A call do Horizonte Europa para a próxima geração de baterias
A call HORIZON-CL5-2027-04-Two-Stage cobre vários tópicos do Cluster 5 (Climate, Energy and Mobility) do Horizonte Europa, mas o tópico específico que abre nesta janela é o D2-07, dedicado a conceitos de bateria de próxima geração com base em materiais avançados inovadores. O tópico implementa simultaneamente duas parcerias europeias co-programadas: a Batt4EU, focada em baterias e a IAM4EU, focada em materiais avançados inovadores para a UE.
A racional é industrial. A Europa quer reposicionar-se na cadeia de valor das baterias, hoje dominada pela Ásia e fazê-lo com tecnologias diferenciadoras que não dependam tanto de matérias-primas críticas. O tópico financia projetos de Research and Innovation Action (RIA) com modelo lump sum, em formato two-stage: primeira fase com submissão curta avaliada às cegas, segunda fase com submissão completa para os projetos que passem o threshold.
A ambição técnica é definida em três áreas alternativas, das quais o consórcio escolhe uma. Cada área visa um segmento de mercado distinto, com indicadores de desempenho próprios e benchmark face ao estado-da-arte exigido.
Necessidades que este instrumento resolve
O D2-07 cruza investigação fundamental e transição industrial: produz conhecimento novo (química, materiais, integração de células), mas com objetivo explícito de escalabilidade, manufaturabilidade e relevância de mercado. Ambas as necessidades têm de estar presentes em qualquer proposta competitiva.
- Investigação e ciência: o tópico financia o desenvolvimento e validação experimental de novas químicas (lítio-ião baixo custo, sódio-ião, químicas de alta densidade energética, materiais avançados para armazenamento estacionário), com targets quantificados de desempenho. Pessoal técnico afeto à I&D, equipamentos de caracterização, ensaios em célula e em sistema e benchmarking face ao estado-da-arte são despesas centrais.
- Sustentabilidade, energia e clima: todas as áreas exigem aplicação do framework Safe and Sustainable by Design (SSbD) e avaliação de reciclabilidade, segurança e gestão térmica. O tópico contribui diretamente para a descarbonização da mobilidade (elétrica, aviação, marítima) e para a integração de renováveis na rede via armazenamento estacionário, áreas estruturais do Green Deal.
Escolher entre baixo custo, alta performance ou estacionário
O tópico organiza as propostas em três áreas alternativas. A escolha define o perfil do consórcio, os parceiros industriais relevantes e o tipo de testes em final-of-project. Cada proposta deve cobrir todos os bullet points da área escolhida e o consórcio deve declarar explicitamente que área aborda.
| Área | Foco | Indicador alvo |
|---|---|---|
| A. Baixo custo | Lítio-ião e sódio-ião para mobilidade elétrica e armazenamento estacionário, minimizando matérias-primas críticas | Custo de componentes (materiais ativos e inativos principais) inferior a 35 EUR por kWh |
| B. Alta performance | Químicas avançadas para aviação e mobilidade exigente | Densidade energética superior a 500 Wh/kg e/ou densidade de potência acima do estado-da-arte para a aplicação |
| C. Estacionário | Materiais avançados e conceitos de célula para armazenamento estacionário ligado à rede ou a indústria intensiva | Custo a nível de sistema inferior a 50 EUR por kWh em aplicações de grid; durabilidade sob carga contínua em aplicações industriais |
A dimensão técnica do projeto
O projeto deve atingir TRL 4-5 no final, indicando validação em laboratório ou ambiente controlado de células e sistemas funcionais, mas não ainda demonstração industrial. Empresas com vocação para escalar resultados (Tier 1 automotivo, fabricantes de células, integradores de sistemas de armazenamento) entram tipicamente como parceiros estratégicos, embora a execução técnica seja partilhada com institutos tecnológicos e universidades.
Os elementos transversais a todas as propostas
Para além dos targets específicos de cada área, o tópico exige que todas as propostas avaliem cinco eixos transversais. Estes definem a linguagem comum das partnerships Batt4EU e IAM4EU e o seu tratamento na proposta diferencia projetos genuinamente integrados de projetos apenas focados em desempenho.
