Redes Doutorais Marie Sklodowska-Curie
As MSCA Doctoral Networks são o principal instrumento europeu para financiar programas doutorais em formato de rede internacional. Não financiam doutorandos individuais. Financiam consórcios de pelo menos três entidades, de três países diferentes, que se juntam para implementar um programa doutoral conjunto numa área de investigação delimitada. A chamada de 2027 mantém esse desenho, com deadline a 23 de novembro de 2027, sob o Programa de Trabalho 2026-2027 do Horizonte Europa.
A diferença em relação a doutoramentos nacionais clássicos é estrutural. As MSCA DN existem para expor o doutorando a vários ambientes (académico, industrial, internacional), formar competências transferíveis fora da investigação fundamental e ligar a formação à valorização do conhecimento. Por isso, a participação de empresas, PME e atores socioeconómicos não é opcional, é a marca distintiva do instrumento.
A chamada distingue três modalidades. As Standard Doctoral Networks são o formato base, com supervisão multi-institucional dentro do consórcio. As Industrial Doctorates obrigam o doutorando a passar uma parte significativa da formação numa entidade não académica (empresa, fundação, organização), com supervisão conjunta. As Joint Doctorates conduzem a um doutoramento conjunto, duplo ou múltiplo, reconhecido por pelo menos um Estado-Membro ou país associado, e representam o nível mais integrado de cooperação internacional.
Necessidades que este instrumento resolve
A MSCA DN é, ao mesmo tempo, um instrumento de financiamento de I&D e um instrumento de captação e formação de talento. Esta dualidade explica porque é que aparece, simultaneamente, em filtros de ciência e em filtros de qualificação de equipas.
- I&D e ciência: cada doutoramento financiado corresponde a um projeto científico original numa área específica. A rede pode produzir 10 a 15 teses doutorais coordenadas, com publicações conjuntas, datasets partilhados e infraestrutura de investigação intersetorial. Para o consórcio, é capacidade científica acrescida sem custo nacional.
- Contratação e RH: uma rede tipica recruta entre 10 e 15 doutorandos durante o projeto. Para empresas envolvidas, em particular em Industrial Doctorates, é recrutamento de talento doutoral altamente especializado, integrado em I&D corporativa, sem assumir os custos plenos de contratação.
- Formação e qualificação: as redes constroem módulos de formação transferível (gestão de I&D, propriedade intelectual, empreendedorismo, comunicação científica, ferramentas digitais incluindo IA generativa). É qualificação avançada de RH com financiamento europeu, distribuída entre todos os parceiros do consórcio.
Standard, Industrial e Joint Doctorates
| Modalidade | Estrutura | Quando faz sentido |
|---|---|---|
| Standard DN | Rede internacional, supervisão multi-institucional, doutoramentos atribuídos pela instituição de inscrição. | Quando o consórcio é maioritariamente académico mas quer envolvimento intersetorial. Pode incluir secondments curtos em empresas. |
| Industrial DN | Cada doutorando passa uma parte significativa do tempo numa entidade não académica. Co-supervisão obrigatória por académico e industrial. | Quando o objetivo é formar doutorandos para carreira fora da academia, alinhar agenda científica com problemas industriais ou criar pipeline de talento doutoral para empresas. |
| Joint DN | Doutoramento conjunto, duplo ou múltiplo. Maior integração curricular entre instituições. Tese examinada por júri conjunto. | Quando há vontade política e académica de criar um programa doutoral europeu efetivo, com mobilidade total e dupla diplomação. |
A escolha entre as três modalidades não é apenas administrativa. Determina o perfil dos candidatos atraídos, a estrutura de governança da rede e a complexidade do reconhecimento de graus. Joint Doctorates são prestigiosos mas exigem alinhamento legal e académico não trivial entre instituições de países diferentes.
Composição típica do consórcio
A composição mínima é de três entidades estabelecidas em três países (Estados-Membros ou países associados ao Horizonte Europa). Mas a composição que efetivamente compete em MSCA DN é mais ambiciosa, tipicamente entre 6 e 12 entidades distribuídas por 4 a 8 países.
- Universidades e centros de investigação: são a espinha dorsal da rede. Inscrevem doutorandos, atribuem graus e asseguram supervisão científica primária.
