A UGT não vai à greve. A segunda maior central sindical do país, a que historicamente alinha à esquerda moderada e raramente recusa um protesto contra um governo do PSD, decidiu que a paralisação de 3 de junho é, nas suas próprias palavras, extemporânea. O argumento tem o defeito de fazer sentido. A reforma laboral acabou de chegar ao Parlamento e ainda não foi votada na generalidade. Parar o país contra uma lei que ainda não existe é gastar a pólvora antes de ver o alvo.

Convém lembrar o que se passou da última vez. A 11 de dezembro, CGTP e UGT marcharam juntas e o país acordou no ritual do costume. A CGTP falou em mais de três milhões de trabalhadores parados. O Governo respondeu que fora uma minoria. O setor privado reportou adesões entre zero e dez por cento. A única coisa provada nesse dia foi que ninguém em Portugal consegue contar quantas pessoas fazem greve. Cada lado escolheu o número que lhe convinha e foi para casa convencido de que tinha vencido.

Reparem no que isto diz a quem efetivamente faz greve. O sucesso de uma paralisação geral não se mede em nada que chegue à vida de quem trabalha. Mede-se numa conferência de imprensa, numa fotografia de avenida cheia, numa guerra de percentagens que nenhum organismo independente audita. E o recurso à greve nem sequer está a diminuir: foram 219 em 2024, com mais oito por cento de trabalhadores envolvidos e mais quinze por cento de dias de trabalho perdidos do que no ano anterior. O trabalhador que ficou em casa não recebeu nada em troca. Perdeu um dia de salário para que dois aparelhos discutissem na televisão de quem era a multidão.

A conta deste dia parado é simples de fazer. O salário mínimo nacional em 2026 é de 920 euros brutos, 818 euros líquidos depois dos descontos. Um mês tem, em média, vinte e dois dias úteis. Um dia de greve para quem ganha o mínimo são cerca de 42 euros que não regressam, porque o dia parado não se paga nem conta para a antiguidade. Para quem ganha o salário médio, ronda os 90. Para boa parte das famílias em cujo nome a greve é convocada, esses 42 euros são a fatura da luz ou a diferença entre fechar ou não fechar o mês.

Aqui chega o ponto que raramente se diz em voz alta. Quem faz greve em Portugal não é, em regra, o trabalhador precário do privado. A taxa de sindicalização no setor privado é de sete por cento. Sete em cada cem. A 11 de dezembro, a adesão na administração pública e local andou entre os oitenta e os cem por cento e no privado ficou-se pela faixa dos zero a dez. A greve geral é, na prática, uma greve da função pública, conduzida por quem tem o emprego mais protegido que existe no país, em nome de quem tem o menos protegido e que continua a trabalhar nesse dia porque não se pode dar ao luxo de parar.

E há uma camada de ironia a mais. As alterações mais duras do pacote, a dispensa de reintegração e o recurso ao outsourcing, mordem sobretudo no setor privado. O vínculo da função pública, que é onde a greve tem força, rege-se por outro estatuto e não é tocado nos mesmos termos. As vozes mais altas do protesto são, em boa medida, as menos expostas àquilo que protestam. As mais expostas, essas, estão ao balcão, na obra, na linha de montagem, a trabalhar.

Há ainda quem pague a greve sem sequer a fazer. A 11 de dezembro, cerca de oitenta e cinco por cento das escolas fecharam, na maioria por falta de auxiliares. Os comboios, os metros e os autocarros sofreram cortes severos. O trabalhador do privado que não aderiu, sendo a esmagadora maioria, viu-se na mesma sem transporte para chegar ao emprego e sem escola onde deixar os filhos. A greve da função pública impõe assim uma fatura a quem não a convocou nem a quis. Defende-se o trabalhador parando o país a um trabalhador que preferia estar a trabalhar.

Falta dizer o que se está a combater. O discurso da greve parte do princípio de que o pacote laboral é um ataque frontal a quem trabalha. A leitura honesta do documento é mais aborrecida do que isso. São mais de cem alterações ao Código do Trabalho e nem todas apontam na mesma direção. A indemnização mínima por despedimento ilícito sobe de trinta para quarenta e cinco dias por cada ano de antiguidade, o que é melhor para o trabalhador, não pior. O banco de horas regressa, mas apenas por acordo individual, dependente do consentimento de quem trabalha. Um inquérito da Aximage para o Diário de Notícias mostra que dois em cada três portugueses querem mudar a lei laboral, mesmo rejeitando este pacote em concreto. A greve acaba a defender um statu quo que a maioria do país já disse querer ver mudado.

E mesmo que tudo no pacote fosse mau, faltava explicar de que maneira uma greve geral trava uma lei. Não trava nenhuma: a proposta segue para o Parlamento na mesma, é votada na mesma, negoceia-se artigo a artigo num hemiciclo onde a CGTP não tem assento. O que move uma cláusula é uma audição, um parecer técnico, um voto. A avenida cheia, essa, move manchetes no dia e esvazia-se no dia seguinte.

Quero ser justo, porque a posição preguiçosa seria fingir que não há nada a contestar no pacote. Há. A dispensa de reintegração de trabalhadores despedidos de forma ilícita, que a proposta alarga a todas as empresas, é matéria séria. A redução do prazo de proibição de outsourcing após despedimentos, de doze para seis meses, abre uma porta que se presta a abusos. São pontos concretos e defensáveis, que beneficiariam de pressão organizada, de negociação dura, de uma UGT dentro da sala em vez de uma CGTP sozinha na rua. A ironia amarga é que a forma de protesto escolhida é precisamente a que menos serve estas causas.

No dia 4 de junho, a lei estará exatamente onde estava no dia 2: à espera de ser votada. A diferença é que alguns milhares de trabalhadores, muitos deles a ganhar perto dos 920 euros, terão menos 42 euros no fim do mês e um número de adesão que jamais poderão confirmar. A CGTP dirá que foram três milhões. O Governo dirá que foi uma minoria. E o trabalhador, esse, paga a fatura inteira para descobrir, na manhã seguinte, que a guerra dos números recomeça do zero e a vida dele continua exatamente igual.

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