O que é

Quebrar o estrangulamento europeu de compute de IA

O tópico HORIZON-CL4-2027-04-DATA-03 financia investigação aplicada em arquiteturas, ferramentas e técnicas que permitam à IA tirar partido de recursos computacionais distribuídos ao longo do continuum cloud-edge-HPC. A premissa é estratégica: a Europa tem capacidade de compute centralizado limitada face aos hiperescaladores americanos e à expansão chinesa e tem dependência crítica em poucos tipos de chips de IA. A resposta da Comissão é financiar alternativas descentralizadas, que escalem por agregação de recursos heterogéneos em vez de concentração em data centers monolíticos.

O tópico aborda todo o ciclo de vida do modelo de IA: recolha de dados, treino, fine-tuning e deployment. Não se limita a federated learning, vai mais longe, exigindo arquiteturas "compute continuum" que façam o trabalho de IA correr sobre múltiplas infraestruturas computacionais simultaneamente, incluindo paradigmas emergentes como computação neuromórfica e quântica.

A dotação para 2027 é de 35 milhões, distribuídos por dois grants de 17,5 milhões cada, formato RIA. Os projetos partem de TRL 3 e chegam a TRL 6-7, com obrigação de demonstrar a tecnologia em pelo menos dois casos de uso em domínios diferentes. A escala individual dos grants e a duração tipo de quatro anos justificam consórcios densos, com 10 a 20 partners e divisão clara entre I&D nuclear, integração e validação em casos de uso.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Não é instrumento para implementar IA num setor específico. É instrumento para construir as ferramentas e técnicas que permitirão à IA europeia escalar com a arquitetura computacional disponível e fazê-lo de forma energeticamente sustentável.

  • I&D e ciência: o tópico é I&D fundamental aplicada. Financia o desenvolvimento de arquiteturas distribuídas para IA, métodos de compressão de modelos, mecanismos de federated learning avançado, técnicas de gestão de dados distribuídos preservando privacidade, monitorização de eficiência energética end-to-end. Os outputs são publicações académicas, frameworks open source e propriedade intelectual fundamental.
  • Digitalização e IA: é o tópico de IA mais infraestrutural da call CL4-04. Não constrói aplicações de IA, constrói o substrato que permite que aplicações de IA corram em condições reais. Aborda compute continuum, integração de computação neuromórfica e quântica, in-memory computing, otimização energética e segurança criptográfica pós-quântica.
  • Sustentabilidade, energia e clima: o tópico exige métodos para medir, monitorizar e melhorar a eficiência energética e a sustentabilidade do processamento de dados de IA ao longo do continuum computacional. Inclui análise das implicações energéticas das arquiteturas de IA heterogéneas e do seu impacto no design de longo prazo da infraestrutura de compute. É um tópico onde IA e clima se cruzam diretamente.
Âmbito

Quatro frentes de investigação

As propostas devem cobrir as quatro frentes definidas pela Comissão, ou justificar com clareza a omissão de alguma. As frentes não são alternativas, são camadas de uma mesma arquitetura.

  • Arquiteturas compute continuum para IA: investigação em arquiteturas distribuídas, descentralizadas e federadas para IA, indo além de federated learning standard. Integração de ferramentas de compressão de modelos e mecanismos novos para escalar processamento de IA por múltiplas infraestruturas heterogéneas.
  • Workflows de IA em infraestruturas heterogéneas: desenvolvimento, deployment e operação de workflows ao longo do continuum (edge, cloud, HPC), com possibilidade de incluir computação neuromórfica e quântica, in-memory computing e eficiências de hardware como aproximação computacional.
  • Disponibilidade e consistência de dados: métodos novos para garantir qualidade de dados em fontes distribuídas (prevenção de desequilíbrio ou inconsistência), otimização de volumes de dados transferidos, gestão distribuída, preservação de privacidade com criptografia pós-quântica.
  • Eficiência energética end-to-end: novas ferramentas e mecanismos para medir, monitorizar e melhorar a sustentabilidade do processamento de IA ao longo do continuum, incluindo a exploração das implicações energéticas das arquiteturas heterogéneas.
Validação em pelo menos dois domínios
A call exige demonstração em pelo menos dois casos de uso em domínios diferentes, cobrindo aplicações e setores críticos para a competitividade europeia. Os casos de uso têm de ser convincentes, com cenários de aplicação claros e reprodutibilidade dos resultados para outros setores económicos.
Estrutura financeira

Grants de larga escala

A dimensão dos grants (17,5 milhões cada) coloca este tópico no grupo dos maiores RIAs do Cluster 4 para 2027. A escala justifica-se pela ambição da call: cada grant tem de cobrir investigação em quatro frentes, integração de paradigmas computacionais emergentes e demonstração em múltiplos casos de uso. Os consórcios competitivos têm tipicamente 15 a 20 partners, com divisão clara entre work packages de I&D nuclear, integração de continuum, validação em casos de uso e atividades transversais (gestão, comunicação, exploração).

