A conectividade como infraestrutura de soberania
A Uniao Europeia tem vindo a reconhecer que a conectividade digital nao e apenas uma questao técnica ou economica. E uma questao de soberania. As redes backbone que transportam dados entre continentes, que ligam data centers, que suportam servicos criticos de governo e economia, representam uma infraestrutura cujas vulnerabilidades sao hoje exploradas geopoliticamente. A iniciativa Global Gateway, a resposta europeia as ambicoes de conectividade global de outras potencias, coloca no centro a necessidade de rotas de comunicação proprias, resilientes e seguras.
E neste contexto que a call CEF-DIG-2026-GATEWAYS surge com uma dotacao expressiva de 180 milhoes de euros. O objetivo e financiar o desenvolvimento ou a atualizacao significativa de redes backbone que suportem os Digital Global Gateways, os nos de conectividade que a Europa pretende construir ou reforcar em Africa, Asia, America Latina e nos Balcas.
Tres tipos de backbone no ambito da call
A call cobre tres categorias de infraestrutura backbone, cada uma com caracteristicas técnicas e operacionais distintas. A elegibilidade estende-se tanto ao desenvolvimento de nova infraestrutura como a atualizacoes significativas de sistemas existentes, desde que essa atualizacao responda a riscos de seguranca ou vulnerabilidades identificadas.
- Cabos submarinos de fibra otica: infraestrutura de transmissao de dados de longa distancia, tipicamente entre continentes ou entre ilhas e o território continental. O financiamento abrange tanto a instalação de novos cabos como a substituicao ou reforco de segmentos vulneraveis em cabos existentes
- Redes de fibra terrestre backbone: infraestrutura de transporte de dados em território continental, que liga pontos de presenca, Internet Exchange Points (IXPs) e outros nos criticos de rede. Inclui ligacoes transfronteiricas dentro da UE e com paises vizinhos
- Estacoes terrestres para comunicacoes por satelite: infraestrutura de ligacao entre o segmento terrestre e o segmento espacial, essencial para garantir conectividade em zonas remotas ou em contextos de falha das redes fisicas terrestres
O criterio transversal a todas as categorias e a dimensao de seguranca e resiliencia. A call nao financia simples expansoes de capacidade de rede por razoes comerciais. Os projetos devem demonstrar que enderecem riscos de seguranca concretos ou que reduzam a dependencia de infraestrutura controlada por entidades fora do ecossistema europeu.
Para que tipo de organização e esta call
A escala e a complexidade técnica desta call limitam o universo de candidatos viavel a um conjunto restrito de organizações. O montante de 180 milhoes de euros distribui-se por projetos de grande dimensao, o que significa que cada proposta individual deveremos esperar que mobilize dezenas de milhoes de euros.
Os perfis com maior probabilidade de elegibilidade e competitividade incluem: operadores de telecomunicacoes com infraestrutura de longa distancia (cabos submarinos ou fibra terrestre backbone), consorcio de empresas de tecnologia e infraestrutura de rede com capacidade de execução internacional, entidades governamentais ou reguladoras com mandato em infraestrutura critica de comunicacoes e entidades de investigação avancada com experiencia em infraestrutura de rede de alto desempenho.
A natureza transnacional dos projetos backbone torna particularmente relevante a constituicao de consorcios multi-pais. Uma proposta que envolva entidades de dois ou mais Estados-Membros, especialmente se a infraestrutura proposta atravessa fronteiras, tende a ser melhor posicionada para demonstrar o valor europeu acrescentado que a call exige.
O que recomendamos
A call CEF-DIG-2026-GATEWAYS e uma das mais relevantes do CEF Digital em termos de dotacao e ambicao estratégica. Para as organizações certas, representa uma oportunidade de financiamento significativo para projetos de infraestrutura que, pela sua complexidade e custo, dificilmente seriam viabilizados por financiamento puramente privado.
O prazo de 30 de junho de 2026 deixa margem suficiente para preparar uma proposta robusta, mas nao deve ser subestimado. Projetos de infraestrutura backbone implicam estudos de viabilidade técnica detalhados, negociacao de acordos com parceiros internacionais, avaliação de impacto ambiental e maritimo (no caso de cabos submarinos) e um plano financeiro que demonstre sustentabilidade pos-projeto. Estes elementos levam tempo a preparar.
Para organizações portuguesas, a posicao geografica de Portugal como ponto de entrada de cabos submarinos do Atlantico e um ativo estratégico natural neste contexto. A infraestrutura de cabos que liga Portugal a Africa, ao Brasil e aos EUA posiciona o pais como candidato natural para projetos que reforcem a resiliencia das rotas transatlanticas no quadro dos Digital Global Gateways.
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