Um concurso para repensar a relação entre o trabalhador e a máquina
O tópico HORIZON-CL4-2027-02-DIGITAL-EMERGING-52 integra o Cluster 4 do Horizonte Europa, dedicado ao digital, à indústria e ao espaço. Insere-se na Destination "Leadership in materials and production for Europe" e financia projetos que desenvolvam abordagens inovadoras de inteligência artificial para a colaboração entre pessoas e máquinas no chão de fábrica da indústria avançada.
A premissa do concurso é clara: a IA pode revolucionar a colaboração humano-máquina criando um ambiente em que a tecnologia e a perícia humana se reforçam mutuamente. Em vez de substituir o trabalhador, o objetivo é capturar e formalizar o conhecimento que hoje está disperso e implícito nas equipas, tornando-o um ativo da empresa. Esse conhecimento formalizado reduz o tempo de integração de novos colaboradores e suporta a requalificação dos existentes face a um panorama tecnológico em mudança permanente.
O concurso financia ações de Investigação e Inovação (RIA, na sigla inglesa), o que significa que apoia trabalho ainda numa fase relativamente inicial de maturidade tecnológica. As atividades arrancam tipicamente num nível de maturidade tecnológica (TRL) de 4 a 5 e devem alcançar o TRL 6 até ao final do projeto, ou seja, demonstração da tecnologia em ambiente relevante.
Necessidades que este instrumento resolve
Este concurso situa-se na fronteira entre a investigação aplicada e a transformação digital da indústria. Não financia a compra de equipamento produtivo nem a expansão de capacidade instalada. Financia o trabalho de conceber, testar e validar novas abordagens de IA que ainda não existem no mercado e que aproximam a automação das necessidades reais de quem opera as máquinas.
- I&D e ciência: o concurso apoia ações de investigação e inovação que partem de TRL 4-5 para TRL 6. O cerne do trabalho é científico e experimental, desde modelos de interação natural humano-IA até à captura e formalização de conhecimento tácito de operadores especializados.
- Digitalização e IA: o objeto direto do financiamento são abordagens de inteligência artificial aplicadas ao chão de fábrica, com interfaces intuitivas, feedback em tempo real e sistemas que se adaptam automaticamente às capacidades e necessidades de cada trabalhador.
O que os projetos têm de entregar
As propostas devem produzir abordagens dedicadas de IA para a colaboração humano-máquina na indústria avançada, com aplicação em pelo menos dois dos três campos definidos pelo concurso:
- Co-aprendizagem humano-IA e captura de conhecimento: sistemas que partilham competências, capturam o conhecimento de peritos, oferecem mentoria interativa para requalificar a força de trabalho e suportam formação contínua, evitando a perda de saber-fazer ao nível da fábrica.
- Trabalho em equipa humano-IA: modelos de interação natural inovadores, incluindo o hardware e as ferramentas colaborativas associadas, que permitam controlar a complexidade em sistemas de produção cognitivos e cooperativos, abrangendo o planeamento ao nível do chão de fábrica.
- Interfaces adaptativas: interfaces com a automação que se ajustam automaticamente às necessidades das pessoas, incluindo diferentes capacidades e diferentes contextos culturais, facilitando a inclusão e a exportação de automação produzida na Europa.
Os resultados esperados são duplos. Por um lado, postos de trabalho industriais transformados por interações humano-máquina baseadas em IA, com ganhos de flexibilidade, bem-estar, requalificação e partilha de conhecimento. Por outro, maior competitividade e sustentabilidade da indústria transformadora avançada, através da formalização do conhecimento e da adaptabilidade das máquinas aos trabalhadores e aos mercados.
Elegibilidade e formato do consórcio
Como é regra nas ações de investigação e inovação do Horizonte Europa, a candidatura faz-se em consórcio transnacional. Reúne tipicamente empresas, universidades, centros de investigação e outras entidades estabelecidas nos Estados-Membros da União Europeia e nos países associados ao programa. As regras de elegibilidade de participantes e de composição mínima do consórcio constam do documento de concurso e dos Anexos Gerais do Horizonte Europa.
Para uma empresa portuguesa da indústria transformadora, da metalomecânica, da eletrónica ou do software industrial, o interesse está menos em liderar de raiz um consórcio europeu e mais em entrar como parceira que traz um caso de uso real de fábrica. As propostas devem, aliás, incluir um business case e uma estratégia de exploração dos resultados, o que abre espaço a parceiros industriais com problemas concretos para resolver. O tópico implementa as parcerias europeias co-programadas Made in Europe e AI, Data and Robotics, redes onde o tecido industrial europeu já está organizado.
O concurso convida ainda as propostas a construir sobre os resultados de projetos anteriores em tecnologias de realidade alargada (XR), sinal de que a Comissão valoriza a continuidade e a capitalização do que já foi financiado em ciclos anteriores.
Um concurso em duas fases
Este tópico segue o modelo de duas fases (two-stage). Numa primeira fase, os consórcios submetem uma proposta mais curta, focada na ideia e no seu potencial. Apenas as propostas selecionadas nessa triagem são convidadas a desenvolver a candidatura completa numa segunda fase, com o detalhe técnico e orçamental integral. O prazo da primeira fase é 02 de fevereiro de 2027.
O modelo em duas fases reduz o esforço inicial exigido às equipas e permite testar a solidez do conceito antes de investir na proposta detalhada. É um formato que favorece quem chega cedo à conversa, com tempo para encontrar os parceiros certos e amadurecer o caso de uso. A taxa de financiamento das ações de investigação e inovação do Horizonte Europa é de 100% dos custos elegíveis, acrescida de uma taxa fixa para custos indiretos.
O que recomendamos
Concursos do Cluster 4 como este são exigentes, mas raramente são oportunidades isoladas. Quem já trabalha em Indústria 4.0, automação ou digitalização de processos tem aqui uma via para financiar a 100% o salto de investigação que de outra forma adiaria por falta de orçamento interno. A chave não é a tecnologia em abstrato, é o caso de uso de fábrica real e demonstrável que uma empresa portuguesa pode trazer a um consórcio europeu.
O erro comum é tratar a candidatura como um exercício administrativo de última hora. Um consórcio competitivo constrói-se com meses de antecedência. Os requisitos transversais (perspetiva de género, inclusão, contributo das Ciências Sociais e Humanas, mitigação de enviesamentos) não são caixas a assinalar no fim. São critérios de avaliação que distinguem propostas financiadas de propostas recusadas. O prazo da primeira fase em fevereiro de 2027 parece distante, mas o trabalho de posicionamento começa agora.
Para empresas que ponderam entrar pela primeira vez no Horizonte Europa, faz sentido avaliar primeiro o encaixe entre o que já fazem e os campos do concurso e depois decidir se entram como parceiras de um consórcio existente ou se ancoram a proposta. Essa decisão condiciona tudo o resto, do orçamento ao papel na execução.
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