A corrida às baterias de baixo custo para o mercado de massa
A paridade de custo entre veículos elétricos e veículos de combustão interna depende, em larga medida, de uma variável: o custo da bateria. As células de iões de lítio NMC dominaram o mercado nos últimos anos pela densidade energética, mas o seu custo e a dependência de cobalto e níquel limitam a penetração no segmento de veículos acessíveis. A China apostou cedo nas químicas LFP (fosfato de ferro e lítio) e ião-sódio, conquistando vantagem competitiva no segmento de baixo custo que a Europa ainda tenta contrariar.
O tópico HORIZON-CL5-2026-01-D2-01 financia uma Research and Innovation Action de €30 milhões no âmbito da parceria Batt4EU para desenvolver células de próxima geração com foco explícito em custo, sustentabilidade e circularidade. As químicas alvo são LMFP (fosfato de ferro, manganês e lítio), HLM (lítio rico em manganês) e ião-sódio - todas candidatas viáveis ao mercado europeu de mobilidade acessível.
O que o projeto deve desenvolver e demonstrar
O programa de trabalho define requisitos técnicos detalhados para os projetos financiados por este tópico. A abordagem deve ser integrada - desde a química da célula até à produção em escala piloto - e incluir componentes de circularidade:
- Química de célula de próxima geração: desenvolvimento e otimização de células baseadas em LMFP, HLM ou ião-sódio, com performance KPIs definidos para aplicações de mobilidade (densidade energética, taxa de carga, temperatura de operação).
- Processos de fabrico eficientes: integração de rotas de produção eficientes em energia e recursos, incluindo revestimento seco/aquoso, secagem avançada, formação rápida e conceitos de sala limpa de baixa energia.
- Produção piloto à escala: demonstração de células em formato EV-grade (formato adequado a aplicações de mobilidade elétrica) que cumpram os KPIs de performance definidos.
- Circularidade integrada: validação de pelo menos uma solução de design-for-circularity, incluindo reutilização, reciclagem direta, sensores inteligentes para monitorização de degradação ou quantificação precoce de degradação.
- Avaliações SSbD e LCA/LCC: avaliações completas Safe-and-Sustainable-by-Design, análise de ciclo de vida (LCA) e análise de custo do ciclo de vida (LCC), incluindo impacto socioeconómico.
| Química Alvo | Vantagem Principal | Desafio |
|---|---|---|
| LMFP | Baixo custo, segurança, estabilidade térmica | Densidade energética inferior ao NMC |
| HLM | Alta densidade energética, sem cobalto | Degradação de capacidade, gestão de tensão |
| Ião-sódio | Abundância de sódio, custo muito baixo | Densidade energética ainda em desenvolvimento |
Para que tipo de organização?
Este tópico exige consórcios com capacidade técnica sofisticada em química de baterias, materiais avançados e processos de fabrico. O perfil típico inclui:
- Produtores de células ou fabricantes de baterias com instalações piloto ou capacidade de escalonamento.
- Fabricantes de materiais ativos (cátodos, ânodos) com competência em LMFP, HLM ou ião-sódio.
- Universidades e institutos de investigação com laboratórios de eletroquímica, ciência de materiais ou engenharia de processos.
- Fabricantes de equipamento de produção com capacidade de desenvolver processos de fabrico mais eficientes.
- OEMs automóveis ou integradores de sistemas de bateria para validação das células em aplicações de mobilidade reais.
Em Portugal, o LNEG (Laboratório Nacional de Energia e Geologia) e centros universitários com investigação em eletroquímica e materiais para energia têm perfil relevante. A participação mais natural é como parceiro de investigação em química de materiais ou LCA, integrando consórcios liderados por institutos especializados alemães (Fraunhofer), franceses (CEA) ou nórdicos com tradição nestas parcerias.
O que recomendamos
O tópico D2-01 é de alto impacto estratégico mas de acesso difícil para organizações portuguesas sem uma massa crítica industrial em baterias. Portugal não tem ainda uma produção de células estabelecida. Contudo, a chegada de projetos de gigafactories na Península Ibérica e o interesse crescente de fornecedores automóveis nacionais em componentes de mobilidade elétrica criam uma janela de oportunidade.
A estratégia mais realista a curto prazo é o posicionamento em componentes específicos da cadeia: avaliações LCA, desenvolvimento de processos de reciclagem de baterias, ou sistemas de monitorização de condição. A médio prazo, o investimento em parcerias com institutos europeus de referência em Batt4EU é o caminho para construir o track-record necessário para liderar candidaturas futuras.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]