Enquadramento

Duas Missões europeias em colaboração

A call HORIZON-MISS-2026-06 resulta de uma joint call entre duas das cinco Missões do Horizonte Europa: a Missão "Solo Deal for Europe" e a Missão "Adaptation to Climate Change". Esta colaboração reflete o reconhecimento de que a resiliência dos solos e a adaptação climática são indissociáveis, nomeadamente quando se trata de eventos climáticos extremos que degradam a saúde dos solos e comprometem a produção alimentar.

O tópico financiado (HORIZON-MISS-2026-06-CLIMA-SOIL) tem como título "Joint demonstration of solutions to build soil resilience to extreme weather events and support food security". Trata-se de uma Innovation Action (IA), o que significa que os projetos devem demonstrar soluções práticas e transferíveis a uma escala próxima da operacional, atingindo TRL 6-8 no final do projeto.

A call apoia diretamente a Estratégia do Solo da UE para 2030, a Diretiva de Monitorização e Resiliência dos Solos, a Estratégia de Adaptação da UE e a Estratégia de Resiliência da Água da UE.

O que se pede aos projetos

Demonstrar, replicar e disseminar

Os projetos financiados devem abordar um conjunto específico de dimensões de forma integrada. A Comissão é explícita: não se trata de produzir conhecimento teórico adicional sobre resiliência dos solos, mas de demonstrar soluções práticas em contexto real, com envolvimento direto de autoridades locais e agricultores e com um plano claro de replicação além das zonas de demonstração.

  • Desenvolver e demonstrar soluções: práticas agronómicas, agroecologia e soluções baseadas na natureza que melhorem a resiliência dos solos a eventos extremos, como secas, cheias, vagas de calor e geadas intempestivas.
  • Framework transdisciplinar: desenvolver um quadro integrado que facilite a replicação das soluções noutros contextos pedoclimáticos e de governação, com modelos de negócio inovadores que suportem a adoção a longo prazo.
  • Metodologia de avaliação de impacto: criar uma metodologia replicável para avaliar o impacto de eventos climáticos extremos nos serviços dos ecossistemas de solo, desenhada para uso por autoridades locais e gestores de terra.
  • Disseminação e decisão: transmitir boas práticas a stakeholders-chave para suportar tomada de decisão fundamentada e gestão adaptativa do território.
Requisito crítico

Pelo menos 3 territórios em 3 países diferentes

Um requisito estrutural desta call distingue-a de outras calls de investigação do Horizonte Europa: as atividades de demonstração devem ocorrer em, pelo menos, 3 autoridades regionais ou locais distintas, cada uma estabelecida num Estado-Membro ou País Associado diferente.

Adicionalmente, os consórcios devem identificar desde a fase de candidatura pelo menos 3 "regiões replicantes", de 3 países diferentes, que expressem interesse em aplicar as lições aprendidas nos seus territórios. Estas regiões replicantes não precisam de realizar atividades de campo durante o projeto, mas devem preparar o quadro teórico de replicação e explorar formas de financiar a sua implementação.

O modelo multi-ator é obrigatório
A Comissão exige explicitamente a aplicação da abordagem multi-ator, que implica envolver uma diversidade de stakeholders ao longo de todo o ciclo do projeto: agricultores, gestores de terra, autoridades locais, investigadores e consumidores. A proposta deve demonstrar de que forma este envolvimento acontece em concreto, desde a co-criação das soluções até à sua avaliação e disseminação.
€20M
Dotação total 2026
2
Projetos de €10M cada
3+
Países de demonstração
TRL 6-8
Maturidade tecnológica exigida
Ligação às Missões

Integração obrigatória com os ecossistemas das Missões

Os projetos financiados devem estabelecer ligações operacionais com a Plataforma de Implementação da Missão de Adaptação Climática, participar na sua Community of Practice e colaborar com o EU Soil Observatory e o projeto SoilWise. A Comissão não trata estas obrigações como formalidades: devem constar no orçamento e no plano de trabalho com recursos específicos.

Os candidatos devem também demonstrar que conhecem e constroem sobre resultados de projetos anteriores financiados sob as Missões Solo e Adaptação, nomeadamente HORIZON-MISS-2023-CLIMA-01-01, HORIZON-MISS-2023-CLIMA-OCEAN-SOIL-01-01 e projetos do Cluster 5 sobre resiliência da água e do solo. Ignorar este requisito na proposta é um sinal negativo para os avaliadores.

Dimensão Exigência da call
Locais de demonstração Min. 3 autoridades regionais/locais, em 3 países diferentes
Regiões replicantes Min. 3 regiões em 3 países, identificadas na candidatura
Abordagem multi-ator Obrigatória, definida no Work Programme da Missão Solo
Maturidade tecnológica TRL 6-8 no final do projeto
Open access Obrigatório para dados e outputs do projeto
Tipo de ação Innovation Action (IA), via HORIZON standard
Relevância para Portugal

Por que Portugal é um candidato natural

Portugal é um dos países europeus mais vulneráveis à degradação dos solos por via climática. A combinação de ciclos de seca severa, incêndios rurais, erosão costeira e eventos de precipitação intensa representa um desafio real para a produtividade agrícola nacional. Regiões como o Alentejo, o Algarve e o interior Centro e Norte enfrentam pressões crescentes que se enquadram precisamente no âmbito desta call.

Instituições portuguesas com experiência em ciência do solo, gestão de bacias hidrográficas e sistemas agrícolas sustentáveis, como o ISA (Instituto Superior de Agronomia), o INIAV, a Universidade de Évora e a Universidade de Trás-os-Montes, têm o perfil adequado para participar ou liderar consórcios neste tópico. A presença de autoridades regionais portuguesas como "regiões replicantes" pode também reforçar candidaturas de outros consórcios europeus.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

A call MISS-2026-06 é tecnicamente exigente e politicamente relevante, o que a torna competitiva. O facto de financiar apenas 2 projetos a nível europeu, num contexto em que a resiliência climática e a segurança alimentar estão no topo da agenda política, significa que as propostas vencedoras terão de ser excecionais tanto em qualidade científica como em design de implementação territorial.

Para entidades portuguesas, a estratégia mais eficaz é integrar um consórcio com coordenação num país com forte tradição em solos e adaptação climática, como Espanha, França, Itália ou a Alemanha, trazendo o contributo de contextos pedoclimáticos mediterrânicos onde os eventos extremos são já uma realidade quotidiana. O papel de "região replicante" também é uma forma de envolvimento com menor carga burocrática, mas com visibilidade no projeto.

Recomendamos começar a identificar parceiros europeus de imediato e verificar a plataforma de partner search do Horizonte Europa para consórcios em formação neste tópico específico.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]