Contexto e Enquadramento

O que é o tópico DISEASE-06

O tópico HORIZON-HLTH-2027-01-DISEASE-06 está inserido no programa de trabalho 2026-2027 do Cluster 4 do Horizonte Europa, dedicado à saúde. A chamada responde a uma evidência epidemiológica que tem ganho urgência política nos últimos anos: a emergência e re-emergência de doenças virais sensíveis ao clima coloca a União Europeia perante um cenário em que os Flavivírus, classicamente associados a regiões tropicais e subtropicais, passam a circular em territórios europeus continentais.

A premissa do tópico é estratégica antes de ser técnica. A capacidade soberana de produzir anticorpos monoclonais com qualidade GMP, dirigidos contra patogénios virais com potencial pandémico, é peça do European Medical Countermeasures Strategy. Não é só investigação biomédica. É investigação biomédica enquadrada em preparação para crises de saúde pública e em política industrial de biotecnologia.

A Comissão espera financiar quatro projetos com contribuição UE entre 9 e 10 milhões de euros cada, com orçamento total para a linha de 37,3 milhões. O instrumento é uma Research and Innovation Action standard, cofinanciada a 100 por cento dos custos elegíveis. O formato é single-stage, com abertura prevista para 10 de fevereiro de 2027 e deadline única em 13 de abril do mesmo ano.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Este tópico responde a um perfil específico: equipas e empresas com candidatos a anticorpos monoclonais existentes contra um Flavivírus, com necessidade de financiamento para a fase clínica inicial. Não é tópico para investigação básica, é tópico para translação clínica.

  • I&D e ciência: a chamada financia investigação aplicada e clínica num arco que vai da caracterização in vitro avançada à produção GMP e ao primeiro ensaio clínico em humanos. Os candidatos a anticorpos monoclonais têm de já existir, derivados de clones celulares únicos por expressão recombinante (B-cell, hibridoma, nanocorpos). O programa não financia descoberta inicial, financia maturação clínica de candidatos pré-existentes.
  • Arranque e validação: a Comissão encoraja explicitamente a participação de startups, microempresas e PME, com o objetivo de reforçar a sua base científica e explorar a possibilidade de exploração comercial. Para empresas biotech em fase de validação, este tópico é canal estruturado de não diluição de equity para chegar à Phase 1, com possibilidade de inserção em consórcios europeus relevantes.
Configuração da Proposta

A regra dos seis Flavivírus elegíveis

Esta é a característica mais distintiva do tópico, e tem consequências práticas para o desenho do consórcio. Cada proposta tem de escolher e declarar exclusivamente um único Flavivírus alvo, de uma lista fechada de seis vírus elegíveis.

  • Dengue Virus: patogénio com presença confirmada em surtos autóctones em França, Itália, Espanha e Portugal em 2023 e 2024. Quatro serótipos com complexidade adicional para desenho de anticorpos sem risco de Antibody-Dependent Enhancement.
  • Tick-borne Encephalitis Virus: patogénio com presença histórica em Europa Central e do Norte, com extensão recente para Países Baixos e Reino Unido. Vetor por carraça, expansão geográfica associada a aumentos de temperatura média invernal.
  • Japanese Encephalitis Virus: patogénio asiático com vacina disponível mas sem tratamento específico. Relevante em preparação para potencial emergência via viajantes e mudanças climáticas.
  • West Nile Fever Virus: patogénio com presença europeia consolidada, surtos anuais em Itália, Grécia, Espanha, Roménia, Hungria e cada vez mais Portugal e França.
  • Yellow Fever Virus: patogénio com vacina eficaz mas com necessidade de terapêuticas para casos confirmados, e com risco residual de reintrodução em territórios onde o vetor existe (incluindo zonas costeiras europeias).
  • Zika Virus: patogénio com circulação europeia limitada mas com perfil de risco significativo associado a malformações congénitas. Aprendizagem técnica do surto americano de 2015-2016 ainda em consolidação.
Equilíbrio de portefólio na avaliação
A Comissão sinaliza explicitamente que, dentro do orçamento disponível, atribuirá grants não apenas por ordem de classificação mas também aos projetos mais bem classificados em diferentes Flavivírus, desde que ultrapassem os thresholds. Isto significa que escolher um vírus com menos concorrência pode ser estratégia válida, e que apresentar a melhor proposta sobre Yellow Fever pode ser mais competitivo do que apresentar a quinta melhor proposta sobre Dengue.
Estrutura do Financiamento

Modelo de subvenção e parâmetros

ParâmetroValor
ProgramaHorizonte Europa, Cluster Health
CallHORIZON-HLTH-2027-01
TópicoDISEASE-06 (Flavivírus monoclonal antibodies)
Tipo de açãoHORIZON-RIA (Action Grant Budget-Based)
Contribuição UE por projeto9 a 10 milhões EUR
Projetos esperados4 (1 por Flavivírus diferente, dentro do orçamento)
Orçamento total do tópico37,3 milhões EUR
Cofinanciamento100 por cento dos custos elegíveis
ProcedimentoSingle-stage
Abertura10 de fevereiro de 2027
Deadline13 de abril de 2027
Thresholds4 em Excellence, Impact, Implementation; cumulativo 12
Países elegíveis adicionaisEUA elegíveis para financiamento UE

O ticket de 9 a 10 milhões para um RIA com componente clínica permite consórcios médios-grandes, tipicamente entre 8 e 14 entidades, com peso significativo de hospitais e centros clínicos a par de empresas biotech e centros de I&D. O ticket está calibrado para cobrir caracterização in vitro avançada, ensaios em modelos animais (incluindo, se aplicável, primata não-humano), produção GMP, primeiro ensaio clínico em humanos e diálogo regulatório precoce.

