Uma única tecnologia para produzir e consumir hidrogénio
As células de óxido sólido reversíveis, conhecidas pela sigla rSOC, são uma das peças mais elegantes do puzzle do hidrogénio. Funcionam como eletrolisador quando há eletricidade renovável em excesso e produzem H2; funcionam como célula de combustível quando há défice de geração e consomem H2 para devolver eletricidade à rede. A mesma máquina serve as duas funções, com um simples comando de inversão.
O tópico HORIZON-JU-CLEANH2-2026-04-02 da Clean Hydrogen JU foi desenhado para empurrar esta tecnologia da bancada laboratorial para a operação industrial real. O alvo é demonstrar um sistema rSOC ligado a rede local, capaz de oferecer serviços de rede, acoplamento setorial e armazenamento de hidrogénio operando em condições dinâmicas durante períodos prolongados.
Operação bidirecional, serviços de rede, integração de calor
O âmbito do tópico exige que os candidatos demonstrem um sistema integrado, não apenas uma stack rSOC isolada. A complexidade está em fazer interagir a célula com o resto da infraestrutura: rede elétrica local, compressão de hidrogénio, recuperação de calor, monitorização e controlo.
- Operação bidirecional: demonstração da capacidade de comutar entre modo de eletrólise e modo de célula de combustível em condições dinâmicas, durante mais de 5.000 horas de teste.
- Compressão integrada: capacidade de fornecer hidrogénio a 5 bar ou mais à saída do sistema, eliminando ou simplificando estágios de compressão a jusante.
- Serviços de rede: participação em mecanismos de balanceamento, redução de pico, suporte de tensão ou frequência junto da rede local de eletricidade.
- Acoplamento setorial: integração com consumidores de calor, hidrogénio ou eletricidade em proximidade física, demonstrando os ganhos de eficiência sistémica.
- Avaliação tecno-económica e ciclo de vida: análises completas que permitam validar o modelo de negócio em condições representativas.
Indicadores-chave da SRIA da Clean Hydrogen JU
O tópico estabelece metas quantitativas alinhadas com a Strategic Research and Innovation Agenda. Os candidatos têm de demonstrar progresso mensurável em direção aos valores-alvo de 2030 e idealmente projeção sustentada para 2035.
| Indicador | Meta 2030 | Meta 2035 |
|---|---|---|
| Eficiência elétrica round-trip | ≥ 50% | ≥ 60% |
| Tempo de comutação de modo | ≤ 5 minutos | ≤ 2 minutos |
| Arranque a quente | ≤ 10 minutos | ≤ 5 minutos |
| Degradação do stack | < 0,3% por 1.000 horas | — |
| Consumo energético | < 37 kWh/kg de H2 | — |
Há ainda um requisito mínimo de capacidade: os sistemas demonstrados têm de operar em escala mínima de 1 MW de eletrólise. Isto exclui de partida demonstrações puramente laboratoriais e força os consórcios a montarem instalações em ambiente representativo.
IA, lump sum, um projeto financiado
O modelo de financiamento é Innovation Action (IA), com Lump Sum Grant. O CAPEX dos sistemas rSOC, do armazenamento de hidrogénio e da infraestrutura de rede é elegível; o OPEX (custos operacionais correntes) não é financiado, conforme as regras gerais das IA do Horizonte Europa. A subcontratação tem de ocorrer dentro do espaço UE/Países Associados.
Quem pode participar
- Estados-Membros da UE e Países Associados.
- Consórcio com pelo menos três entidades de três países diferentes (regra geral Horizon Europe).
- Pelo menos uma entidade membro da Hydrogen Europe ou da Hydrogen Europe Research.
- Capacidade de mobilizar uma instalação demonstrativa de 1 MW de eletrólise.
- Limite de 70 páginas para a proposta técnica.
O perímetro contratual
- Sistemas rSOC e infraestrutura associada (CAPEX).
- Demonstração e teste de operação bidirecional em condições dinâmicas.
- Integração com a rede local de eletricidade e com consumidores de calor ou H2.
- Avaliação tecno-económica e análise de ciclo de vida.
- Pureza mínima do hidrogénio produzido: 99,5%.
O que recomendamos
O tópico está fechado, com seis propostas em avaliação para um único slot financiável. O resultado é esperado para agosto de 2026. À cabeça, a configuração do tópico, IA com 8 milhões de euros, escala de 1 MW e requisito de membro Hydrogen Europe, indica que a Clean Hydrogen JU está disposta a fechar a janela em poucos consórcios já organizados, com infraestrutura existente para acolher a demonstração.
Para o ecossistema português, há sinais positivos. Empresas portuguesas como a EDP, a REN, a Galp ou clusters industriais (Sines, Aveiro, Alentejo) têm condições para hospedar demonstrações como esta no próximo ciclo: localização integrada com produção renovável, infraestrutura elétrica robusta e potencial de acoplamento a consumidores industriais. A peça em falta, na maioria dos casos, é o fabricante de tecnologia rSOC, que continua concentrado em alguns países do norte da Europa. A leitura prática é que Portugal joga melhor como demonstrador territorial do que como provedor de tecnologia.
Uma palavra final sobre a IPR: a Clean Hydrogen JU pede que beneficiários informem a autoridade quando os resultados contribuam para normas europeias ou internacionais. Para uma tecnologia como o rSOC, ainda em fase pré-comercial, o impacto regulatório é tão relevante quanto o resultado técnico. Quem se posicionar nos próximos calls deve dedicar um work package específico a interface com CEN, IEC e Hydrogen Europe, dado que a normalização determinará grande parte da viabilidade comercial nos anos seguintes à demonstração.
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