Pipelines de gas natural como espinha dorsal do sistema europeu de hidrogenio
A transição para o hidrogenio na Europa nao parte do zero. As redes de gas natural existentes, incluindo os pipelines offshore que ligam plataformas de produção e paises, representam um ativo infraestrutural de enorme valor que a UE pretende reconverter progressivamente para o transporte de hidrogenio. Mas esta reconversao nao e trivial: o hidrogenio degrada materias metalicos de forma diferente do gas natural, reduzindo a tenacidade a fratura e acelerando o crescimento de fendas por fadiga, especialmente em zonas de concentracao de tensoes como as soldaduras.
Nos pipelines offshore, o problema agrava-se. Ao contrario dos pipelines terrestres, as infrastruturas submarinas nao podem ser escavadas para inspecao ou manutencao convencional. O seu design pressupoe maior durabilidade intrinseca, o que torna a inspecao in-line, sem interrupcao da operação, a única abordagem viavel para monitorizar a integridade das tubagens em condições de servico com hidrogenio.
Foi neste contexto que a Clean Hydrogen JU lancou o topico HORIZON-JU-CLEANH2-2026-02-02, com financiamento de 3,5 milhoes de euros para um único projeto de investigação e inovação (RIA) capaz de desenvolver e validar ferramentas de inspecao interna (ILI) especificas para este ambiente exigente.
O que o consorcio deveria desenvolver e demonstrar
O topico estabelecia requisitos técnicos precisos. As ferramentas ILI desenvolvidas deviam ser capazes de operar em pipelines de alta pressao e demonstrar desempenho mínimo especifico:
- Detecao de fissuras circunferenciais: Identificacao de defeitos internos de superficie circunferencial com dimensao nao superior a 3x20 mm.
- Criação de criterios de aceitacao: Definição de criterios para tipos e dimensoes de defeitos, considerando as condições de carregamento e o ambiente de hidrogenio.
- TRL 6 ou superior: Validacao atraves de testes em pipelines de alta pressao, atingindo um nível de maturidade tecnologica de TRL 6 (tecnologia demonstrada em ambiente relevante).
- Requisito de consorcio: Obrigatoria a inclusão de pelo menos um fornecedor de ferramentas ILI e um operador de rede de transporte de gas.
Impacto para a infraestrutura europeia de hidrogenio
O projeto deveria contribuir para a liderança tecnologica europeia em sistemas ILI, expandindo a sua eficacia especificamente para zonas de concentracao de tensoes e detecao de fendas em ambientes de hidrogenio. A extensão da vida util dos pipelines e a redução dos custos operacionais sao resultados esperados de longo prazo, com implicacoes directas para a competitividade da infraestrutura de H2 offshore europeia.
Tal como nos restantes topicos da chamada HORIZON-JU-CLEANH2-2026, a obrigacao de cooperação pre-normativa era explicita: os beneficiarios deviam reportar potenciais contribuicoes para normas europeias e internacionais no prazo de 4 anos apos o fim do projeto.
Quem podia candidatar-se
O topico seguia os requisitos padrao de elegibilidade do Horizonte Europa, aberto a entidades de todos os Estados-Membros da UE e Paises Associados. Nao havia restricoes setoriais explicitas para alem da logica técnica do topico, que dirigia naturalmente o instrumento a empresas e organizações de investigação com competencias em:
- Tecnologias de inspecao in-line (fornecedores de ferramentas ILI pig, magnetic flux leakage, ultrassom)
- Operação de redes de transporte de gas natural ou hidrogenio
- Engenharia de integridade de pipelines e materiais metalicos sob hidrogenio
- Certificação e normalização para infraestruturas de gas offshore
O financiamento utilizou o modelo lump sum, com a contribuicao máxima de 3.500.000 EUR. Todo o trabalho subcontratado devia ser executado em paises elegiveis da UE e Associados.
O que recomendamos
Com apenas 2 propostas submetidas, este topico evidenciou uma lacuna de capacidade na Europa: poucos consorcios reuniam simultaneamente um fornecedor de ILI maduro e um operador de rede de gas com ambicao de participar em projetos de investigação europeus. Isto nao significa falta de interesse, mas revela a dificuldade de constituir consorcios onde os operadores de infraestrutura critica assumam o risco de um projeto de I&D de TRL 4-6 com incerteza técnica significativa.
Para organizações portuguesas, o perfil mais adequado seria um instituto de investigação ou empresa com experiencia em ensaios nao destrutivos (END) e integridade de estruturas metalicas, em parceria com um operador europeu de gas como parceiro industrial. REN - Redes Energeticas Nacionais, por exemplo e um perfil potencialmente adequado como parceiro de consorcio. A chamada esta encerrada, mas topicos semelhantes tendem a reaparecer em ciclos subsequentes da Clean Hydrogen JU quando o TRL alvo nao e atingido na primeira ronda.
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