Software como vantagem competitiva no veículo elétrico
A próxima fronteira na competitividade dos veículos elétricos não está nas células da bateria - está no software. Os grandes fabricantes automóveis globais investem cada vez mais em arquiteturas definidas por software (software-defined vehicles, SDV) que permitem atualizações over-the-air, personalização de condução, gestão dinâmica de energia e integração com redes elétricas inteligentes. A Europa, que perdeu terreno nos últimos anos para fabricantes chineses no segmento de custos, precisa de recuperar competitividade através da diferenciação tecnológica.
O tópico HORIZON-CL5-2026-05-D5-02, inserido na parceria 2ZERO do Horizonte Europa, financia uma Innovation Action (IA) de €16 milhões para desenvolver soluções que integrem funcionalidades de software de alto nível com hardware de propulsão e chassis otimizado. O objetivo não é apenas aumentar a eficiência energética, mas criar arquiteturas escaláveis adequadas ao mercado de massa.
O que o projeto deve desenvolver e demonstrar
A IA deve abordar a integração profunda entre software e hardware no veículo elétrico, cobrindo os seguintes domínios técnicos:
- Arquitetura holística do EV: otimização conjunta do sistema de propulsão (motor, inversor, transmissão) e chassis (suspensão, direção, travagem) com software centralizado de controlo.
- Gestão inteligente de energia: algoritmos de controlo adaptativo que maximizem a autonomia real em diferentes condições de condução, temperatura e carga, com recurso a IA quando tecnicamente justificado.
- Interfaces padronizadas: soluções de hardware com interfaces físicas e de controlo normalizadas (incluindo compatibilidade com ISO 15118-20 para carregamento bidirecional) para acelerar a inovação e reduzir fragmentação.
- Capacidade de carregamento rápido: integração de funcionalidades que suportem carregamento rápido sem degradação acelerada da bateria, mantendo a segurança do sistema.
- Escalabilidade para o mercado de massa: demonstração de que as soluções são economicamente viáveis em volumes de produção relevantes para o mercado europeu de veículos acessíveis.
Quem pode candidatar-se
As Innovation Actions do Horizonte Europa estão abertas a consórcios multinacionais que incluam pelo menos três entidades de três países diferentes. Para este tópico, o perfil típico do consórcio combina capacidade industrial com competência tecnológica:
- Fabricantes de veículos elétricos ou Tier-1 com capacidade de desenvolvimento de sistemas de propulsão.
- Empresas de software automóvel especializadas em sistemas embarcados, ADAS ou gestão de energia de veículos.
- Fornecedores de eletrónica de potência (inversores, conversores DC/DC, sistemas de gestão de bateria).
- Universidades e institutos de I&D com competências em engenharia de controlo, IA embarcada ou sistemas de mobilidade elétrica.
- Operadores de frotas para validação em condições reais de operação.
Em Portugal, empresas de engenharia automóvel como a Altran (Capgemini Engineering), fornecedores de componentes eletrónicos, institutos como o ISR (Instituto de Sistemas e Robótica) e centros tecnológicos do setor automóvel têm perfil relevante para participar em consórcios desta natureza - frequentemente como parceiros técnicos ou de validação.
| Perfil de Parceiro | Papel no Consórcio | Relevância Portugal |
|---|---|---|
| OEM / Fabricante EV | Liderança técnica, integração sistémica | Limitada (sem OEM nacional) |
| Tier-1 / Fornecedor | Desenvolvimento de subsistemas | Moderada (fornecedores automóvel) |
| Software / IA Automóvel | Algoritmos, firmware, gestão energia | Boa (engenharia software embarcado) |
| I&D / Universidade | Investigação fundamental, validação | Boa (IST, FEUP, ISR) |
| Operador de Frota | Testes em ambiente real | Moderada (municípios, empresas) |
O que recomendamos
O tópico D5-02 é tecnicamente exigente e requer um consórcio com massa crítica industrial que Portugal dificilmente lidera isoladamente. A estratégia mais realista para empresas e centros de investigação portugueses é integrar consórcios liderados por parceiros alemães, franceses ou espanhóis, onde a contribuição portuguesa se centra em software embarcado, algoritmos de controlo ou validação em frotas reais.
Para as próximas edições, recomendamos iniciar a prospeção de parceiros com pelo menos 12 a 18 meses de antecedência, participar em eventos de matchmaking organizados pelos National Contact Points e mapear os consórcios que submeteram propostas nesta edição - frequentemente disponíveis em CORDIS após avaliação - para identificar parceiros potenciais que possam incluir participantes portugueses em futuras submissões.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]