Inteligência artificial onde o consumo de energia é crítico
A call HORIZON-JU-CHIPS-2025-IA-LEAI, conhecida como Low Power Edge AI, é uma Innovation Action do Chips Joint Undertaking, a parceria europeia que reforça o ecossistema de semicondutores e reduz a dependência da Europa face a países terceiros. O objetivo é desenvolver a próxima geração de chips de inteligência artificial que combinam elevado desempenho com consumo de energia ultrabaixo, para aplicações em redes móveis, sistemas autónomos, automação industrial e saúde.
A ideia central é o edge computing: executar as cargas de trabalho de IA localmente, no próprio dispositivo, em vez de depender da nuvem. Isso reduz a latência, melhora a privacidade dos dados e permite operar em ambientes com energia limitada, de sensores industriais a wearables e veículos autónomos. As propostas tinham de abordar arquiteturas energeticamente eficientes, aprendizagem no dispositivo, inferência em tempo real e capacidade de decisão adaptativa.
Necessidades que este instrumento resolve
Este apoio cobre o arco que vai da investigação avançada até à prova de escala industrial. É um instrumento de fronteira tecnológica, não de digitalização corrente de uma empresa, o que explica o cruzamento de necessidades que o caracteriza.
- Investigação e ciência: o cerne do projeto é o desenvolvimento tecnológico, memórias não voláteis, computação neuromórfica, integração heterogénea 3D e conectividade fotónica, levando protótipos de chip até níveis de maturidade TRL 6 a 7.
- Investimento produtivo: sendo uma Innovation Action, o apoio cobre protótipos, demonstração, validação em ambiente operacional e replicação de mercado, com uso de linhas-piloto e infraestruturas tecnológicas. O foco está na transição do laboratório para o fabrico industrial e a adoção comercial.
Consórcios de empresas, RTO e academia
O leque de beneficiários elegíveis era amplo e tipicamente colaborativo, reflexo da complexidade da cadeia de valor dos semicondutores.
- Grandes empresas com mais de 250 colaboradores.
- PME e startups até 249 colaboradores.
- Centros de investigação e universidades.
- Infraestruturas tecnológicas, RTO e linhas-piloto, incluindo a facility de testes para hardware de Edge AI do projeto PREVAIL.
Aplicavam-se as regras-padrão de consórcio do Horizonte Europa: pelo menos três entidades jurídicas independentes, estabelecidas em pelo menos três Estados-Membros ou países associados, das quais uma num Estado-Membro da UE. Projetos de beneficiário único eram admitidos apenas em casos justificados pelo tópico.
Dimensão do apoio
O financiamento até 100% dos custos elegíveis é característico das Innovation Actions do Chips JU, embora a comparticipação efetiva possa combinar fundos europeus e cofinanciamento nacional gerido pelos organismos de financiamento dos Estados participantes. A seleção seguia uma submissão em duas fases: um Project Outline curto e eliminatório na primeira fase, seguido de uma proposta completa apenas para os convidados a avançar, o que permitia aferir o ajuste estratégico antes de comprometer o esforço de uma candidatura integral.
O que os projetos tinham de entregar
- Protótipos de chip de IA em TRL 6 a 7, integrando tecnologias de ponta como memórias não voláteis, computação neuromórfica e conectividade fotónica.
- Inferência em tempo real e aprendizagem no dispositivo, com processamento local sem dependência da nuvem.
- Consumo ultrabaixo, para ambientes edge com energia restrita, de dispositivos IoT a sensores industriais.
- Validação real dos protótipos, com demonstração de potencial de escalabilidade industrial dentro do ecossistema europeu de semicondutores.
- Contributo para a soberania tecnológica da Europa em semicondutores e para os objetivos de sustentabilidade do Pacto Ecológico Europeu.
O que recomendamos
Esta call encerrou em 2025, com a primeira fase a 29 de abril e a segunda a 17 de setembro. Mantemo-la na biblioteca como referência, porque o Chips JU é um programa recorrente e a linha Low Power Edge AI traduz uma das prioridades mais estáveis da política europeia de semicondutores. Quem tenha ambições neste domínio deve acompanhar os programas de trabalho anuais do Chips JU, onde tópicos próximos voltam a abrir.
Para uma empresa portuguesa, a lição estratégica é dupla. Primeiro, o acesso a estes apoios passa quase sempre por integrar um consórcio europeu credível, o que exige começar a construir parcerias com RTO e fabricantes muito antes da call abrir. Segundo, a exigência de maturidade tecnológica é elevada, TRL 6 a 7 não é uma ideia, é um protótipo demonstrável, por isso o instrumento serve organizações com capacidade real de I&D em microeletrónica. Para quem está nessa fronteira, o modelo de duas etapas é uma vantagem: permite testar o ajuste estratégico com um Project Outline antes de investir numa proposta completa.
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