O que era o KDT JU e porque existia
A Key Digital Technologies Joint Undertaking (KDT JU) era uma parceria público-privada criada pela Uniao Europeia para acelerar a investigação e o desenvolvimento em componentes e sistemas electronicos avancados. Sucedeu a Electronic Components and Systems for European Leadership (ECSEL) e operou sob o Horizonte Europa com um modelo de co-financiamento triangular: a Comissão Europeia, os Estados-Membros participantes e a indústria privada contribuiam cada um com parte do financiamento dos projetos aprovados.
Esta chamada especifica - identificada como HORIZON-KDT-JU-2021-2-RIA - cobria Ações de Investigação e Inovação (RIA), o tipo de acao orientado para investigação de longo prazo e desenvolvimento de novas tecnologias, com níveis de maturidade tecnologica (TRL) mais baixos do que as Ações de Inovação. O objetivo era construir a base de conhecimento científico e tecnologico que alimentaria, nos anos seguintes, a demonstracao industrial e a produção em escala.
Mais de 25 dominios de tecnologia cobertos
A chamada definia um portfolio tematico exceccionalmente amplo, abrangendo as principais areas das tecnologias digitais de base para a indústria europeia:
- Inteligencia artificial e machine learning para sistemas embebidos: modelos de IA otimizados para correr em hardware de recursos limitados, com aplicacao em automacao industrial, saúde e mobilidade.
- Sistemas ciber-fisicos e computacao em tempo real: integração de processamento digital com processos fisicos, critica para robotica, automacao e infraestrutura critica.
- Fotonica e tecnologias associadas: componentes baseados em luz para comunicacoes, sensores e processamento de dados de alta velocidade.
- Semicondutores e tecnologia de circuitos integrados: investigação em novos processos de fabrico, materiais e arquiteturas de chip - area estratégica para a autonomia tecnologica europeia.
- Sistemas embebidos para automovel e aeroespacial: electronica de seguranca critica para veiculos autonomos, sistemas de assistencia ao condutor (ADAS) e avionica.
- Electronica médica e monitorizacao de saúde: dispositivos de diagnostico, monitorizacao continua e electronica implantavel.
- Robotica e sistemas autonomos: plataformas de controlo, percepcao e tomada de decisao para robots industriais e de servico.
- Electronica eficiente em energia: redução do consumo energético em processamento, comunicacoes e gestão de energia eletrica.
Topico prioritario e topico geral
A chamada HORIZON-KDT-JU-2021-2-RIA organizava-se em dois patamares distintos. O Focus Topic 1, com uma dotacao de EUR 20 milhoes, definia um tema prioritario especifico para o qual eram esperados projetos mais alinhados com as necessidades estrategicas declaradas pelo KDT JU naquele ano. O restante do orcamento - EUR 50 milhoes - estava alocado ao topico geral, aberto a qualquer das areas de investigação incluidas no Work Programme 2021.
Esta estrutura dual criava uma dinamica interessante: o topico prioritario tinha menor competicao numerica mas maior seletividade temática. O topico geral era mais acessivel em termos de adequacao temática, mas com concorrencia mais ampla. Para consortia portugueses, a escolha do topico certo exigia um mapeamento rigoroso entre as competencias da equipa e as expectativas especificas de cada area.
O KDT JU transformou-se nos Chips JU
Em 2023, o KDT JU foi substituido pelo Chips Joint Undertaking (Chips JU), criado no quadro do European Chips Act - a resposta estratégica da UE a crise global de semicondutores de 2021-2022. O Chips JU tem um ambito mais focado (essencialmente semicondutores e tecnologias de chip) mas um volume de financiamento substancialmente maior, com o objetivo declarado de duplicar a quota europeia na produção global de chips ate 2030.
Para empresas e centros de investigação portugueses que trabalhavam nas areas cobertas pelo KDT JU, o Chips JU representa a continuidade natural. As chamadas ativas do Chips JU estao disponiveis no portal de financiamento da Comissão Europeia e Portugal tem representacao nas estruturas de governacao atraves da FCT e da ANI.
O que aprender desta chamada para as proximas
O KDT JU 2021 RIA ilustra bem o desafio das Joint Undertakings europeias para organizações portuguesas: as regras de elegibilidade e financiamento nao eram uniformes. As grandes empresas tinham taxas de financiamento que nao estavam integradas nas tabelas orcamentais padrao - exigiam uploads separados em Excel com calculos especificos. Para PME e entidades de investigação, as taxas eram mais simples, mas a coordenacao com o financiamento nacional (FCT ou ANI) adicionava uma camada de complexidade administrativa significativa.
A nossa recomendacao para organizações que querem participar em chamadas Chips JU ou equivalentes e clara: nao iniciar o processo de candidatura sem ter primeiro mapeado o enquadramento nacional - qual a agencia financiadora, quais as taxas aplicaveis ao tipo de entidade e quais os requisitos de auditoria. Este trabalho de preparacao pode demorar semanas e nao deve comecar com a chamada ja aberta.
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