- Empresas e PME industriais: hospedam secondments, oferecem temas aplicados, são alvo de transferência de conhecimento. Em Industrial DN, têm responsabilidade de co-supervisão.
- Infraestruturas de investigação: facilitam acesso a equipamento partilhado europeu, dados experimentais ou modelos computacionais não replicáveis localmente.
- Atores socioeconómicos: ONG, hospitais, museus, autoridades locais, organizações culturais. Trazem perspetiva aplicada e contexto não académico ao programa doutoral.
- Países terceiros: a participação de entidades de países terceiros é permitida e encorajada, dentro das regras gerais do programa. Reforça a dimensão internacional da rede.
Critérios diferenciadores nesta chamada
A avaliação MSCA segue os três critérios clássicos do Horizonte Europa, mas com nuances próprias. Excelência inclui a qualidade científica do programa doutoral e a originalidade dos projetos individuais. Impacto inclui empregabilidade dos doutorandos, transferência de conhecimento e contribuição para a estruturação da formação doutoral europeia. Implementação inclui supervisão, governança, gestão de risco e plano de carreira individual para cada doutorando.
Outra nuance crítica: o recrutamento dos doutorandos tem de ser aberto, transparente e baseado no mérito, alinhado com a Carta Europeia para Investigadores. Os anúncios têm de ser publicados internacionalmente (incluindo EURAXESS) e indicar claramente se a remuneração publicada inclui ou exclui contribuições do empregador e do empregado. Sempre que possível, deve publicar-se também o salário bruto. Falhar este passo expõe o consórcio a contestação formal de candidatos preteridos.
Secondments e módulos transferíveis
Os secondments intersetoriais (passagens dos doutorandos por entidades parceiras, em particular não académicas) são encorajados sempre que sejam relevantes para o projeto. Não são obrigatórios em Standard DN mas pesam muito favoravelmente na avaliação. Em Industrial DN são, na prática, o núcleo da modalidade.
Os módulos de formação transferível devem cobrir três dimensões. Primeiro, competências digitais (incluindo IA generativa, gestão de dados FAIR, ferramentas colaborativas). Segundo, cultura de Ciência Aberta e valorização do conhecimento. Terceiro, integridade científica, gestão de propriedade intelectual e, quando aplicável, empreendedorismo e inovação.
O que recomendamos
Para universidades portuguesas, a MSCA DN é a forma mais consolidada de financiar a contratação de doutorandos sem comprometer orçamento próprio e, simultaneamente, internacionalizar a oferta. A pergunta não é se vale a pena, é se a instituição tem capacidade de coordenar uma rede ou se entra apenas como parceiro.
Coordenar uma MSCA DN é um esforço significativo. Implica negociar agendas científicas com 6 a 12 parceiros, definir o consortium agreement, gerir lump sum, planear deslocações, garantir cumprimento das obrigações de recrutamento aberto. Universidades portuguesas com experiência prévia em coordenação (gabinetes de I&D consolidados, equipas de pré-eligibilidade competentes) podem ambicionar coordenar. As restantes ganham mais valor entrando como parceiro científico forte de uma rede coordenada por uma universidade europeia com track record.
Para empresas portuguesas, a oportunidade está em duas frentes. A primeira é entrar como parceiro industrial em redes coordenadas por universidades europeias, oferecendo temas de doutoramento e secondments. Este caminho dá acesso a talento doutoral sem custo direto e, frequentemente, sem obrigação de contratação posterior. A segunda é integrar-se como nó industrial em Industrial Doctorates, com co-supervisão real e pipeline de recrutamento. Esta segunda exige maturidade organizacional em I&D corporativa que nem todas as PME têm.
Erro comum a evitar: tratar a MSCA DN como bolsa individual disfarçada. A rede tem de funcionar como rede. Consórcios em que parceiros são figurantes não passam o crivo de impacto. Outro erro: subestimar a complexidade do recrutamento internacional. Anúncios mal divulgados, processos de seleção pouco transparentes ou salários publicados de forma ambígua são problemas reportáveis e podem invalidar contratos.
A janela é ampla. Quem queira candidatar-se a esta chamada de 2027 tem 18 meses para construir o consórcio e desenhar o programa doutoral. Esse é o trabalho mais determinante. O packaging final da proposta consome semanas, mas a construção da rede consome o ano anterior.
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