Contexto

Um topic que financia quem distribui dinheiro a startups

O HORIZON-EIE-2024-CONNECT-01-02, designado "Startup Europe", é um dos topics do programa European Innovation Ecosystems (EIE) integrado no Horizon Europe. A sua particularidade é estrutural: o topic não financia diretamente startups individuais. Financia consórcios europeus de incubadoras, aceleradoras, hubs e organizações de apoio que, depois, distribuem o dinheiro a startups através de cascading grants.

Esta arquitetura é deliberada. Bruxelas concluiu há vários anos que a melhor forma de chegar a centenas de startups com tickets pequenos é através de intermediários credenciados, em vez de tentar gerir candidaturas diretas a uma escala que excede a capacidade administrativa da Comissão. O resultado prático é uma cadeia em três níveis: a Comissão financia 6 projetos europeus, cada um com 1,5 milhão de euros; cada projeto, ao longo de dois ou três anos, lança open calls; e startups individuais candidatam-se a cada open call para receber até 60 mil euros.

Dotação

12,5 milhões em três níveis de impacto

12,5M EUR
Dotação total
6
Projetos financiados
1,5M EUR
Contribuição UE por projeto
60K EUR
Máx por startup beneficiária

A dotação indicativa do topic foi de 12,5 milhões para 6 projetos, com contribuição máxima da UE de 1,5 milhão por projeto. O orçamento efetivamente alocado às propostas vencedoras totalizou 10,8 milhões. Cada consórcio financiado tem a obrigação contratual de canalizar pelo menos 60% do orçamento para apoio financeiro a terceiros (FSTP), ou seja, para as startups que beneficiam da cascading. O teto por terceiro é de 60 mil euros, valor compatível com fases de pre-seed e seed inicial em mercados europeus.

Como funciona

Da Comissão à startup, em três camadas

Compreender quem financia quem é decisivo para saber a que porta bater. Os três níveis funcionam de forma encadeada:

  • Comissão Europeia (HaDEA): pública o topic no portal Funding & Tenders, recebe propostas de consórcios, avalia e financia os 6 melhores.
  • Consórcios financiados (intermediários): tipicamente 5 a 10 entidades europeias, com pelo menos 50% dos beneficiários estabelecidos em países classificados como inovadores moderados ou emergentes, organizam open calls para startups, mentoria, eventos cross-border e roadshows.
  • Startups beneficiárias (terceiros): candidatam-se às open calls dos consórcios, podem receber até 60 mil euros em fundo perdido, mais serviços de aceleração, coaching e ligação a investidores.

Para uma empresa portuguesa que procure este tipo de apoio, o ponto de entrada não é o topic em si. É cada open call lançada pelos 6 consórcios financiados pelo topic. Os exemplos públicos incluem o Open Horizons Open Call e iniciativas equivalentes geridas por outras coligações europeias.

Critérios

Foco em inclusão geográfica e em deep tech

O topic foi desenhado com duas prioridades editoriais que definem o tipo de consórcios financiados e, consequentemente, o tipo de startups que serão alvo dos cascading grants:

  • Tecnologias digitais e deep tech: o foco é claramente em startups com base tecnológica, idealmente já com market-product fit ou seed funding consolidado.
  • Inclusão de inovadores moderados ou emergentes: pelo menos 50% dos beneficiários do consórcio têm de estar estabelecidos em países ou regiões classificados como "moderate" ou "emerging innovator" pelo European/Regional Innovation Scoreboard. Portugal está incluído nesta categoria, o que torna empresas portuguesas alvos preferenciais dos consórcios.
  • Equipas lideradas por mulheres: figuram explicitamente como prioridade, em linha com a política gender in innovation da Comissão.
Implicação prática
Uma startup portuguesa de deep tech, sobretudo se liderada por uma fundadora ou se localizada em região menos densa, está bem posicionada nos critérios editoriais que os consórcios usam ao avaliar candidaturas às open calls que executam.
Avaliação