Capacidades Portuguesas

Ecossistema nacional com aderência ao tópico

Portugal tem ativos científicos com aderência seletiva a este tópico, concentrados em três frentes. Em virologia e patogénios emergentes, o INSA Ricardo Jorge mantém capacidade de referência laboratorial em arboviroses, incluindo vigilância de West Nile e Dengue. O IGC, IMM, IBMC, IHMT da NOVA, ITQB e CIBIO têm produção em imunologia, virologia e biologia molecular aplicada a doenças infeciosas. Em desenvolvimento de anticorpos, a Universidade NOVA de Lisboa, Universidade de Coimbra e ITQB têm grupos com capacidade técnica em geração e caracterização de anticorpos recombinantes.

Em capacidade clínica, vários hospitais centrais portugueses (CHULN, CHUSJ, CHUC, Hospital da Luz, Hospital Curry Cabral, IPO) têm experiência em ensaios clínicos Phase 1 e estruturas certificadas. A AIBILI em Coimbra e centros de oncologia e doenças infeciosas têm prática em ensaios clínicos internacionais. Em produção biotecnológica, o tecido empresarial é mais fino, mas existem empresas como a Hovione com capacidade GMP relevante, a Bial em fase clínica e algumas biotechs em estágios iniciais com plataformas de produção de proteínas recombinantes.

A vantagem comparativa específica está em dois elementos. Primeiro, Portugal tem casos autóctones recentes de Dengue (Madeira em 2012, novos focos no continente em 2023-2024) e presença confirmada de West Nile em zonas do sul. Há substrato epidemiológico para justificar liderança ou parceria forte em propostas sobre estes dois vírus. Segundo, o eixo Lisboa-Coimbra-Porto agrega instituições com capacidade integrada que pode entrar em consórcios europeus em diferentes nichos: virologia diagnóstica, imunologia de anticorpos, capacidade clínica e produção biotecnológica especializada.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este é um tópico onde a posição clínica e regulatória do consórcio à entrada da proposta determina a leitura de viabilidade pelos avaliadores. Quatro elementos costumam fazer diferença material em propostas vencedoras.

Primeiro, a escolha do Flavivírus é decisão estratégica, não apenas científica. A regra do equilíbrio de portefólio significa que a Comissão fará seleção transversal aos vírus alvo. Apresentar uma proposta robusta sobre um vírus menos coberto na concorrência (TBE, Yellow Fever, Japanese Encephalitis) pode ser mais competitivo do que apresentar uma proposta intermédia sobre Dengue, onde se espera grande volume de candidaturas. A escolha deve ser informada pela maturidade real dos candidatos do consórcio, não pela percepção de relevância política.

Segundo, a presença de capacidade GMP no consórcio é diferenciador estrutural. A produção de lotes de anticorpos com qualidade Good Manufacturing Practice é elemento não negociável da chamada, e poucos consórcios sem CMO especializada ou capacidade industrial própria conseguem demonstrar este lote da execução com credibilidade. Equipas que não tenham parceiro GMP confirmado antes da entrega da proposta começam em desvantagem.

Terceiro, o diálogo regulatório precoce com EMA e agências nacionais tem de estar dimensionado financeiramente e calendarizado. A Comissão é explícita: espera-se que os projetos se envolvam com órgãos reguladores em tempo útil. Propostas que tratam o relacionamento regulatório como tarefa do último ano são lidas como ingénuas. Consórcios competitivos planeiam pelo menos uma scientific advice com EMA durante o primeiro ano do projeto.

Quarto, a articulação com o ecossistema de research infrastructures, em particular a rede ISIDORe, é elemento de excellence. A Comissão sugere explicitamente que as propostas usem estas infraestruturas para acelerar a caracterização e desenvolvimento. Para biotechs portuguesas com candidato a anticorpo monoclonal contra um Flavivírus, e para centros de investigação com programa estabelecido em virologia ou imunologia aplicada, este tópico é janela única de financiamento clínico Phase 1 em escala europeia. Sugerimos uma conversa preliminar focada em três pontos: avaliação do candidato a anticorpo e respetivo dossier técnico, mapeamento dos parceiros clínicos e de GMP, e desenho da estratégia de inserção em consórcio Horizonte Europa, na perspetiva de coordenação ou de integração.

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