O que é

A aposta europeia em IA que não seja só estatística

DeepRAP, acrónimo de Deep Reasoning, Abstraction & Planning, é o terceiro desafio temático do EIC Pathfinder Challenges 2026, identificado pelo código HORIZON-EIC-2026-PATHFINDERCHALLENGES-01-03. O desafio enquadra a posição estratégica da Comissão Europeia sobre o futuro da inteligência artificial: o reconhecimento de que os grandes modelos de linguagem e os sistemas de aprendizagem profunda atuais, apesar do impacto que tiveram, falham em capacidades cognitivas centrais como raciocínio lógico, abstração, planeamento hierárquico e transferência fiável entre domínios.

O programa procura financiar consórcios europeus que desenvolvam novas arquiteturas de IA, incluindo abordagens neuro-simbólicas, capazes de ir além do reconhecimento de padrões e produzir sistemas que raciocinem, planeiem e expliquem decisões de forma compatível com o EU AI Act. A combinação de ambição científica, alinhamento regulatório e prazo de submissão único faz deste um dos desafios Pathfinder mais visados em 2026.

Não é um financiamento para aplicar IA generativa a casos de uso vertical. É financiamento para reescrever a base científica do que se entende por inteligência artificial fiável.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

O DeepRAP cobre a fronteira entre investigação fundamental em ciências da computação e a transformação digital empresarial baseada em IA. É um instrumento de capital não diluitivo dirigido a equipas que combinam capacidade científica de fronteira com hipóteses concretas sobre como construir IA mais fiável.

  • I&D e ciência: o programa financia investigação fundamental em raciocínio simbólico, lógica formal, planeamento hierárquico, transfer learning, IA neuro-simbólica e métodos de explicabilidade. Despesas elegíveis cobrem pessoal científico, infraestrutura computacional, datasets e subcontratação a centros de investigação especializados.
  • Digitalização e IA: as propostas têm de demonstrar como o avanço científico se traduz em sistemas de IA aplicáveis. O programa procura projetos onde a investigação alimente, num horizonte de 5 anos, plataformas tecnológicas para descoberta científica, suporte à decisão clínica ou industrial, ou sistemas autónomos verificáveis.
Foco científico

Que arquiteturas a Comissão quer financiar

O texto do desafio define um espaço técnico específico, distinto da generalidade dos chamamentos de IA do Cluster 4. Os pontos que delimitam propostas elegíveis:

  • Capacidades cognitivas profundas: raciocínio lógico genuíno, pensamento abstrato, planeamento hierárquico em horizonte longo e transferência de aprendizagem entre domínios distintos. São capacidades que os modelos generativos atuais aproximam por estatística mas não realizam de forma robusta.
  • Arquiteturas neuro-simbólicas: integração entre redes neuronais (eficientes em perceção e padrões) e representações simbólicas (eficientes em manipulação lógica e composicionalidade). É uma das vias mais promissoras para sistemas que raciocinem e expliquem o seu raciocínio.
  • Confiança por design: explicabilidade, transparência, equidade, alinhamento com o EU AI Act. As propostas têm de incorporar estas dimensões na arquitetura e não apenas como camada acessória de auditoria.
  • Validação a TRL 4: o programa exige demonstrações integradas em tarefas reais complexas, como descoberta científica assistida ou apoio à decisão, mais o desenvolvimento de novos benchmarks e métricas para esta classe de sistemas.
Sinal de leitura
O programa rejeita explicitamente propostas que se limitem a treinar modelos de fundação maiores ou a aplicar LLMs comerciais a um caso de uso. Tem de existir contribuição arquitetónica original, idealmente apoiada por consórcio multidisciplinar que combine ciência da computação, lógica matemática e domínio de aplicação.
Ficha financeira

Quanto vale e como se distribui

€32M
Dotação do Challenge
€4M
Máximo por projeto
100%
Taxa de cofinanciamento
5anos
Duração recomendada

O envelope de 32 milhões de euros para este desafio integra o conjunto de 96 milhões alocado aos três Challenges Pathfinder de 2026. Cada projeto pode pedir até 4 milhões de euros, com cofinanciamento a 100% e overheads forfaitários a 25%. A duração recomendada é de 5 anos, alinhada com a complexidade científica das hipóteses em jogo.

Comparativamente ao EIC Accelerator, este instrumento é puramente filantrópico para o promotor: não há equity, não há revisão de business case por investidores, não há requisito de cofinanciamento privado. A contrapartida é a barreira científica: propostas conservadoras ou aplicações de tecnologia existente são sistematicamente rejeitadas.

