O que é o MANTRA
O MANTRA é um projeto financiado pelo Horizonte Europa que funciona como instrumento de financiamento em cascata, o chamado cascade funding. Em vez de a Comissão Europeia distribuir o apoio diretamente, delega-o num consórcio, que por sua vez lança concursos abertos e canaliza verbas para pequenas e médias empresas selecionadas. O objetivo do MANTRA é claro: acelerar a transformação verde e digital das PME industriais europeias através da adoção de tecnologias avançadas e de inovação social.
O consórcio é coordenado pela Zabala Innovation e reúne oito parceiros de sete países, incluindo Portugal. O projeto decorre entre novembro de 2024 e abril de 2028 e estrutura o seu apoio em concursos sucessivos. A primeira open call selecionou 50 empresas. A segunda, aberta em 2026, vai selecionar mais 25 PME industriais, cada uma com um apoio de 50.000 euros a fundo perdido acompanhado de um programa de capacitação.
Necessidades que este instrumento resolve
O MANTRA cruza três necessidades que, na indústria, raramente se separam. A modernização tecnológica, a melhoria ambiental e o investimento que torna ambas possíveis. O valor do instrumento está precisamente em tratar as três como uma só agenda, com financiamento e mentoria desenhados para esse efeito.
- Digitalização e IA: o programa apoia a adoção de tecnologias avançadas como inteligência artificial, robótica, internet das coisas e análise de dados em contexto fabril, com prioridade a empresas de baixa intensidade tecnológica que precisam de dar o primeiro passo.
- Sustentabilidade, energia e clima: a transformação digital é instrumental para um fim ambiental, processos mais eficientes em recursos, lógica de economia circular e modelos de negócio sustentáveis na produção.
- Investimento produtivo: os 50.000 euros a fundo perdido financiam a implementação concreta dessa modernização na linha de produção, sem diluição de capital nem dívida associada.
O apoio e o que cobre
A componente financeira é simples de ler. Cada empresa selecionada na segunda open call recebe 50.000 euros a fundo perdido, sem reembolso e sem entrada de investidores no capital. A dimensão do programa nesta fase é a seguinte.
O dinheiro é a parte visível, não a totalidade do apoio. O MANTRA combina a verba com um programa estruturado de acompanhamento que, para muitas PME industriais, vale tanto quanto o cheque:
- Diagnóstico e due diligence: avaliação inicial do ponto de partida tecnológico e de sustentabilidade da empresa.
- Mentoria e consultoria personalizada: acompanhamento técnico ao longo do percurso de transformação.
- Matchmaking e laboratórios de cocriação: ligação entre empresas tradicionais e empresas tecnológicas, com ligação a Digital Innovation Hubs e outros facilitadores de inovação.
- Plataforma de comunidade: espaço de partilha de boas práticas, aprendizagem entre pares e visibilidade no marketplace do projeto.
Quem pode aceder
O MANTRA dirige-se a pequenas e médias empresas da indústria transformadora estabelecidas na União Europeia. O foco está em seis subsetores industriais, escolhidos por serem áreas tradicionais com margem evidente de modernização.
| Subsetor | Foco da transformação |
|---|---|
| Maquinaria | Automação, robótica e produção inteligente |
| Alimentar e bebidas | Eficiência de recursos e rastreabilidade digital |
| Têxtil | Circularidade e digitalização de processos |
| Plásticos | Economia circular e desempenho ambiental |
| Cerâmica | Eficiência energética e modernização fabril |
| Metais | Processos mais limpos e dados de produção |
Como se posiciona no ecossistema
Para uma PME portuguesa, o MANTRA ocupa um espaço próprio. Não compete com os grandes incentivos do Portugal 2030, que financiam projetos de investimento de maior dimensão com candidaturas mais exigentes. Compete, sim, pela atenção de quem precisa de um apoio rápido, de montante moderado e com acompanhamento técnico incluído, sem a carga administrativa de um sistema de incentivos clássico.
O instrumento aproxima-se mais do registo de um EIC Accelerator em fase inicial ou de um voucher de inovação reforçado, pela combinação de verba a fundo perdido com mentoria. A diferença está na especialização. O MANTRA não é transversal, vive dentro de seis subsetores industriais e de uma agenda concreta, verde e digital ao mesmo tempo. Para a empresa certa, essa especialização é uma vantagem, porque o acompanhamento é desenhado para o seu contexto, não genérico.
O que recomendamos
O MANTRA é interessante para um perfil muito específico de empresa. É aí que deve ser avaliado com honestidade. Se a sua empresa é uma PME industrial num dos seis subsetores, com um projeto real de modernização tecnológica ligado a ganhos de sustentabilidade, este é um instrumento a considerar a sério. O montante não transforma uma fábrica inteira, mas é capital limpo, sem reembolso nem diluição. O acompanhamento técnico vale para quem ainda não tem maturidade digital.
Há dois erros a evitar. O primeiro é encarar os 50.000 euros como o centro da oportunidade. O valor do MANTRA está tanto na mentoria, no matchmaking e no acesso a Digital Innovation Hubs como no cheque. Uma candidatura que só pensa no dinheiro tende a ser fraca. O segundo é tratar o MANTRA como substituto dos grandes incentivos. Não é. Funciona melhor como primeiro passo, ou como complemento a um percurso de financiamento mais amplo que pode incluir o Portugal 2030 ou outros instrumentos. As open calls têm prazos curtos e edições limitadas, por isso a preparação atempada da candidatura, alinhada com os critérios do concurso em vigor, faz a diferença entre concorrer bem e concorrer à pressa.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]