ParâmetroValor
Dotação total 2027€35 milhões
Número esperado de grants2
Contribuição por grant€17,5 milhões (mín = máx)
Tipo de açãoHORIZON-RIA, Research and Innovation Action
Modelo de custosCustos reais, MGA HORIZON-AG
TRL alvo3 a 6-7
Casos de uso obrigatóriosPelo menos 2 em domínios diferentes
Abertura prevista17 de novembro de 2026
Deadline18 de março de 2027
Elegibilidade

Países elegíveis e proteção estratégica

A elegibilidade é mais apertada do que o standard. Por razões de proteção dos interesses estratégicos da União, participação limitada a entidades estabelecidas em Estados-Membros, Islândia, Noruega e nos seguintes países associados adicionais: Canadá, Israel, Coreia do Sul, Nova Zelândia, Suíça e Reino Unido. Outros países terceiros podem ser elegíveis se forem identificados como tal na Lista de Participating Countries do Horizonte Europa à data da submissão.

Entidades estabelecidas em país elegível mas direta ou indiretamente controladas por país não-elegível podem participar, mas apenas se demonstrarem com garantias positivamente avaliadas pelo país de estabelecimento que a sua participação não compromete os interesses estratégicos da União. Entidades classificadas como high-risk suppliers de equipamento de redes móveis (ou suas controladas) ficam excluídas sem possibilidade de garantia. A documentação Ownership Control Declaration é obrigatória.

Posicionamento PT

Onde Portugal pode contribuir

Portugal tem capacidade fragmentada mas relevante neste espaço. O INESC TEC, o IT, o INESC-ID, a Universidade do Minho (Centro Algoritmi), a Universidade de Aveiro (IT), o LIP (computação distribuída) e os centros do IST têm produção e infraestrutura em compute distribuído, federated learning e otimização de IA. A capacidade nacional de HPC concentra-se no INCD e nas redes RNCA, com ligação ao supercomputador Deucalion no Minho. Para edge computing e IoT, empresas portuguesas como a Critical Software, a Bosch CM e startups deep tech têm pipeline operacional.

Para empresas portuguesas, o caminho competitivo é fornecer casos de uso em domínios onde a IA descentralizada faz diferença operacional clara: telecomunicações (5G/6G edge), automóvel (deteção e processamento on-vehicle), saúde (federated learning em dados clínicos), indústria 4.0 (otimização de produção descentralizada). Os reviewers valorizam consórcios com casos de uso operacionais reais, não simulados em laboratório.

Avaliação

Como será pontuada a proposta

A avaliação segue o modelo RIA do Horizonte Europa, com três critérios. A escala individual dos grants e a complexidade técnica multiplicam as exigências e os reviewers são habitualmente investigadores com produção em sistemas distribuídos, IA, HPC e arquitetura computacional.

  • Excelência: ambição face ao estado da arte em federated learning, distributed AI e compute continuum, coerência da abordagem científica, integração credível de paradigmas emergentes (neuromórfica, quântica), validade da estratégia de demonstração em múltiplos domínios.
  • Impacto: contributo para reduzir a dependência europeia em compute centralizado e em chips específicos, escalabilidade dos resultados, potencial de adoção industrial, plano de exploração open source vs proprietário, alinhamento com a estratégia europeia de autonomia em IA.
  • Implementação: capacidade técnica e infraestrutural do consórcio, balanço entre I&D, integração e validação, gestão de risco em sistemas distribuídos complexos, work plan, plano de gestão de dados e propriedade intelectual.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Dois grants no universo elegível significa competição altíssima. Os candidatos prováveis incluem grandes RTOs (IMEC, Fraunhofer, CEA, VTT, TNO, BSC), redes nacionais de HPC e consórcios industriais com partners de grande dimensão como Telefónica, Nokia, Atos/Eviden, Siemens e fabricantes europeus de chips. Para entidades portuguesas, o caminho competitivo passa por integração em consórcios europeus já estruturados.

Primeiro, dada a escala dos grants, fazer parte do consórcio é a única opção realista para a maioria das entidades portuguesas. Liderar um consórcio Horizon RIA de 17,5 milhões exige experiência prévia em coordenação de grandes projetos H2020 ou HORIZON, capacidade de gestão financeira e legal de consórcio de 15+ partners e relacionamento europeu denso. Poucas instituições portuguesas têm esse perfil em IA infraestrutural.

Segundo, o valor diferenciador para entidades portuguesas é tipicamente um destes três: capacidade técnica nicho em segmento específico do continuum (edge, federated learning, in-memory), caso de uso operacional em domínio com tração europeia (5G, saúde, automóvel), ou capacidade de teste em ambiente nacional (Deucalion para HPC, redes 5G nacionais, hospitais com dados clínicos). A entrada no consórcio tem de ser sustentada por um destes elementos, não por disponibilidade genérica.

Terceiro, o pipeline de aproximação a consórcios europeus tem de começar de imediato. Os consórcios competitivos para esta call estarão já a desenhar-se em redes como Big Data Value Association, ETP4HPC, EuroHPC JU, AI Alliance e similares. Quem não estiver nessas conversas até ao verão de 2026 dificilmente entrará em consórcio competitivo a tempo do deadline de março de 2027.

Para instituições portuguesas com capacidade técnica neste espaço, recomendamos avaliar com seriedade a entrada em um ou dois consórcios europeus competitivos, com contributo identificável e plano de trabalho concreto. Estamos disponíveis para apoiar a triagem de oportunidades, a articulação com consórcios em formação e a estruturação da proposta de valor da entidade portuguesa.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]