O que é

Materiais que se monitorizam e reparam sozinhos

O tópico HORIZON-CL4-2025-05-MATERIALS-42 financia investigação sobre materiais avançados inovadores (IAM, na sigla inglesa) aplicados ao setor da construção. A ambição é técnica e concreta: quebrar a fronteira entre materiais estruturais e funcionais, dotando cimento, betão, compósitos, têxteis técnicos, placas de gesso ou tubagens de capacidades de monitorização, autolimpeza, autorreparação e autossensorização. O propósito estratégico é reduzir os custos de manutenção em pelo menos 30% face ao estado da arte e melhorar a circularidade dos materiais em pelo menos 30%.

O tópico é uma Research and Innovation Action e opera sob a parceria europeia coprogramada IAM4EU (Innovative Advanced Materials for Europe). As atividades arrancam num nível de maturidade tecnológica baixo (TRL 3) e devem alcançar TRL 5 a 6 até ao fim do projeto, ou seja, validação em ambiente relevante.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Este tópico vive na fase de conhecimento, não na de aplicação industrial imediata. É por isso que aparece na Biblioteca sob os filtros de investigação e de sustentabilidade e não sob investimento produtivo.

  • I&D e ciência: o financiamento cobre a produção de conhecimento novo sobre fenómenos multiescala e multifísica, o desenvolvimento de sensores integrados, materiais autorreparadores e modelos de gémeo digital para prever a degradação dos materiais.
  • Sustentabilidade, energia e clima: ao prolongar a vida útil dos materiais e ao facilitar a desmontagem em componentes reutilizáveis ou recicláveis, o tópico reduz a procura de matérias-primas e alinha-se com o quadro Safe and Sustainable by Design, que exclui substâncias perigosas desde a fase de conceção.
Âmbito

O que um projeto tem de abordar

As propostas devem desenvolver materiais novos ou melhorados que aumentem a reciclabilidade, a circularidade e a segurança dos materiais de construção. A atividade de investigação é multidisciplinar e deve abordar, no mínimo, dois dos seguintes eixos.

  • Durabilidade acrescida: propriedades de autolimpeza, autorreparação e autoproteção, resistência à corrosão, erosão e fadiga, com menor necessidade de manutenção.
  • Sensorização integrada: materiais com funções de sensor incorporadas para monitorização contínua e inspeção em serviço, incluindo gestão de ativos, auto-alimentação e sensorização de múltiplos parâmetros.
  • Materiais autorreparadores: soluções recetivas a estímulos digitais que integram mecanismos de reparação autónoma em compósitos, cerâmicas, revestimentos e têxteis técnicos.
  • Modelos preditivos e gémeos digitais: modelos baseados em IA que usam dados de sensores de alta dimensionalidade para gerar planos de manutenção e reparação personalizados.

Todas as propostas devem, ainda, recorrer a tecnologias digitais e abordagens orientadas por dados, contribuir para a disponibilidade de dados FAIR e avaliar segurança, sustentabilidade e circularidade de todos os componentes ao longo do ciclo de inovação. É pedida a participação de expertise em Ciências Sociais e Humanas, sobretudo no que respeita à aceitação de materiais de construção inovadores em habitação.

Não só o material, também a cadeia
Uma exigência frequentemente subestimada: as propostas têm de tratar tanto o desenvolvimento do material como todas as tecnologias de suporte, digitais e físicas, necessárias para cobrir a cadeia de valor completa, do desenvolvimento à validação, produção, uso e fim de vida. Tecnologias já existentes que não requeiram adaptação devem ser identificadas como tal. Um projeto centrado apenas no material, sem a envolvente de produção e validação, não responde ao âmbito.
Condições

Formato, avaliação e enquadramento

O tópico correu em duas fases, com primeira etapa sob o piloto de avaliação cega: as candidaturas iniciais foram avaliadas sem revelar a identidade das organizações. O Centro Comum de Investigação da Comissão (JRC) pode integrar o consórcio selecionado. A cooperação internacional é encorajada, com menção específica ao Japão. Neste tópico, a integração da dimensão de género no conteúdo de investigação não é um requisito obrigatório.

Como Research and Innovation Action integrada nesta destinação, o tópico insere-se numa mudança de paradigma da UE quanto à disponibilidade, uso e fim de vida de químicos e materiais, ligada à autonomia estratégica aberta e à Lei das Matérias-Primas Críticas. O financiamento assume a forma de montante fixo (lump sum). As atividades destinam-se a aplicações exclusivamente civis.

Para que tipo de empresa

Quem beneficia

O beneficiário natural é um consórcio que reúna centros de investigação de materiais, produtores de betão, cimento, compósitos ou têxteis técnicos, empresas de eletrónica e sensores e atores do setor da construção. O tópico sublinha o apoio às PME para que prosperem neste ecossistema de materiais. Para uma empresa portuguesa da indústria transformadora, dos materiais de construção ou da tecnologia de sensores, o interesse não se esgota na subvenção: é a entrada numa comunidade de parceria (IAM4EU) que define a agenda europeia de materiais avançados para a próxima década.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este aviso encerrou a 14 de abril de 2026. Mantemos a ficha como referência porque a parceria IAM4EU é recente e estrutural, com um portfólio plurianual: tópicos de materiais avançados voltam a abrir em programas de trabalho seguintes do Cluster 4, com uma lógica de elegibilidade e avaliação estável. Para quem faz I&D em materiais, betão inteligente ou monitorização de infraestruturas, este tópico é um mapa fiável do que a Comissão pretende financiar.

A armadilha típica é confundir excelência científica com adequação ao âmbito. Um material extraordinário que não venha acompanhado da tecnologia de produção e validação, ou que não demonstre o salto de circularidade e de redução de manutenção pedido, fica aquém. A nossa recomendação para uma candidatura futura equivalente é desenhar o consórcio em torno da cadeia de valor completa e clarificar, desde a proposta curta, o percurso de TRL 3 até TRL 5 a 6, com objetivos quantificados de desempenho.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]