Os três critérios padrão do Horizon Europe

Como qualquer topic do Horizon Europe, a avaliação das propostas dos consórcios baseou-se em três critérios standard:

CritérioO que é avaliado
ExcellenceQualidade e ambição do conceito de matching cross-border entre startups e ecossistemas/investidores europeus
ImpactCapacidade de criar pegada de mercado durável para as startups apoiadas, com métricas mensuráveis
ImplementationComposição do consórcio, plano de FSTP, alcance geográfico e cobertura de regiões inovadoras moderadas/emergentes

Os 6 projetos selecionados pela Comissão foram aqueles cuja combinação destes três fatores melhor pontuou. As estatísticas oficiais da call mostram um pipeline competitivo: 117 propostas submetidas, 105 admitidas como elegíveis, 6 aprovadas. Uma taxa de sucesso na ordem dos 5,7%, típica do Horizon Europe.

Para que tipo de empresa

Quem deve seguir as open calls dos 6 projetos

O perfil de startup que tipicamente beneficia dos cascading grants distribuídos por estes consórcios é razoavelmente bem definido pelas regras editoriais do topic:

  • Estágio: early-stage com market-product fit ou seed funding já obtido, não ideias em fase de pré-conceito.
  • Setor: tecnologias digitais estratégicas, deep tech, inteligência artificial, software, hardware tecnológico.
  • Geografia: sediadas num país ou região classificada como "moderate" ou "emerging innovator", o que inclui a maior parte de Portugal.
  • Necessidade: capital pre-seed/seed adicional, ligação a aceleradoras europeias, exposição a investidores cross-border e expansão de mercado.
Estado actual

Topic fechado, projetos em execução

O topic enquanto tal está fechado. A call abriu a 11 de janeiro de 2024 e fechou a 25 de abril de 2024, com os 6 projetos selecionados a terem entretanto contratualizado as suas grants e iniciado execução. Para qualquer empresa portuguesa interessada, a janela útil agora não é o topic, mas sim as open calls que cada um dos 6 projetos irá lançar ao longo da sua vida útil (tipicamente 24 a 36 meses).

Os projetos vencedores publicam as suas próprias regras, calendários de open calls e critérios específicos no portal Funding & Tenders e nos respetivos websites. Acompanhar este pipeline de open calls é a única forma realista de captar o capital deste topic.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

O Startup Europe é um instrumento útil mas mal compreendido pelas startups portuguesas. A confusão habitual é ler o topic como se fosse uma candidatura aberta a empresas individuais, quando na verdade só consórcios europeus de organizações de apoio se podem candidatar. Esse mal-entendido leva muitos empreendedores a desistir do que é, na prática, uma das fontes mais acessíveis de capital pre-seed gratuito da União Europeia.

A nossa recomendação para fundadores portugueses tem três pontos. Primeiro, ignorar a página oficial do topic e investir tempo a mapear as 6 entidades coordenadoras dos projetos financiados, identificando quais cobrem geograficamente Portugal e tematicamente o setor da empresa. Segundo, subscrever as newsletters e canais oficiais desses 6 projetos, porque as open calls têm prazos curtos (tipicamente 6 a 8 semanas) e fechos geograficamente assimétricos. Terceiro, preparar uma versão "modular" da pitch deck e do business plan, dado que cada um dos 6 projetos exige formatos próprios e que candidatar-se a vários em simultâneo é a estratégia ótima dado o tamanho do ticket.

A armadilha mais frequente que vemos é considerar 60 mil euros uma quantia "pequena" e desvalorizar o esforço de candidatura. Para uma startup pre-seed, esse valor representa entre 4 e 8 meses de runway adicional e, mais importante, dá acesso ao networking europeu que tipicamente custa muito mais do que o cheque em si. O retorno destes programas, quando bem trabalhados, está mais nos partners e nos co-investidores que se acedem do que no fundo perdido.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]