Quem se pode candidatar

Estrutura de consórcio e elegibilidade

  • Mono-beneficiário: uma única entidade pode candidatar-se desde que esteja estabelecida num Estado-Membro da UE ou país associado. É a porta para uma startup deep tech europeia que tenha investigação proprietária em IA neuro-simbólica.
  • Consórcios pequenos a médios: a maioria dos projetos vencedores envolve 3 a 6 parceiros, combinando universidade líder em IA com forte produção em conferências top (NeurIPS, ICML, ICLR, AAAI), uma ou duas SME ou startups com produto adjacente e parceiro de aplicação setorial (saúde, indústria, defesa, ciência).
  • Categorias elegíveis: universidades, centros de investigação, PME e startups, fundações científicas, em Estados-Membros UE ou países associados ao Horizonte Europa.
  • Geografia restritiva no DeepRAP: dado o enquadramento estratégico em IA, o programa privilegia consórcios estabelecidos em jurisdições alinhadas com o EU AI Act. Parceiros de países terceiros com regimes regulatórios divergentes podem participar mas raramente recebem financiamento direto.
Calendário

Datas e janelas críticas

MarcoDataImplicação
Info Day EIC30 março 2026 (TBC)Sessão dedicada ao DeepRAP com gestores do EIC
Abertura formal22 julho 2026Plataforma SEDIA aceita candidaturas
Encerramento28 outubro 2026, 17h00 BruxelasSubmissão única, sem fases intermédias
Avaliaçãonovembro 2026 a fevereiro 2027Painéis remotos seguidos de entrevistas presenciais
Decisão e contrataçãoQ2 2027Grant Agreement tipicamente até 8 meses após o prazo

A janela útil para preparar uma proposta competitiva é entre maio e setembro de 2026. Dado o nível de sofisticação técnica exigido na proposta (50 páginas de descrição científica e plano de trabalho), as equipas que se decidem em julho ou agosto têm dificuldade em construir consórcio internacional credível e em iterar internamente sobre a arquitetura proposta.

Para que tipo de empresa

Onde este instrumento encaixa

Em Portugal, o universo de candidatos competitivos para o DeepRAP é restrito mas crescente. As categorias mais relevantes:

  • Spin-offs académicas em IA fundamental: startups que nasceram em laboratórios de IST, FCT NOVA, FEUP, U.Coimbra ou U.Minho, com investigação publicada em conferências de topo. São o perfil natural de líder de uma proposta DeepRAP em Portugal.
  • Centros de investigação com massa crítica em IA: INESC TEC, IT, LASIGE, NOVA LINCS, INESC-ID e congéneres, com capacidade para liderar workpackages técnicos centrais e atrair parceiros internacionais.
  • PME deep tech com produto baseado em IA explicável: empresas com tecnologia em verticais como diagnóstico médico assistido, automação industrial verificável, defesa e segurança, ciberinfraestrutura. Podem entrar como parceiros tecnológicos de consórcios maiores.
  • Onde tipicamente não encaixa: empresas que apenas integram modelos de fundação comerciais, projetos de aplicação de IA generativa a casos de uso B2B convencional, propostas centradas em ferramentas de produtividade ou MLOps. Para estes perfis, o EIC Accelerator ou o Cluster 4 da Horizon são caminhos mais adequados.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

O DeepRAP é o desafio Pathfinder com maior alinhamento estratégico explícito de toda a edição 2026. A nossa leitura prática para equipas portuguesas tem três pontos.

Primeiro, a janela de financiamento europeu para IA neuro-simbólica é hoje historicamente larga. O peso político do EU AI Act e a perceção de défice europeu face aos EUA e China em IA fundamental criam um envelope de financiamento confortável e um interesse genuíno dos avaliadores em propostas que reposicionem a Europa cientificamente. Esta janela não estará aberta indefinidamente: as edições futuras tenderão a ser mais competitivas, à medida que mais equipas convergem para o tema.

Segundo, o erro mais penalizante neste desafio é confundir profundidade técnica com volume de modelos. Propostas que prometem treinar arquiteturas com mais parâmetros ou que aplicam LLMs comerciais a verticais novos são sistematicamente rejeitadas. O que é financiado é contribuição arquitetónica original, idealmente apoiada em publicações prévias dos PIs do consórcio em conferências de fronteira nos últimos 24 meses.

Terceiro, a dimensão de explicabilidade e alinhamento com o EU AI Act tem de ser tratada como elemento central da arquitetura, não como anexo de governance. Propostas que tratam estes pontos como capítulos de impacto recebem pontuações materialmente mais baixas no critério de Excelência. As propostas competitivas integram explicabilidade no próprio design dos modelos.

Para uma equipa portuguesa com hipótese cientificamente diferenciada e parceiros internacionais credíveis, o trabalho de preparação realista começa em maio ou junho de 2026, com decisão go ou no-go até final de julho.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]