realidade virtual e aumentada e ausência de normas abertas Protocolos de avatares portáteis, formatos de ativos 3D interoperáveis, APIs abertas para ambientes imersivos
Ecossistema e Sinergias

A arquitetura de parcerias que a proposta deve mapear

A Comissão é explícita: os projetos financiados por esta call devem colaborar e construir sinergias com outras iniciativas europeias relevantes. Esta não é uma sugestão editorial, é um critério de avaliação implícito - propostas isoladas perdem pontos face a consórcios que demonstrem articulação com o ecossistema mais amplo.

  • Parceria Dados, IA e Robótica (DARA): os blocos de identidade e dados têm sobreposição direta com a infraestrutura de dados do DARA. Propor pontos de integração é uma vantagem competitiva.
  • Iniciativa Next Generation Internet (NGI): o NGI financia projetos de internet aberta e descentralizada há anos. Candidatos com historial NGI ou que referenciem tecnologias NGI existentes são bem vistos.
  • Parceria Europeia de Blockchain: para o bloco de soluções descentralizadas, a articulação com a infraestrutura de blockchain europeia (EBSI) é relevante.
  • Flagship Graphene e Fotónica: para componentes de hardware aberto, a ligação a resultados de materiais avançados dos flagships reforça a credibilidade tecnológica.
  • Destination Earth e Digital Twins europeus: para o bloco de mundos virtuais, a compatibilidade com iniciativas de gémeos digitais de escala europeia abre casos de uso de alto impacto.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Esta call encerrou em outubro de 2025 e, com uma dotação de apenas EUR 2,5 milhões para um único projeto, a taxa de sucesso foi estruturalmente baixa. Para entidades que não chegaram a candidatar-se ou foram excluídas, o enquadramento estratégico desta call vale mais do que os resultados desta edição.

A lógica da Parceria Virtual Worlds está claramente orientada para 2027-2031. Calls subsequentes com objetos semelhantes, possivelmente com dotações maiores, estão previstas no Work Programme de Horizon Europe. Entidades que construam agora uma posição técnica em identidade descentralizada, interoperabilidade de mundos virtuais ou hardware aberto, estarão melhor posicionadas para a próxima janela.

Para empresas tecnológicas portuguesas, o vetor mais acessível é o bloco de identidade digital, que tem sobreposição com o ecossistema EUDI Wallet e com a transposição nacional de regulação europeia. A combinação de capacidade técnica em SSI ou DIDs com casos de uso para administração pública ou saúde digital representa um perfil de consórcio competitivo para calls futuras.

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