Contexto

Conversao direta de luz solar em hidrogenio, sem intermediarios electricos

A maioria dos projetos de hidrogenio renovavel assenta em eletrolise alimentada por energia solar fotovoltaica: o painel solar gera eletricidade, que depois alimenta um eletrolisador que separa a água em hidrogenio e oxigenio. Esta cadeia tem perdas em cada conversao de energia. A conversao direta de luz solar em hidrogenio, eliminando o passo intermedio da eletricidade, tem o potencial de reduzir significativamente os custos e a complexidade do sistema, mas o desafio técnico e consideravel.

Existem duas vias principais para esta conversao direta. A primeira sao os ciclos termoquimicos (TCC), que usam calor solar de alta temperatura para conduzir reacoes de redução-oxidacao que decompoe a água em hidrogenio e oxigenio atraves de ciclos quimicos. A segunda sao os processos fotoeletroquimicos (PEC) e fotocataliticos (PC), que usam diretamente a energia dos fotoes solares para quebrar as moleculas de água em semicondutores ou catalisadores especializados.

O topico HORIZON-JU-CLEANH2-2026-01-06 financiou investigação para melhorar materiais, reatores e sistemas de integração nestas duas vias, visando eficiencias solares-para-hidrogenio (STH) competitivas e custo de produção abaixo de 6 EUR/kg de H2. Com 16 propostas submetidas, foi o segundo topico mais disputado da chamada HORIZON-JU-CLEANH2-2026.

Indicadores de Desempenho

Metas quantitativas exigidas pela chamada

0.75kg/m2/a
Produção mínima de H2
20%
Eficiencia STH alvo (TCC)
10%
Eficiencia STH alvo (PEC/PC)
<6EUR/kg
Custo de produção alvo

Os KPIs diferenciavam as duas vias tecnologicas. Para os ciclos termoquimicos, a eficiencia solar-para-hidrogenio alvo era de 20% ou superior, refletindo a vantagem da via termica em temperaturas elevadas. Para os processos fotoeletroquimicos e fotocataliticos, a meta era mais modesta (10% ou mais), mas com a vantagem de poderem operar como sistemas autonomos sem ligacao a rede. Ambas as vias deviam demonstrar degradacao de desempenho inferior a 10% ao longo de 300 horas de operação continua.

Ambito Técnico

As duas vias e o que cada uma exigia

Criterio Ciclos Termoquimicos (TCC) Fotoeletroquimica (PEC/PC)
Fonte de energia Calor solar concentrado (alta temperatura) Fotoes solares (luz direta)
Escala de demonstracao 250-500 kW Mínimo 10 kW
TRL inicial TRL 3 TRL 3
TRL alvo TRL 5 TRL 5
Desafios chave Materiais redox, gestão de calor, escalabilidade Fotocatalisadores, degradacao, estabilidade

O topico exigia que os projetos nao se limitassem a investigar subcomponentes isolados, mas integrassem materiais, dispositivos, reatores e sistemas de controlo em sistemas funcionais e operaveis. As propostas deviam tambem incluir modelacao multiescala, análise tecno-economica e ambiental e estrategias de reciclagem no fim de vida dos materiais.

Eliminacao de dependencias externas
Um aspeto estratégico explicito do topico era a redução da dependencia de materias-primas criticas (CRM) e substancias perfluoroalquiladas (PFAS). A UE tem acelerado a legislacao que restringe o uso de PFAS e os catalisadores baseados em metais de platina sao uma vulnerabilidade de cadeia de abastecimento relevante para a eletrolise europeia.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Com 16 propostas, este foi o topico de produção de hidrogenio mais concorrido da chamada, o que reflete a maturidade crescente da comunidade de investigação europeia em conversao solar direta. O número tambem sugere que a UE tocou num nerve científico genuino: ha muita investigação fundamental nestas vias, mas poucos projetos que integrem materiais, reatores e sistemas a escala relevante.

Para Portugal, este topico e particularmente relevante. O pais tem recursos solares entre os mais elevados da Europa (irradiancia global horizontal superior a 1700 kWh/m2/ano em grande parte do território), o que o posiciona bem para hosting de instalacoeses de demonstracao ao ar livre. Instituicoes como o LNEG, o ITQB NOVA ou grupos de investigação do IST em fotoeletroquimica e materiais de energia teriam base para participar em consorcios europeus neste dominio. O tópico nao exigia restricoes geograficas para as instalacoeses, pelo que um consorcio que incluisse um site de demonstracao portugues como local de validacao seria uma vantagem de diferenciacao real.

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