- Escalabilidade, manufaturabilidade e relevância de mercado: demonstração explícita do path-to-market e parceiros industriais com capacidade de absorção.
- Ciclo de vida estendido, reciclabilidade económica e sustentabilidade by design: aplicação do framework SSbD e plano de fim de vida.
- Segurança aumentada, gestão térmica, monitorização de desempenho e diagnóstico preditivo: elementos críticos especialmente nas áreas B e C.
- Avaliação cega na primeira fase: a parte B da submissão Stage 1 deve omitir nomes de organizações, acrónimos e personal-identifiers. Erros de redação aqui levam a rejeição administrativa.
- Possível envolvimento do JRC: o Joint Research Centre da Comissão pode integrar consórcios como beneficiário com financiamento zero ou como associated partner. A informação sobre o contributo concreto do JRC é publicada via FAQ do topic.
Marcos e deadlines
| Marco | Data |
|---|---|
| Abertura da call (Stage 1) | Q2 2026 (data exata no F&T Portal) |
| Deadline Stage 1 | 14 de abril de 2027 (estimativa, conforme registo na queue) |
| Deadline Stage 2 | 2nd deadline para propostas pré-aprovadas (Q3 2027 esperado) |
| Avaliação | Two-stage, com Stage 1 em formato cego |
| Modelo | HORIZON-RIA, lump sum (HORIZON-AG-LS) |
Para quem em Portugal este tópico é relevante
Portugal tem uma posição emergente na cadeia de valor das baterias, ancorada em projetos de lítio em Boticas e Montalegre, na investigação no LNEG, INESC-TEC, CICECO-UA, CIICESI-IPP e CEMUC e em ambições industriais de empresas como a Energy Storage Solutions, a Bondalti, a CaetanoBus, a Efacec, a Powerdot ou startups como a CleanWatts e Hytechcycling. Para qualquer destes atores, o D2-07 abre porta para integração em consórcios europeus de topo, em áreas técnicas que historicamente Portugal não dominou. A entrada é tipicamente como parceiro, raramente como coordenador, dado o peso de centros tecnológicos alemães, holandeses e franceses neste domínio.
A área C, dedicada a armazenamento estacionário, é particularmente relevante para empresas portuguesas envolvidas em armazenamento ligado à rede, microgrids e BESS industriais. A área A interessa fabricantes e integradores que trabalhem em mobilidade urbana e armazenamento residencial.
O que recomendamos
Em tópicos competitivos como o D2-07, o sucesso depende menos da qualidade técnica isolada e mais da arquitetura do consórcio. Quatro pontos costumam fazer a diferença entre propostas competitivas e propostas que não passam Stage 1.
Primeiro, definir cedo qual das três áreas o consórcio aborda. Tentar misturar áreas, ou ser ambíguo na escolha, mata a competitividade. A área tem implicações diretas no perfil de parceiros: A pede grandes fabricantes de células e OEMs automóveis, B pede empresas aeronáuticas ou marítimas com programas de eletrificação, C pede operadores de rede, integradores BESS ou empresas industriais com fornos elétricos.
Segundo, demonstrar com dados quantificados o benchmark face ao estado-da-arte. O tópico exige que o consórcio compare os seus targets aos benchmarks identificados na Strategic Research and Innovation Agenda da Batt4EU. Faltar este exercício, ou apresentá-lo de forma genérica, sinaliza falta de profundidade técnica.
Terceiro, respeitar rigorosamente as regras de blind evaluation na Stage 1. Cada referência a uma instituição, cada lista de publicações nominal, cada figura com logotipo identificável pode causar rejeição administrativa. Recomendamos peer review interna explicitamente focada em detetar marcadores de identidade antes da submissão.
Quarto, trabalhar cedo o plano de exploração e sustainability by design. O tópico premia projetos com path-to-market credível e plano de reciclabilidade económica. A componente IAM4EU, em particular, valoriza inovação em materiais com cadeia de fornecimento europeia. Para entidades portuguesas que considerem candidatar-se a este tópico, seja como coordenador, parceiro técnico ou parceiro industrial, é útil discutir cedo o alinhamento estratégico face às prioridades Batt4EU/IAM4EU e o desenho de uma proposta competitiva. Estamos disponíveis para essa conversa.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]